segunda-feira, maio 30, 2005

La Macchina

Assim que cheguei na Italia comprei uma Ferrari. Foram realmente interessantes as circunstâncias desse fato. Tinha que comprar um carro e me dirigi a uma loja daquelas especializadas. O vendedor me atendeu muito bem (acho que foi com minha cara) e diante do meu sotaque estrangeiro que ele dizia ser muito bonito, me mostrou um carrinho branco que se parecia muito com um Fiat Uno. Mas então meu amigo vendedor (eu faço amizade rapidamente) me explicou tratar-se de uma Ferrari com camuflagem especial. Me explicou tudo, que na Italia se roubava muita Ferrari, então resolveram fabricar este modêlo que em tudo se assemelhava a uma Uno, mas a grande diferença estava nos detalhes. Foi então que se dirigindo à traseira me mostrou um adesivo meio mal colado onde se lia: Turbo. Fiquei entusiasmado. Uma Ferrari é o sonho de todo mundo que dirige um carro. Mas aí ele me encarou muito sério e me disse com uma voz baixa e confidente:

- Mas vê se não vai sair falando pra todo mundo que eu estou te vendendo esta Ferrari a este preço senão meu patrão me mata.

- Realmente, pelo que me lembro do que vi nas revistas, esta aqui está a metade do preço de tabela.

- De fato, mas é claro que além deste preço tem mais os emolumentos, o emplacamento, a regulamentação e o entubamento final.

- Entubamento final? Nunca ouvi falar nisso. Mas é caro?

- Não, tudo somado são mais uns trinta por cento.

- Ainda tá barato, mas me parece usado esse carro.

- Usado? Hahahaha. Se vê que voces brasileiros sabem dirigir mas não conhecem carros. Pois te falei que é um carro camuflado! Tem cara de Uno 87 não é a toa.

- Desculpe a ignorância. Puxa vida! Como pude fazer uma pergunta dessas! Hehehe. Bem, negocio fechado. Só tenho que ver se o dinheiro da venda do meu apartamento no Brasil já caiu na minha conta e então junto com mais o do terreno de Campos do Jordão e aí da pra arrematar cash aqui. Me dá um desconto então?

- Desconto? Voce está brincando? Vai comprar Ferrari e pede desconto? O que tá pensando que somos? Aliás me lembrei, tem também a taxa de pinguliação.

- ???

- Mas essa eu deixo pra lá, faço por conta da casa.

- Voce é mesmo meu amigo.

- Claro, e dos bons, pode crer.

Quando entrei na minha Ferrari e acelerei, pensei que meu coração ia saltar pela boca, tamanha emoção. Chegando em casa, meus filhos foram gritando: Fiat Uno! Fiat Uno! Soltei uma gargalhada e me dirigi em passo elegante até a traseira e lhes mostrei o adesivo: Turbo. Eles se entreolharam interrogativos e me perguntaram em coro: “e dai?” Quando lhes expliquei tudo ficaram maravilhados. Minha mulher disse que eu era louco de torrar um apartamento e um terreno em um carro que afinal se parecia demais com um caco velho e pior, tinha até cheiro de caco velho e três pontos de ferrugem na porta. Isso me fez rir de novo. Todos nós homens sabemos como as mulheres são ignorantes nessas questões automobilísticas. Nem entrei em detalhes pois ela não iria mesmo entender e eu não queria me aborrecer.

Aquela máquina infernal me dava imensas alegrias, apesar de algumas multas por excesso de velocidade. Em uma ocasião, atrasado para uma reunião os policiais me pararam dizendo que o radar acusava 89 Km/h naquela estrada onde se podia ir ao máximo a 60. Eu estava mesmo voando baixo mas não podia dar bobeira. Nessas horas a melhor coisa a fazer é argumentar:

- Policiais, sei o quanto isso é importante pra voces, voces estão fazendo o trabalho de voces que aliás eu ajudo a pagar, mas vocês tem que entender que tendo uma máquina destas na mão, fica difícil se controlar.

Percebi que eles sorriam. Isso era bom sinal. Mas aí um deles olhando meus documentos me diz:

- O senhor não tem medo de desintegrar esse teu Uno 87 andando assim próximo à velocidade da luz? Hehehe.

- Uno 87? Hahaha. Policial, não quero ensinar o padre nosso ao vigário, mas talvez voces não tenham notado isso.

E girando com decisão e muito garbo apontei pra etiqueta “Turbo”. Eles se entreolharam interrogativos e me perguntaram em coro: “e dai?”

- E dai? – disse eu – E dai? Daí que tem que ser muito panaca pra não reconhecer uma Ferrari. Policiais, vocês podiam dormir sem essa hoje, não?

- Nem o senhor pode dormir sem estas três aqui.

- O que são? Velocidade, desacato e tentativa de suborno. Como tentativa de suborno? Voces estão loucos?

- O caso é que não temos como colocar aí na multa que voce é um idiota. Aceite isso e cale a boca antes que eu te leve preso. Tenha um bom dia.

