terça-feira, junho 28, 2005

A escrita durante a tormenta

Pegou uma folha de papel branco liso e rolou pra dentro da máquina de escrever. Tinha as mãos crispadas sobre o teclado mas por alguns segundos as teve suspensas imóveis. Então começou a escrever:

“Em meio à tormenta viu se aproximar o barco”.

Puxou um cigarro do maço sobre a mesa e o acendeu lentamente. Fazia calor e a fumaça subiu vagarosa no ar espesso. Voltou a escrever:

“Dentro do barco podia-se ver a figura magra de um escritor, debruçado sobre sua máquina de escrever”.

A mulher o chama, se levanta e vai até a cozinha. Quer lhe dizer que amanhã acaba o prazo de pagamento da conta de luz e quer saber se vão ter dinheiro pra pagá-la. Ele diz que ela não pode interrompê-lo pra dizer bobagens e volta à sua maquina:

“As ondas faziam tudo se agitar, o mar estava um pouco revolto e a instabilidade da máquina de escrever sobre o balcão da pequena cozinha do barco perturbava suas ideias”

A mulher volta a interromper e com voz estridente o chama para ver algo. Ele faz que não ouve.

“O vento sopra forte e as velas se batem produzindo estalos de uma sonoridade inponente”.

Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real.

“Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real”.

Levanta-se e vai ver o que o vento causou ao mastro principal e às cordas. Se detém o minimo indispensável para por ordem nas coisas e volta a escrever:

“A mulher agora lhe pede que venha ver o banheiro que está todo alagado. Ele se impacienta e lhe insulta pesadamente enquanto acende outro cigarro”.

O vento parece que está diminuindo sua força mas o que está escrevendo não lhe agrada.

“O vazamento no banheiro lhe consumiu horas e energia suficientes para fazê-lo abandonar a idéia de escrever. Na verdade está desistindo de escrever para sempre”.

Joga a máquina de escrever no mar.

Silêncio, nada mais... nada.

sexta-feira, junho 24, 2005

Decisão

Resolvi emagrecer mais ainda. Depois de um relativamente fracassado programa em uma academia e de certas dietas auto inflingidas de modo esporádico, inaugurei há duas horas meu novo período de intensa preparação física para o verão. Vou fazer aquilo que meu coração manda pois creio que basta de ouvir o que os outros me aconselham e que não dá certo. Na última vez, fui seguir o conselho de uma amiga que dizia que se apaixonar emagrece. Em um impeto dietológico, agarrei a primeira garota que passou na rua e a minha paixão foi já se manifestando, aliás quanto mais eu apertava a dama mais a paixão crescia, até ficar absolutamente evidente este enorme sentimento. Nesse momento a garota que já vinha gritando todo o tempo resolveu me tamponar de sapatadas e não tive outro jeito senão sair correndo. Devo ter perdido enormes quantidades de calorias efetivamente mas me pareceu por demais radical o processo. Chegando em casa, ao relatar o ocorrido à minha mulher, mais correria e botinadas. Mais calorias perdidas sim, mas a que preço! Eu terminaria magrinho mas de pernas roxas, isso na boa hipótese que fosse atingido sempre só nas pernas. Não quero nem pensar naquilo.

Desta vez como disse, faço aquilo que me parece o justo. A primeira medida foi jogar fora o telecomando da televisão. Trocar de canal feito zapeador maluco agora só levantando da poltrona. Ja são duas horas que não troco de canal mas estou pensando em zapear, ah se estou.

Decidida também a questão da geladeira ao lado do computador. Agora ela fica a mais de quatro metros e isso me obriga a levantar da cadeira já que as rodinhas foram suprimidas. Estou olhando para minha vara de pescar mas juro que não vou meter em ação nenhuma idéia com ela.

Chega de churros caramelados frios com molho de alho e folhas de hortelã; paramos de comprar a hortelã.

Basta com as tortas de pizza de seis andares. De hoje em diante só cinco.

São medidas radicais mas se o sujeito não dá um talho no passado, mudanças não ocorrem.

