segunda-feira, maio 02, 2005

Minha casa

Uma parte de minha casa falava sempre comigo. Me parecia muito natural até quando alguns amigos começaram a me reprovar. Achavam que era brincadeira, como se eu estivesse inventando isso. Percebi que eles nunca haviam falado com suas casas. Mas no meu caso não era toda a casa e sim só uma parte. Me lembro com saudade de sua voz. Firme, sólida, mas ao mesmo tempo amiga e carinhosa. Me dizia coisas tão agradáveis como só uma boa e velha casa sabe dizer e tudo está fixado em minha memória apesar de serem coisas impossíveis de se explicar. Uma pessoa não fala como uma casa. Inútil que tente aqui descrever o que me dizia pois isso como se sabe é impossível. Uma casa fala sua linguagem e essa é a grande beleza de sua mensagem. Unica e singular no seu falar, ela sabe transmitir paz e aconchego. Quando me sentia fraco e melanconico ela percebia de imediato e invariavelmente me levantava o moral com suas doces palavras. Aquela parte da minha casa era realmente fantástica. Me compreendia, entendia até meus íntimos desejos. Quando chegava cansado me dizia sobre o melhor modo de repor as energias e posso assegurar que acertava sempre. Dessa voz nunca vou me esquecer. Porém não a ouço mais. Já faz algum tempo que aquela parte da minha casa não fala mais comigo. O pior de tudo é que sei o porquê e sei tambem que nunca mais vou ouvir sua voz. Nunca mais. Sei disso porque as últimas palavras que ouvi daquela parte da minha casa foram: adeus meu caro, mas voce sabe, nós casas, só falamos com crianças.

10 Comments:

Anonymous Limas Podres do Morro Azul said...

Caro Fogo di Paglio di Siena,

Toda vez que eu subo a rua Tiradente, desde o viaduto Janio Quadros (quem foi o gênio que misturou tão próximas figuras históricas ???), ou então descendo a rua Piauí a partir do Castelo Branco (Ok, Castelo era do Ceará, vizinho do Piauí, ao menos geograficamente próximos), sinto certas casas me chamarem.
Às vezes ouços coisas do tipo " I see dead people". Outras vezes vejo pessoas sentadas na frente delas vendo o tempo passar no domingo à tarde . Quanta nostalgia, babaca ! Acho que vou num oftalmologista. Ou será geriatra?
A única coisa certa é que esta cidade não é plana e as casas foram bem construídas.
Além disso, o povo quer saber: Ele chama Castelo Branco em homenagem ao Primeiro presidente da Gloriosa
de 31 de Março ???

4:24 AM  
Anonymous luluzita said...

sabe que até hoje eu procuro uma casa que fale comigo? talvez por isso eu ainda seja errante, gregária..nao consegui uma casa que me respondesse e me desse a mesma sensaçao de solidez que só uma casa que conversa pode ter...

4:57 AM  
Anonymous Mônica said...

Toda casa em que morei falou comigo. E eu sempre falei com elas. Umas me xingaram, outras foram minhas amigas...

Eu, hoje em dia, falo demais com minha casa umbigo. Ah, e já troquei muitas idéias com a casa banheiro, aquele lugar em que a gente se tranca pra pensar, pra chorar sem que ninguém encha o saco. Bom, às vezes enchem, mas tudo bem.

Lindíssimo seu texto.

9:57 PM  
Anonymous Leo D'Ippolito said...

Muito bom. O seu blog!

1:08 AM  
Blogger Fernando said...

Pois é, Flavio,
E eu, do alto dos meus mais de setentanos, ainda me lembro do que eu conversava, faz tempo, com alguns cantos da minha casa.
Mas, como você diz, confirmo eu, as casas não falam com os mais velhos. Dels, dos mais velhos, colhem ensinamentos para conversar com os mais jovens.
Abração
fernando cals
ps: desculpe a pretensão, mas eu acredito que possa oferecer ensinamentos às minhas casas, em agradecimento pelo que já me deram.
fc

3:39 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Hocus Pocus azulado. Aquela casa da rua Tiradentes é a que falava comigo. Como é pequena a internet!

Luluzita, acho que voce deve desistir de procurar e esperar o tempo de poder ensinar algo às casa como Fernando.

Monica, esse dialogo com tuas casas, voce esta expondo de maneira brilhante no teu blog.

Ola Leo, sim, tambem acho muito bom o meu blog. hehehe.

Fernando. Espero ansioso por esse tempo de espalhar sabedoria e poder ensinar algo nem que seja so à minha casa.

8:08 PM  
Blogger franka said...

que texto bonito
ainda mais nesse mundo onde as pessoas morrem de vontade de entregar suas casas a decoradores
parabéns
um beijo!

12:50 AM  
Anonymous alpha tauri said...

Muito bom o seu texto. Parabéns. Eu mantenho-me jovem, por isso escuto o meu apartamento, o prédio onde trabalho, as ruas, as calçadas, e até os terrenos baldios. E eles têm muito a nos dizer. É só manter os ouvidos atentos. []'s

4:47 AM  
Anonymous Eduardo Amorim said...

Flavio,

As melhores momentos de nossas vidas são aqueles os quais nos priorizamos e quando vivenciamos a infancia, sabemos fazer isso, tambem não ouço mais aquela parte da casa pela simples razão de não parar para ouvir. Sinto saudade dessas conversas, quando podia ou melhor priorizava e valorizava o tempo.
abraços

5:41 AM  
Blogger Allan Robert P. J. said...

Curioso, minha casa falava comigo quando já não era criança, mas adolescente. Geralmente gritava. E não é que tinha muito assunto, não. Era sempre a mesma música: "Levanta desse sofá e dá-me ao menos uma varridinha!"
Ciao

6:06 AM  

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