Inveja é realmente uma coisa perniciosa. Mas eu fui me acostumando. Até o dia em que perdi a minha Ferrari querida. Estava chovendo e o limpador de para brisas estava com problemas. Já tinha ligado pra Maranello mas ninguém soube me responder sobre o assunto. Achei que estavam muito empenhados com a Formula 1 e decidi ligar depois da temporada. Naquele dia eu não conseguia enxergar nada e quando saí daquela curva a 70 Km/h tive a sensação de que algo ia acontecer. Na primeira capotada fui jogado pra fora e pude ver então a minha “macchina” descer a ribanceira rolando e soltando peças para todos os lados. Não queria ver mas não resisti e aterrorizado fiquei muitos minutos a contemplar aquele monte de ferro retorcido duzentos metros abaixo de onde estava. Quantos sonhos me foram desfeitos naquele momento. Quantos sacrificios meus e de minha família, rolaram assim e se desmancharam. Com a cabeça entre os joelhos, chorei, como não fazia desde que tinha doze anos. Me senti uma criança perdida e olhando mais uma vez para a minha Ferrari disse a mim mesmo com uma voz bem baixinha:

- Eu sabia quem voce era na verdade, mas sabe, os nossos sonhos são mais importantes.

sexta-feira, maio 27, 2005

Vida, amor e guerra. (replay)

Afinal acabou essa guerra e então corri os campos, que maravilha começavam a florir e após tanto sangue e lágrimas e corpos e não só, também suas partes, perdidas e derramadas por belas paisagens que me faziam tremer diante desta vingança de Deus.

Deus vingativo, queremos só nosso pão e tínhamos que combater antes que nos aniquilassem e corria e pensava sobre o orvalho e alegre vi ao longe aquela figura que me rebrotava os sentimentos. Era toda fêmea e me parecia algo a ser reconhecido, reaprendido, bela e totalmente sorridente que me vinha de chorar de emoção e então a tomei nos braços e a levei detrás de um arbusto e nos batemos em loucura feliz e joguei minha arma de lado e nem vi para onde disparou.

Os botões da calça nem os vi como os arranquei e a cinta com as balas e a camisa e tantas de suas saias e anáguas e cintas e outras coisas e belas demoras que fazem subir a temperatura.

Que pele branca, que carnes tenras e seios redondos, isso é um sonho e tudo vai acabar, mas o sublime Deus voltou a sorrir e nos guarda dos pecados e sim como é suave esse perfume de desejo, esse aroma da paixão embriagante.

Então pude separar aquelas pernas macias e cumprir minha missão com a maior recompensa que um homem pode sonhar e fui colhido pelo absoluto e entendi que a vida é a única coisa que temos. De novo corri mas foi o melhor caminho do mundo e queria agradecer a água o ar o fogo e a quem criou os arbustos.

Recolhi frutos e voltei sedento, a joguei sobre o cavalo e pudemos juntos aprender a existência do universo.

Nasceram meus filhos que melhores não podem ser e foi assim que passei pelo mundo.

Agora que aqui, morto de novo pela guerra, me pergunto, quando irão de novo encontrar um arbusto.

quarta-feira, maio 25, 2005

Ironia é caso serio.

De acordo com uma equipe de cientistas do centro médico do Rambam Medical Center de Haifa em Israel, para compreender a ironia o nosso cérebro deve fazer um enorme trabalho “em equipe” a fim de apreender o significado que se esconde entre as linhas de certas frases. As zonas dos miolos que são acionadas na ação a fim de decodificar o sarcasmo seriam três. Se uma única destas não trabalhar... a graça da piada será comprometida. Os persquisadores conduziram uma experiência em algumas pessoas das quais 25 delas tinham danos no lobo prefrontal do cérebro, 16 no lobo posterior e 17 eram saudáveis. A area do cortex lobofrontal é a mesma que nos faz prever consequências e nos faz por isso mesmo, sentir mêdo. O riso e o mêdo são intimos amigos. Pois bem, os voluntários escutaram várias histórias, algumas sarcásticas e outras neutras. Somente aquelas que tiveram lesões na parte prefrontal não conseguiram entender a ironia. Os cientistas perceberam que os maiores problemas ocorrem quando os danos são localizados em uma área precisa do lobo prefrontal, chamada de ventromedial. Do estudo emerge que o processo da interpretação começa na zona envolvida na linguagem, capaz de captar o sentido literal da frase. Então é a vez dos lobos frontais que compreendem o contexto social na qual é inserida e finalmente a área ventromedial integra toda a informação, revelando o verdadeiro significado da frase. A nova descoberta da "anatomia" do sarcasmo poderia ter implicações importantes no estudo das alterações da personalidade nas pessoas com lesões no cérebro ou nos autistas, que tendo grandes dificuldades na esfera social e de relacionamento, não estão em condições de compreender o sarcasmo. Por certo logo logo surge uma nova droga capaz de fazer com que todos entendam meu blog, por exemplo.

segunda-feira, maio 23, 2005

Rapidinhas

A publicidade é seriamente prejudicial à saúde.

Segundo uma pesquisa feita aqui na Italia, 22% das crianças acredita que no paraiso se beba um monte de café, em função de um spot de uma marca famosa do produto, ambientado no céu. Este é um dos temas de uma convenção de pedagogogos em Bolonha este mes. Qual seria o resultado dessa reunião? Uma declaração de guerra dos pedagogos enraivecidos unidos que atacam os publicitários em seus castelos de cristal? Já vi isso em algum lugar.

Palavra de Bush

"Eu passarei muito tempo a me ocupar da Previdencia social. Gosto disso. Gosto muito de enfrentar o desafio. Penso que seja a mãe que está em mim." (George Bush, frase pronunciada em 14 de abril em Washington, fonte: Internacional). Por sorte os destinos do mundo não estão nas mãos de um asno como esse. Pelo menos é isso que me diz a idiota que está em mim.