Vou caminhar um pouco e ver o efeito que faz. Fui até a sala e voltei, é sensacional. Adeus sedentarismo!

Minha vida está mudando e eu já sinto um novo vigor. Já são quase três horas que eu iniciei este programa intensivo e já estou começando a ficar com...

Basta! Basta com yogurte de morango cheio de óleo de oliva e pimenta, vou reduzir a pimenta à metade. Não vou nem pensar nos biscoitos fritos nem nos melões recheados de carne moida e chocolate.

Estou rindo sozinho. Já fui e voltei da sala mais cinco vezes, é fantástico. Já são quase quatro horas de treinamento e já voltei à forma atlética e estou cada vez com mais...

Basta! Basta de pensar em comida. Decidido eu sou e por isso nada me fará desviar do meu rumo.

Fiz uma pausa, respirei fundo, afinal todo esse exercicio me cansou sobremaneira. Já são quase cinco horas que estou nesse suplício e minha visão já se reduziu ao ponto de enxergar só um círculo diante de mim onde dentro está a geladeira. Acho que andei hoje mais de cem metros. Estou em plena crise de hipoglicemia e sei que dentro da geladeira tem tudo o que preciso para me regenerar. Agora mudou tudo, é caso de vida ou morte. Ou eu como tudo o que encontro ou morro aqui mesmo. Nesses casos o regime não se justifica. É isso, vou lá salvar minha vida.

terça-feira, junho 21, 2005

Tudo tão perto de casa

Perto daqui de casa os americanos mantém carinhosamente 90 mísseis nucleares nas bases de Ghedi Torre em Brescia onde estão 40 dessas belezas e de Aviano em Pordenone, onde dormem em plantão permanente as outras 50. Nenhuma autoridade italiana tem conhecimento ou informação oficial a respeito destes meus vizinhos. Porém, todos são visíveis e nem um pouco escondidos nas fotos de satélite. Durmo tranqüilo sabendo que minha segurança está garantida com o que de mais sofisticado existe em termos de arma e destruição. Meu vizinho Mario que é um pessimista vive me dizendo que em caso de acidente ou guerra, estaremos todos fritos, porque estamos pertos demais de um alvo estratégico. Ele é mesmo pessimista. Não estamos pertos demais, estamos a 80 km da base de Brescia e isso quer dizer que em caso de ataque nuclear, nós receberemos alguns minutos depois da explosão um vento de por volta 250 Km/h, quente como o inferno além de radioativo. Isso causará uma desidratação e queimaduras quase que instantaneamente e a pele se soltará de nossos corpos. Levaremos dias para morrer, tendo tempo suficiente de arrependermo-nos dos pecados e tomar consciência plena de toda a situação. Não sei pra que tanto pessimismo.

Outra pessimista é a doutora Helen Caldicott médica especialista em problemas relativos a energia nuclear, merecedora de inúmeros prêmios internacionais entre eles a indicação ao prêmio Nobel da paz da parte de Linus Pauling e ganhadora indireta do mesmo em 1985 através de sua instituição a “Médicos pela Prevenção da Guerra Nuclear”. Ela afirma que a guerra nuclear nunca esteve tão próxima de se realizar até porque as fortes tensões da guerra fria que mantinham o equilíbrio de forças não existe mais e esse é o grande perigo. Um único ser humano detém o poder de em menos de cinco minutos causar a morte de milhões de pessoas. Esse homem é George Bush. Não sei porque o pessimismo. Acho que Bush não decidiria algo assim sozinho e teria o conselho valioso de Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Condoleeza Rice, tudo gente com a cabeça no lugar. Meu vizinho Mario não pode nem ouvir falar esses nomes todos, que pessimista.

