segunda-feira, abril 18, 2005

Algo me atingiu

Eu sei, tenho certeza de que quando sair pela porta o funeral já terá terminado. Quando cheguei aqui hoje me pareceu mesmo estranho não encontrar estacionamento e tive que dirigir para longe em busca de uma vaga. Passando vizinho à igreja pude ver uma multidão espremida e então entendi o porque das ruas vazias. Lembrei-me da noticia lida pela manha e me vieram a mente os dois rapazes que perderam a vida em uma curva onde o automóvel foi encontrar a única arvore em questão de centenas de metros. Os seus corpos começaram o mais longo processo da vida que é o da não existência.

Todos os dias os jornais locais noticiam uma morte de jovens, invariavelmente em acidentes de moto ou carro, invariavelmente entre meia noite e cinco da manhã, invariavelmente pouco depois de se despedirem de amigos em um bar ou pub. Invariavelmente também os jornais nunca dizem que a causa pode ser o álcool. Dizem sempre que as causa serão acertadas, talvez tenha sido um mal estar, ou uma desgraça causada por um pouco de pressa já que a intenção era chegar logo em casa para não preocupar mamãe. Nunca dizem que os infelizes estavam enchendo a cara e resolveram fazer um racha ou coisa do tipo. Nunca. Um pouco por respeito aos mortos, mas também por questões de interesse. A região está pouco a pouco se transformando em um vinhedo e a produção de vinho e grappa cresce de ano a ano. Daqui a pouco não plantam mais comida e se der crise no vinho, vamos comer casca e folha de uva.

Dizendo isso pode parecer que sou um moralista abstêmio. Gostaria de ser, mas não è o caso. Na verdade sou um sobrevivente dessas loucuras todas e no fundo tenho muita sorte de estar ainda aqui escrevendo. Porem aquela historia de ter sempre um amigo sóbrio para dirigir me parece, para dizer o mínimo, uma idéia pra lá de razoável. O problema è decidir quem faz o motorista naquela noite. Sorteio seria uma boa, ou então no palitinho. Para combinar com o ambiente de bar me parece perfeito o palitinho.

Olho pra fora e me parece que o funeral já acabou. Um deles tinha 19 anos e o outro 17. Vejo as mães que saem também praticamente mortas pela dor e a multidao de jovens que choram de cabeça baixa. Sexta feira deixo o palitinho pra lá. Me ofereço pra levar os amigos pra casa.

5 Comments:

Anonymous Mônica said...

Os seus corpos começaram o mais longo processo da vida que é o da não existência.

É uma situação triste, mas queria comentar primeiro que achei linda sua frase. Olha, eu já soube de muitos casos de bebedeira e, conseqüentemente, acidentes fatais.

Concordo com você: ou um dirige ou todos usam táxi. E sabe o que acho grave também? Muitas vezes esses acidentes arrastam para a tragédia pessoas que não tinham nada a ver com a história.

Bom, o assunto é pesado, mas você escreveu de um jeito muito bonito.

Beijo,

Mônica.

11:05 PM  
Blogger Fernando said...

Pois é, Flavio,
Isso também me atinge!
E machuca. Meus filhos mais velhos já passaram da idade de fazer essas bobagens, mas tenho duas mais novas (19 e 20 anos), que, por mais tranquilas e inteligentes que sejam, saem com amigos e amigas, as vezes bebem...preocupa-me.
O pior de tudo é que se algum dos jovens, os que não beberam, pedir para levar o carro, dificilmente é aceito.
Só combinando antes!
Dolorosamente burro, esse acontecimento.
Abração
fernando cals

1:05 AM  
Anonymous Roberson said...

Flavio:

Retribuindo a visita, encontro esse belíssimo post.
Um dado estatístico pra você: segundo levantamento do instituto de medicina legal de Goiânia, 78% dos óbitos envolvendo acidentes de trânsito estão relacionados à intoxicação etílica.

2:22 AM  
Blogger Rafael Reinehr said...

Puxa...

Foram tantas as vezes que saí de uma festa depois de ter bebido algumas aos 18, 20, até 22 anos...

E foi justamente numa dessas, em um dia de chuva, depois de ter bebido mais do que o suficiente, voltava sozinho para casa e a curva era mais longa do que parecia...

Dei de cara com um poste. Perda total do veículo. Vergonha total em casa. Graças à Natureza, ainda estou aqui para contar a história...

Nunca mais depois daquela vez...

Mas... E aqueles que foram na primeira vez? E os nossos filhos?

Educação basta? E que educação basta?

2:43 AM  
Blogger Iraldo said...

Pois cerveja e viagens de motocicleta são meus dois hobbies preferidos desde os 19 anos. Para mim, um complementa o outro e não fazem sentido isoladamente. Até quando? Não sei. Cada um tem a sua parcela de autodestrição. Talvez esta seja a minha.

8:42 AM  

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