No nome do pai, do filho e da juiza Laura Martoni

Dois responsaveis da rádio Vaticano foram condenados por "lançamento perigoso de coisas", como resultado do inquérito que durou 6 anos, de presumida poluição eletromagnética produzida pelas antenas da emissora a Cesano, Roma. A pena, 10 dias de cadeia, foi suspensa com a condicional. Em Cesano coisas estranhas aconteciam: podia-se ouvir o rosário pelo telefone de casa sem discar nada ou então os programas da rádio Vaticano no interfone. A parte o lado divertido, casos de câncer acima da média nacional estão sendo investigados para eventuais estabelecimentos de relação causa-efeito. O fato é que a antena santa é uma das mais potentes do mundo e fica situada em uma zona residencial.

O pão da paz

No dia primeiro de junho será comemorado em Betania, na Galiléia, o primeiro dia do pão. 100 mulheres, entre israelitas e palestinas, vão se encontrar com o objetivo de cozinhar e distribuir o pão da paz. Iniciativas similares estarão acontecendo também na Italia. (fonte: Lifegate.it). Acredito que isso vale mais que mil fóruns de discussão sobre o tema. Mulheres que distribuem pão é o maior sinal de que a vida é ainda possivel.

Energia

O Time dedica um longo artigo, com o título “Power to the people" (energia/poder as pessoas/povos) que fala da vila ecologica de Beddington, ao sul de Londres. E' o primeiro complexo inglês de edifício à emissão zero de poluição. A comunidade inteira desfruta da microgeração de energia. Não esiste um grande sistema central de produção, poluente, mas muitos pontos de produção energética, exclusivamente de fontes renováveis (tipo pequenas turbinas de vento e/ou painéis fotovoltaicos em cada casa). Todos as casas tiram proveito máximo da luz natural. Porque os caboclos ficam imitando os caras só quando vão tocar guitarra?

Declarações

Em uma entrevista ao tabloide The Sun, Tony Blair revelara que consegue fazer amor com a sua esposa até cinco vezes ao dia. Pergunta-se então quando encontra tempo de governar a Grã Bretanha. Bem, pensando bem, esse é o perfil do governante ideal. Enquanto está fazendo com a mulher talvez não pense em fazer o mesmo com o povo. Quem sabe o viagra não será a arma da revolução politica do seculo 21?


Animal de estimação

sábado, maio 21, 2005

Eles

Lá estão eles, sentados sempre naquele canto do bar, bebendo uma cerveja e falando. Falam muito alto e riem e parece que o que falam é muito interessante. Seus corpos assumem poses esteticamente estudadas para impressionar. São pessoas não muito bonitas mas tem postura e parece que ganham importância com isso. Não os conheço e nunca vou querer conhece-los. Estragaria a mágica do nosso relacionamento, pois os vejo quase todos os dias e talvez eles façam o mesmo, é possivel que me vejam, mas são anônimos. Quero que seja assim, gente que vejo e não conheço. Morrerei sem saber do que falam, do que tramam, do que combinam. Não serei nunca convidado por eles para algo e não poderei levar pra cama nenhuma delas. Mas se me apresento, digo quem sou, passo a fazer parte e ai então como poderei ficar aqui com meu copo, imaginando que eles são tudo o que eu nunca consegui ser? Como posso destruir minha convicção que o que eles dizem é algo de espetacular e fora do meu entendimento? Bela gente, que ri, que brinca, que fala coisas importantes. Eu? Eu e meu copo, daqui fico olhando e isso é tudo o que posso e devo fazer.

sexta-feira, maio 20, 2005

Aniversários do dia

Fazem aniversario hoje, mamãe e uma amiga blogueira, a Monica.
Feliz aniversário, portanto. Duas mulheres, dois percursos de vida, duas almas que cumprem mais uma etapa nesse nosso contar do tempo que no fim das contas, mesmo que ritualistico e costumeiro, nos enche de jóia. O que significa tudo isso que disse? Não faço a mais pálida ideia. Alguém por favor, me ajude.

segunda-feira, maio 16, 2005

Acorrentado

Eu detesto correntes. Porém me mandaram esta aqui e me pediram muito pra participar, mas desconfio que com as dezenas de transposições, algo tenha sido alterado, como naquela brincadeira do telefone sem fio. Em todo caso respondi às perguntas.

Não podendo sair de uma cápsula de césio 137 que tipo de câncer voce gostaria de ter?

Qualquer um desde que fulminante, assim descanso em paz e nunca mais vou ter que ler listas e correntes na internet.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma sacanagem da fricção?

Claro, veja meu post Ok Computer logo abaixo, foram quatro dias lidando com a fricção da embreagem.

Qual foi o último vírus que contraiste?

O de uma gripe lascada no último inverno mas desconfio que ele ainda está por aqui. Aliás, vírus tem pernas?

Qual foi o último livro que oeste?

Vida e Norte no buraco do Sul do geógrafo equatoriano D. Zorient. Mas afinal, porque alguem vai querer saber que livro oesto?

Quantos litros consegues beber?

Na ultima Oktoberfest mamei cinco, mas aí dá problema pra dirigir porque a estrada desaparece.

Que lindos (5) levarias para uma ilha deserta?

Eu levar cinco lindos pra uma ilha deserta? Você tá me estranhando? Sai fora bicho mal feito!

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

Não vou passar pra ninguém, isso não se faz.

sábado, maio 14, 2005


Obra em Salina

Stromboli que cospe

sexta-feira, maio 13, 2005

OK Computer

Um arquiteto hoje trabalha fundamentalmente diante de um computador. Para piorar, muitas vezes se diverte também na frente do mesmo. Computadores são belas coisas mas dão tendinite e barriga.