A doutora Helen diz mais. Diz que só de urânio empobrecido (Depleted uranium – DU ou urânio-238) o Iraque de hoje conta com mais de 350 toneladas espalhados por todos os cantos na forma de balas de metralhadoras e blindagem de tanques. Esse material foi introduzido na primeira Guerra do Golfo em 91 e utilizado maciçamente no mais recente entrevero. Para a indústria bélica o DU foi um achado. Nos EUA existem mais de 500.000 toneladas do material, que apresenta 60% da radioatividade do urânio natural e requer a metade do tempo para decair, ou seja, somente 4,5 bilhões de anos. O achado foi no sentido de que este material é mais duro e resistente que outros na confecção de balas e revestimentos e é cedido às industrias a custo zero, grátis, visto que ninguém quer saber dessa coisa. A pessimista da doutora Helen diz que o enorme aumento de tumores infantis, como leucemia, síndrome de Hodgkin e linfomas no Iraque de hoje se deve ao uso de DU. O Pentágono, de forma muito mais positiva, declarou que o DU é absolutamente inofensivo, isentando inclusive o material das suspeitas de que ele também pudesse ser responsável por tumores em jovens soldados americanos. O Pentágono disse que é tudo bobagem, que esse é o melhor dos mundos possíveis e no natal seremos ainda melhores e mais bondosos. O pessimista do Mario não acredita no Pentágono, onde já se viu?

Bush e companhia pilotam hoje uma industria de armamentos que mama das tetas federais a beleza de 6,5 bilhões de dólares por ano militarizando inclusive o espaço, a revelia da ONU. Países chamados canalhas que tem programas nucleares com fins bélicos como Irã e Coréia do Norte, correm risco efetivo segundo os pessimistas especialistas do assunto. Venezuela também dá seus passos nessa direção e já recebeu por isso certos recados mais ou menos explícitos, até em forma de golpe. O Brasil onde se encontra nessa situação toda?

Chega a ser patético hoje acompanhar o debate político no Brasil e perceber que é absolutamente descolado desta e de outras questões internacionais fundamentais para se entender certas posições e estratégias. O governo brasileiro literalmente abaixou as calças em muitíssimos setores somente objetivando a entrada no conselho de segurança da ONU em uma cascata de compromissos. A mesma ONU redigiu em 1968 o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Os EUA de Bush, desrespeitam absolutamente este tratado e impedem categoricamente com ameaças claras e públicas que outros países o façam.

Como sou otimista, acredito que os americanos tenham esta política porque querem garantir a paz, a democracia e a prosperidade de todo o planeta. Logo logo eles irão desarmar o mundo, como todos nós desejamos já que algo que pode liquidar com minha vida assim como de minha família e também de minha cidade, diz respeito a mim e vai além de uma política interna de um país. O Mario não concorda e eu já acho que ele sofre do fígado. Me diz que não é por aí e que é melhor ir se preparando para viver dias duros. Mas não é possível que alguém possa pensar certas coisas. Ele chega ao ponto de dizer que a guerra no Iraque serviu para ajeitar muita coisa na terra de Bush: o controle total do petróleo; segurar o dólar como moeda planetária que estava ameaçado pelo euro como referência de preços do próprio petróleo o que seria um passo para se transformar na moeda mundial; garantir às grandes corporações e as industrias bélica e da reconstrução de fazer caixa; dar uma resposta aos democratas que em face a um capitalismo sempre mais fictício baseado no crédito estavam fazendo uma soft landing da economia e Bush de soft não tem nada. Ele diz isso para me explicar que hoje nos EUA, um país com uma historia belíssima e importante, o governo esta nas mãos de gente capaz de absolutamente qualquer coisa. Mario, Mario, além de pessimista é ingênuo. Pensa que a teoria da conspiração tem algum valor. O que o faz pensar que a economia hegemônica no mundo tenha medo de perder seus privilégios? Porque dizer que o fundamentalismo existe hoje em todo o mundo e principalmente na América de Bush? Acho que não tem jeito, quando um nasce pessimista não há meio de mudar.