Remexendo em meus cds encontro Ok Computer do Radiohead. Maravilha de musica e texto que não se sabe bem se é rock, pop, ou o que. Em todo caso é musica que faz emocionar e no final é isso que importa. Porém me lembro que o cd é do Silvano e que devo devolve-lo. Na ultima vez que lhe telefonei, ele me respondeu meio ofegante que hoje não venha aqui não, acabo de me separar e estou morando provisoriamente em um lugar nojento, me liga outro dia. Isso já faz um ano, penso que já posso ligar. Ouço “Airbag” e penso em quantas vezes toquei esse rif na guitarra. A ponto de meu filho me mandar estudar outra coisa.

O Silvano eu conheci em uma situação particular, dois anos atrás. Eu fazia consultoria e projetos para uma pequena empresa de instalações e decoração. Entre tanto projetos que fiz, um era para uma casa na ilha de Salina no arquipélago Eolie na Sicília. Reforma completa mais arquitetura de interiores. Nunca conheci o proprietário que me disseram tratar-se de um empresário de Brescia. Era uma bela casa típica mediterrânea com seu varandão frontal tomando toda a largura da fachada e suas paredes brancas e irregulares. Tudo projetado, aprovado, pago e esquecido, um belo dia o proprietário da empresa me chama e me diz:

- Flavio, a obra lá em Salina está quase terminando, estamos na fase de meter já os móveis e eu vou pra lá daqui a quinze dias. O problema é que na próxima semana não teremos ninguém pra coordenar os trabalhos lá e pensei que você pudesse nos dar uma ajuda nesse sentido.

- Voltar a Salinas e coordenar a instalação dos moveis? Pode ser, mas...

- Sim mas não é só coordenar. Acontece que quando eu for eu vou com o furgão levar alguns moveis mas não basta, o furgão é pequeno, você teria que fazer o mesmo.

- Você esta me sugerindo que eu, um arquiteto, com especialização e larga experiência, vá dirigindo um caminhãozinho carregado de moveis por 800 km. até aquela zona que é o porto de Napoli e depois passe duas noites em balsa pra você economizar no transporte?

- Sim, é isso.

-Ok, eu topo.

-Pois bem segunda feira se parte e acompanhando você na estrada vai o furgão da empresa de estufas. O Silvano é quem vai instalar as estufas. Depois em Orvieto vocês se encontram com o outro caminhão dos moveis. Porem são duas noites na balsa e uma lá na ilha já que não tem balsa terça a noite. Mas já está tudo certo, os rapazes da obra estão te esperando lá e você dorme na casa que eles alugaram.

- Bem, se estamos no inferno o que custa um abraço no diabo?

Estufas em Salina? Essa ilha fica na mesma latitude da Líbia e o que o cara ia fazer com estufas lá? Bem, problema dele, na segunda partimos as seis da manhã e percebo que a embreagem está mais lisa que a careca do Amin, mas vamos em frente. Para inaugurar a semana e a viagem, um primeiro vexame. Meia hora depois de partirmos, já a cento e vinte por hora, me veio uma crise sem precedentes de vontade de ir ao banheiro. Domingo se come como um boi e ai não teve jeito. Liguei desesperado à empresa mas era cedo, não tinha ninguém, como não pensei nisso? Pensar? Ta brincando, pensar é já um esforço arriscado nessa situação. Liguei pro celular do proprietário.

- Rápido, me dá o numero do Silvano. Tenho que falar com ele. Vai, porra, é urgente

- Mas o que aconteceu? Vai me dizer que...

- Não aconteceu nada, ainda não, mas vai logo senão vai acontecer..

Bem, liguei pro Silvano dizendo que tinha que dar uma parada no próximo posto de serviço e quando desci do caminhão correndo com as pernas juntas e entrei meio azulado no banheiro, pude ouvir as suas gargalhadas.

Sugeri depois um café e então pudemos trocar aquelas palavras que se usam quando se conhece uma pessoa. De repente ele me diz:

- Você curte Radiohead?

- Sim, porque?

- Então pega aqui pra ouvir na viagem. Ok Computer.

E partimos, eu agora ouvindo “Paranoid Android” e a paisagem pareceu mudar. A Itália é bela e enorme, maior que a Europa. Quando se viaja ela cresce e se transmuta. “I may be paranoid, but not an android.” E o celular que não parava de tocar. Era sempre o proprietário da empresa querendo saber como eu estava.

- Olha se for o caso vocês dão uma parada e compram um remédio pra diarréia.

- Porra eu não tenho diarréia!! Eu só como demais, só isso.

- Olha la, só não vá me sujar o caminhão

- Vai cagar, vai.

- Olha quem diz.

Por pouco não joguei fora o celular.

Orvieto. Parada para almoço. Ligamos ao Valentino, motorista do terceiro caminhão que nos diz que está a apenas dez quilômetros. Feitas as apresentações comemos a bisteca ouvindo o Valentino, um clássico camionista cinquentão, discorrer sobre a necessidade de se fazer uma reforma tributária, onde as pessoas físicas teriam restituição integral e as empresas arcariam com toda a arrecadação. As alíquotas seriam escalonadas e de acordo com o faturamento e porte das empresas. Achei meio insólito, mas como estudei economia de forma muito superficial, não discuti.

Estrada. Ouço três vezes “Exit music(For A Film)” enquanto roda diante dos meus olhos o meu particular road movie spaghetti. “Today we escape, we escape” Chegamos a Napoli ao cair da tarde e a zona era maior que nunca. Bastou descer da cabine e se aproximou um tipo estranho me oferecendo um celular. Eles te vendem o telefone e depois dão um jeito de te dar um pacote com um tijolo dentro. O incrível é que muita gente cai nesse truque. O cara insiste.

- O modelo é novo, vale trezentos mas te vendo a cem.

- Se vale trezentos eu pensaria em pagar trezentos e não cem. Porque não me pede trezentos?

- Hehehe, ok, então ta, te vendo a trezentos.

- Não, ta muito caro.

O cara fica furioso porque vê que estou gozando com sua cara. Melhor bater em retirada porque aqui é meio perigoso, vamos para o porto.

Pesados os caminhões, o meu conta 7.340 kg. E se a embreagem não andava la muito grande coisa, no momento de manobrar o furgão dentro da balsa o cheiro de queimado me fez esperar problemas para o futuro próximo. Embarcados, o melhor a fazer é comer, ou não? Noto em uma placa escrita pessimamente à mão que o restaurante só abre as oito. Como estamos no sul e aqui é tudo mais ou menos mais ou menos as 8 e 50 abrem as portas. Todo o pessoal de bordo é napolitano e como característica, falam ao mesmo tempo. Todos os oito que ali estão no restaurante, garçons, caixa, todos, falam ao mesmo tempo, aos gritos. Isso normalmente, mas quando noto que falta o saleiro na mesa então vira um pandemônio. Um gritando ao outro: o sal ! o sal! Ate que vem o garçom com um pratinho cheio de sal e diz cortês e resignado: não encontramos o saleiro, o cozinheiro manda este com desculpas. Valentino então nos expõe melhor suas teorias a respeito da redistribuição de rendas como modo de se garantir a democracia e a estabilidade das instituições. Eu e Silvano escutamos atentos e os bocejos nos vem porque estamos muito cansados e não porque não nos interessa o discurso de Valentino.

Acordo as cinco da manhã e vou ver o dia nascer no convés. Logo depois chega Silvano que me fala de quanto bons são os ingleses em fazer musica, muito melhores que nós italianos. Me conta que foi contrabaixista de uma banda que vendeu dois mil LPs na Itália e mil na Coréia. Pergunto porque na Coréia e ele me diz que também queria saber. Mas sua paixão é não só a musica inglesa mas também o modo de vida.

- Ah, Inglaterra, isso sim que é pais, não essa merda cheia de comedores de macarrão.

- Discordo Silvano, acho que na Itália se faz boa musica também, só não é divulgada como se deve.

Chega então Valentino e se põe a nos dizer de como seria a Itália com a reforma tributária por ele idealizada. Ai não resisto e promovo um debate.

- Valentino, anos e anos de estrada dirigindo o caminhão fizeram de você um teórico de economia política. Me diga então aqui ao Silvano das diferenças entre a economia Italiana e a Inglesa, do ponto de vista musical, claro.

Enquanto eles discutiam meti os fones e ouvi “No Surprises”, que me elevou a outros patamares. “I'll take a quiet life, a handshake of carbon monoxide, with no alarms and no surprises” Ao longe pude ver a silhueta do Stromboli do qual nos aproximávamos devagar. Por longos minutos acho que horas ou dias, na verdade o tempo se diluiu, olhei para aquele monte cuspindo lava. Silvano e Valentino se aproximaram de onde eu estava e ficamos ali, os três, mudos observando aquele espetáculo único. Podia ouvir-se um rumor baixo e profundo quando a lava se alçava. Majestosos peidos magníficos da mãe terra. Aquele era um momento de pura ligação com o primordial. Um trilhão de coisa me vieram à mente e entendi que nessa vida se deve ser simples e verdadeiro. Olhei para Valentino e disse.

- A próxima vez que você abrir a boca pra falar de reforma tributaria eu dou um jeito de te jogar no mar.

Chegados à ilha não conseguia entender o porque nos haviam levado a algum canto desconhecido do Ribeirão da Ilha de Florianópolis. As pessoas, todas meio manezinhos da ilha, os seus gestos, atitudes, as casas, as pedras, tudo me fazia lembrar os tempos de Santa Catarina. Porem logo ali tinha a praia e a areia preta e a água quente pelos vulcões me fizeram realinhar os pensamentos.

Ligo para o mestre de obras que me diz:

- Quem é você?

- Como quem sou eu? Disseram-me que vocês estariam nos esperando aqui no porto, mas não veio ninguém.

- Nos não estamos esperando ninguém não. E desligou.

Pensei: começamos bem por aqui. Depois de mil ligações cruzadas aparece o tipo com a má vontade que mamãe lhe deu e começamos a escalada. Deveríamos levar os caminhões do outro lado do morro pela estradinha estreita e super inclinada. Os meus 7.340 Kg sem fricção de embreagem fizeram o percurso de quinze quilômetros em uma hora e dez minutos, em primeira e manobrando nas curvas. Quando me lembro, penso que não era eu. Não poderia ter feito tal loucura, mas fiz. Chegando la outra bela surpresa. Na ânsia de agradar o cliente, nosso amigo da empresa de decoração, mandou pra la os moveis enquanto ainda estavam na obra, pedreiros, eletricistas, gesseiros, pintores, carpinteiros e ceramistas, alem de duas moças contratadas no local para fazer a limpeza! Por instantes quis chorar mas logo depois me vinha o riso. Esse bando de gente se esbarrando e brigando, um estragando o trabalho do outro e as duas com um balde e uma vassoura nas mãos seguindo a sujeira e gritando: Porca puttana! Che schiffo!

Liguei pra Riva del Garda:

- Escuta, eu não vou coordenar porra nenhuma aqui. Não me meto nessa briga. Isso aqui é uma zona e ninguém nem sabe quem sou eu, imagina que eu vou orientar alguém aqui, me vão chutar o traseiro.

- Deixa que eu ligo pra eles e dou um jeito. E você, está melhor da diarréia?

- Não sei porque que quando você me fala de diarréia me lembro de sua mãe.

Mais mil telefonemas e cinco minutos depois aquele que nos pegou no porto com má vontade veio me falar:

- Doutor, estamos às suas ordens. E sorriu.

Acabava de ver como funcionam as coisas na terra da máfia. A gente ali é acostumada a ser subalterna, porem só serve a quem tem mesmo poder. Aproveitei:

-Precisamos descarregar os caminhões, preciso de ao menos quatro homens e depois de uma grua, mesmo pequena para descarregar os tijolos das estufas. Eu vou ao bar pois tenho problema na coluna e não posso carregar peso

- Não precisa pedir de novo, o senhor é que manda. O melhor bar é aquele perto da praia.

- Ok, vamos ver.

Pude girar então pela ilha ouvindo “The Tourist” e aquilo me fez bem apesar de me sentir um pouco idiota. “hey man, slow down, slow down, idiot, slow down, slow down.”

A noite na ilha foi infernal. O pessoal da obra, todo de Brescia, alugou uma casa no alto de uma colina. A vista era maravilhosa, melhor que a da casa em reforma que ficava em um buraco. O problema é que dormir com quarenta graus de temperatura e sendo atacado por pulgas e pernilongos carnívoros não é exatamente a idéia que faço do repouso. Botei o colchão na varanda e dormi olhando as estrelas e ouvindo o doce vôo dos pernilongos. No dia seguinte fui à praia acompanhado pelo Valentino que estranhamente não me falou nada sobre reforma fiscal. Silvano ficou la na casa, montando as estufas. Voltei lá ainda antes de partir e dei mais uma porção de orientações importantes, principalmente para as faxineiras: calma, garotas, calma.

Partimos eu e Valentino ao anoitecer e durante o jantar ele girou a conversa de tudo que foi jeito e eu só dizia bobagens pois sabia que vinha bomba. Na sobremesa ele me olhou e disse:

- Eu sei que não é todo mundo que gosta de economia. Mas as minhas teses são fruto de minhas reflexões e....

- Valentino, estamos em alto mar.

- Vamos tomar o café la fora?

- Ok.

- Já entendi, não falo mais.

- Bom garoto.

Todo o percurso de volta lutei contra o sono e tomei litros de café, coca.cola, energético, taurina e não dava jeito. Foram três noites de sono de merda e por três ou quatro vezes dormi ao volante. Ouvi ainda algumas vezes Ok Computer, a trilha sonora dessa aventura , pensando que por quatro dias estive longe de um computador mas lembrando sempre dele. Em Firenze me despedi de Valentino e lhe disse que em uma oportunidade melhor gostaria de aprofundar aquela conversa sobre reforma fiscal. Ele me abraçou forte e nos afastamos. Nunca mais o vi.

Estes quatro dias que passei longe de um computador me deixaram marcas.

Bem, vou ligar para o Silvano.

quinta-feira, maio 12, 2005

Esclarecendo dialéticamente sem adornos

Recebo um e-mail de uma pessoa reclamando destas minhas referências ao snobismo. Acontece que essa pessoa não percebeu que eu detesto o snobismo e a minha linguagem é fundamentalmente irônica.

Aliás, tudo neste blog é irônico, inclusive a frase acima, já que eu realmente sou snob.

Claro que terá sempre aquele que não perceberá por exemplo que tudo o que escrevi acima não corresponde à realidade dos fatos e é sim pura ironia.

Terão outros porém que pensarão entender a ironia, mas ai serão pegos de calças curtas, pois a ironia está sempre atrás da esquina nos esperando para nos encontrar desprevenidos. Isso porque tudo acima é irônico e não real.

Tudo é um grande labirinto de espelhos, onde afirmações falsas e verdadeiras se misturam, como em nosso inconsciente.

O problema é que com a frase acima dirão que sou uma cópia barata de algum escritor morto e, é lógico que estava sendo irônico, não queria dizer exatamente o que escrevi e sim talvez o contrario.

Nesta situação fica fácil perder o fio do discurso mas o que eu queria dizer era exatamente isso.

quarta-feira, maio 11, 2005


Projeto de uma casa francesa

segunda-feira, maio 09, 2005

Feijoada italiana

Quando os sambas começam a ecoar em nossa mente é hora de se partir para uma boa e estimulante feijoada. Ainda que em terras distantes, se conseguem resultados surpreendentes com uma feijoada globalizada. Se aqui pelas terras de Dante a tradição é que comanda o espetáculo, com suas regras as vezes rígidas demais, o fazer do prato brasileiro nos confere a leveza e o colorido dos trópicos no que tem de inventivo e variado. Isso porque a feijoada não é uma receita, não é um prato, mas sim uma verdadeira operação de matemática cultural, da qual é uma resultante da soma vetorial das possibilidades e dos desejos. O Brasil é imenso e a feijoada também. Ela é que nos faz acreditar que tudo é possível. Até viver.

Stanislaw Ponte Preta dizia que para a feijoada ser completa, tem que ter até ambulância na porta. Pois olho se meu vizinho Ennio, voluntário da guarda médica já chegou e vejo que lá esta ela. Temos até ambulância de plantão e então vamos à festa.

“Sei que vou morrer, não sei o dia. Levarei saudades da Maria”

Os ingredientes pois então, assim como se dizia, variam. Deus depois de tudo pronto prova que é realmente brasileiro e nos faz deliciar com o mesmo intenso prazer, seja lá qual for a sua composição. Um sujeito que como eu se encontra no norte da Itália, ou melhor nos Alpes italianos, terá que ter uma certa criatividade. E não é que as coisas estão mesmo se encaixando bem?

Na feijoada globalizada daqui de casa o feijão é mexicano, comprado na loja de Roberto e sua mãe. Vai lavado e deixado de molho por algumas poucas horas. O arroz é o Basmati tailandês que é o que se assemelha ao nosso longo fino. Também lavado e escorrido. Até aqui estamos com aquela ligeira sensação de que algo de especial está para acontecer.

“Sei que vou morrer, não sei a hora. Levarei saudades da Aurora”

As carnes. O ponto alto dessa maravilha. Aqui se põe a fantasia a trabalhar. Sim porque não existem duas feijoadas iguais ainda que todas são sempre deliciosas. A feijoada é como uma impressão digital, comum e ao mesmo tempo única. Penso mesmo que ao lado da digital dos documentos deveríamos colar a foto da “nossa” feijoada. Ela é parte de nossa identidade. Pois bem, imbuídos deste espírito, vamos ao açougue e nos servimos das boas lingüiças da região, ou seja, “la lucanica” ou “luganega” em dialeto, “la mortandela” que é produto do vale de Non e ótima como sabor (não confundir com mortadela, sutil e fundamental diferença). Podemos também colocar umas rodelas da típica “calabrese” com sua massa vermelha de tanta pimenta. Outra boa pedida, ou melhor, ótima, é fazer o gesto autocomiserativo de acrescentar um “cotechino di Modena”. Depois uns pedaços de “panceta” não podem faltar, seja da cozida que da defumada. Uns pedaços assim como deus manda de “puntini” ou melhor, costela de porco e por hoje basta. Na próxima fazemos diferente. Coisa boa. Algo que nunca ousei pedir é orelha ou rabo de porco. Não penso que seria algo encontrável, mas isso é um ótimo motivo para uma pesquisa de mercado. Só espero que não pensem que sou louco ou tarado.

”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”

De volta a casa, fazemos ferver um pouco de água e deitamos lá as carnes e lingüiças mais gordas, em modo que soltem um pouco da gordura enquanto fazemos um minuto de silencio em respeito ao nosso caro suíno. O objetivo desta operação não é absolutamente o de “enfraquecer” o prato mas sim torna-lo mais digestivo e conseqüentemente nos propicie uma maior possibilidade de ingestão. Aqui estamos falando de vida e morte e não é à toa. Certos prazeres nos levam a tangenciar os limites da existência e uma feijoada que não vai comida até a impossibilidade física, não vale nem a pena ser feita. Pensando nisso olho pra fora e a ambulância do Ennio ainda está ali. Ótimo. Acendo os fogos e fazemos então a alquimia. Fogo baixo como sempre porque a pressa é inimiga da refeição. Metemos o feijão assim como as carnes escorridas em água limpa e fresca. Pouco sal que isso se corrige quando o feijão estiver cozido. Aqui devemos abrir um comentário sobre a panela. Penso que a de barro ou a de pedra nos presenteiam feijoadas inesquecíveis, sempre atentos é claro com a limpeza e a higiene que são um pouco mais difíceis que com panelas de aço inox que também são muito boas. Alumínio e teflon, nem pensar. Muito menos panela de pressão. Se posso pedir um favor, o faço no sentido de que tenhamos paciência com nosso feijão. Respeitemos os seus tempos. Ele trabalha muito mas muito melhor quando não submetido à pressão. Ninguém dá o melhor de si quando pressionado. Deus me livre ingerir uma feijoada nervosa e estressada, com crises de choro e depressão. Não, não, repito,vamos com calma.

”Mas o meu nome ninguém vai jogar na lama. Diz o dito popular: Morre o homem, fica a fama”

O que fazer então enquanto se espera? Caipirinha vem à mente de modo automático. Nem sonhamos em fazer com algo que não seja limão, açúcar, gelo e cachaça. Outras bebidas podem ser muito boas mas se falamos de caipirinha não temos alternativas, é cachaça e ponto. Aquele primeiro gole desce no estomago vazio e já em minutos o sintonizador do nosso radio cachola já começa a captar ondas de mais altas freqüências.

Inauguramos nesse momento o inicio das obras para a confecção dos complementos. E viva a criatividade. Aqui não existe couve mineira e como se trata de um produto muito especifico, a substituição é difícil ainda que se consigam resultados razoáveis com “coste”, ou mesmo folhas de “broccoli”. Seja qual for, o conselho é talhar bem finamente as folhas e isso se faz agora, antes do segundo copo de caipirinha, porque os dedos nos servirão ainda, todos inteiros. Aproveite e talhe também cebola e alho, para o refogado e para o feijão. Agora mande brasa na caipirinha.

Tenha a mão também laranjas descascadas e cortadas em rodelas. Uma salada de alface e tomates temperada com gotas de aceto balsâmico e fios de azeite de oliva também não desrespeita a sacralidade do momento. Indispensável é também a farinha de mandioca. Aqui se encontra em lojas de produtos exóticos. Nós brasileiros somos exóticos, botamos até essa areia na comida.

”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”

Chegou o momento de finalizar e dar acabamento à obra. O arroz se faz com o refogado de alho e cebola e aqui não existem segredos a não ser o de deixa-lo também descansar antes do espetáculo final, pois ele também tem o mesmo temperamento do feijão. Faz-se então um frito de cebola e alho e joga-se ali de modo muito interessado, umas duas conchas do feijão. Com um garfo fazemos um ligeiro massacre e transformamos tudo em uma pastinha de feijão que volta à panela principal. Veja como é simples obter assim um belo caldo encorpado sem recuso às abjetas farinhas ou féculas. Sei que esse momento é de grande agitação, mas é bem por isso que vale dar uma parada nem que seja por alguns segundos, olhar para tudo e pensar: como sou sortudo!

Agora é comer, comer e comer até quando se conseguir dizer: Ennio!!

”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”

No final de tudo, os sambas nos chamaram à memória nosso prato de união. Muita gente pode gostar de feijoada, mas só um brasileiro sabe que isso é alguma das coisas que o faz igual a outros cento e oitenta milhões de seres humanos. A despeito de tudo o que leu e ouviu, das viagens, dos cursos e trabalhos que fez, esse simples prato de feijão e arroz representa um referimento de sua verdadeira cultura.

sábado, maio 07, 2005


Via Tortona, MIlano. Design e crise.

quinta-feira, maio 05, 2005

Listas

Profissionalmente tenho que utilizar listas de todos os tipos. Da telefônica a listas de preços, de artigos de decoração, de lojas, de materiais. Listas de ferros de construção e de luminárias. Listas dos documentos necessários, coisa que no pais mais burocrático do mundo é indispensável. As listas são isso: um instrumento burocrático e servem pra organizar e facilitar a vida de quem quer encontrar algo. Ou lembrar. Tenho sempre no bolso uma lista para o supermercado.

Pois é assim farto de listas que olho e vejo na blogosfera uma quantidade enorme de listas que metem em fila e o que é pior, em ordem de preferência, obras artísticas, pratos ou até mesmo cores ou sons. Não contentes com as listas, fazem a classificação tendo até o cuidado de batizar: musica do século, mulher do ano e por aí vai. Isso é de uma utilidade absurdamente negativa, ou seja, servem só pra me aborrecer e mais nada. Como alguém pode eleger uma musica? Quando é que começou esse campeonato mundial da coisa mais isso ou aquilo? Talvez se se esqueça que com o advento da industria cultural, grande parte senão a maioria das obras de arte se transformou em produto. Todo produto precisa de rótulo, etiqueta de preço e classificação. As prateleiras estão realmente cheias e o consumidor tem que encontrar o produto melhor, que combine com seu gosto. Quanta falácia, quanta alienação! A arte burocratizada assim chega a doer nos ossos. Quando eu me ocupo de estabelecer qual é o melhor de algo, escolher uma única obra, na verdade estou me ocupando de excluir o resto do mundo. Eu não, eu quero tudo!!

Ate porque eu mudo no espaço-tempo. As coisas mudam. Hoje adoro certa coisa, amanhã a coisa murcha, é natural. Depois tem a questão da adequação.

Já fui de sapato e meia na praia e também já entrei em um casamento só de sunga. Agora não vem ao caso detalhar, mas posso pela experiência garantir que em determinadas situações uma coisa combina melhor que outra e nos dois casos acima pude sentir um certo desconforto pois estava invertendo os papeis. Isso não me permite dizer que aquela praia é uma merda, nem que os convidados estavam todos errados menos eu. Da mesma maneira, que existe a roupa mais adequada (veja bem, nada é proibido, tanto que eu fiz o que fiz), existe também a obra de arte, a cor, o prato, o qualquer coisa mais adequados ao momento. Espaço-tempo. Melhor ainda, existem milhões de coisas adequadas e a capacidade de colocá-las em sintonia e causar uma sensação se chama arte. A arte vai entendida, produzida e apreciada e esse processo felizmente é infinito, vasto, amplo, colorido, multifacetado e delicioso quando livre de esquemas mentais e necessidades mercadológicas. Ah essa gente monogâmica me irrita levemente. Listas são antiarte. Listas são burocracias inúteis. São monocromáticas, frias e limitadíssimas. Em breve publicarei aqui a lista das listas mais inúteis.

segunda-feira, maio 02, 2005

Minha casa

Uma parte de minha casa falava sempre comigo. Me parecia muito natural até quando alguns amigos começaram a me reprovar. Achavam que era brincadeira, como se eu estivesse inventando isso. Percebi que eles nunca haviam falado com suas casas. Mas no meu caso não era toda a casa e sim só uma parte. Me lembro com saudade de sua voz. Firme, sólida, mas ao mesmo tempo amiga e carinhosa. Me dizia coisas tão agradáveis como só uma boa e velha casa sabe dizer e tudo está fixado em minha memória apesar de serem coisas impossíveis de se explicar. Uma pessoa não fala como uma casa. Inútil que tente aqui descrever o que me dizia pois isso como se sabe é impossível. Uma casa fala sua linguagem e essa é a grande beleza de sua mensagem. Unica e singular no seu falar, ela sabe transmitir paz e aconchego. Quando me sentia fraco e melanconico ela percebia de imediato e invariavelmente me levantava o moral com suas doces palavras. Aquela parte da minha casa era realmente fantástica. Me compreendia, entendia até meus íntimos desejos. Quando chegava cansado me dizia sobre o melhor modo de repor as energias e posso assegurar que acertava sempre. Dessa voz nunca vou me esquecer. Porém não a ouço mais. Já faz algum tempo que aquela parte da minha casa não fala mais comigo. O pior de tudo é que sei o porquê e sei tambem que nunca mais vou ouvir sua voz. Nunca mais. Sei disso porque as últimas palavras que ouvi daquela parte da minha casa foram: adeus meu caro, mas voce sabe, nós casas, só falamos com crianças.

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