Bem, o Mario já foi embora, vou tomar um chopinho lá no jardim, de onde dá pra olhar o pôr do sol. Por coincidência é lá pelos lados de Brescia que devo olhar. Qualquer luz mais forte, pulo pro carro e saio correndo, afinal as malas estão sempre arrumadas e prontas no bagageiro.

segunda-feira, junho 20, 2005


Acredito

sábado, junho 18, 2005

O boné

Tenho um problema na cabeça. Se chama boné da Nike. Quando ainda estava no Brasil, mas já com todas as malas prontas para embarcar aqui pra Itália, uma cliente muito querida me ligou me pedindo duas ou três opiniões a respeito de uns móveis da sala. Eu disse que por telefone não funciona e fui até lá pessoalmente. Dei minha opinião profissional sólidamente embasada em minhas convicções etéreas a respeito de sofás e poltronas e parece que funcionou. Minha cara cliente me perguntou então quanto me devia pela consultoria e eu lhe disse que sua amizade me bastava, demonstrando o quanto sou simpático. Mas ela quis também demonstrar que é simpática e me levou dois dias depois uma camiseta muito chic e um boné da Nike de presente. Boné azul com a tal pincelada, ou seja lá o que for. Aqui na Itália vi alguns bossais com o mesmo identico boné e me deu a impressão que só bossais o usam. Eu o usava, tranquilo. Mas algo me dizia que o boné tinha sido feito com mão de obra escrava de crianças asiáticas acorrentadas e famintas e com as costas cheias de cicatrizes das chicotadas. Mas pensava, não comprei o dito cujo, me foi presenteado por uma pessoa doce e especial que nunca iria patrocinar o sofrimento nem que fosse de uma mosca, quanto mais de crianças. Que mundo complicado. O boné existe, está feito. Se jogo no lixo fico sem aquilo que é o reconhecimento de uma amiga e o trabalho daquele pobre coitado. Mas é tambem o simbolo da globalização avassaladora que está levando o capitalismo a toda parte. Claro que estão levando antes o ismo, o capital vem outra hora. Em todo caso, tenho um problema na cabeça. Ja tive vergonha de usá-lo, assim como já tive orgulho. Estranho como o mesmo objeto se transforma. Meus amigos que me deram listas de empresas a serem boicotadas, nem desconfiam que eu tenho um objeto desses aqui em casa. Tenho até medo que um dia descubram. Pensei em pintar o boné, ou então revesti-lo. Mas me vem de pensar que se o que vale é a intenção, que mal tem em se usar um boné? Já o usei no avesso e aí me olham e dizem: porque usar um Nike no avesso? Abro uma revista em determinada página e me dizem: Just do it. Sim, mas não é tão simples assim. Um cidadão com consciência tem dificuldades em usar qualquer boné. Não bastassem todas as dúvidas existenciais, as angústias de um pai responsável em um mundo desumano, os medos do futuro e do presente, as interrogações de ordem moral em face da imoralidade dominante, não bastasse tudo isso e muito mais, até usar um boné me põe em crise.

quarta-feira, junho 15, 2005

Um giro por aí

Ter um blog è como abrir aquela janela que dá para a rua e fazer ali um pequeno espetáculo para quem está passando naquele momento. A vizinhança, poucos conhecidos, inclusive àqueles que a gente consegue ver que estão também debruçados em suas janelas, fazendo seus espetáculos, todos dando palpites, elogiando, criticando. Por isso é tão engraçado quando o espetáculo que alguém apresenta é cheio de soluções para o mundo e regras para toda a humanidade. Penso, no minimo esse cara é louco. E chato, claro, mas não por isso pouco interessante. Tem aqueles que pensam que estão em um comício e se inflamam, outros em uma cátedra e discorrem com longas citações, outros ainda, no pulpito das Nações Unidas discursando aos delegados internacionais e despejam teses tão complicadas quanto absurdas. “O homem se move no jardim da história como um turista em um depósito de máscaras”.

Sei que o importante não é a realidade, o que importa é se sentir importante. O importante é ir à janela e dar o seu recado. Conheço alguns que tomam banho, vestem roupa nova e vão lá pra janela dar o melhor de si. Já outros como acordam vão já se mostrando, com a cara meio amassada mesmo. Alguns quando vêem que o vizinho conseguiu reunir uma pequena multidão, começam a gritar e a espernear pra chamar mais ainda a atenção. Isso porque alguns pensam em ganhar dinheiro com essa atividade, mas por enquanto não sabem bem como fazer isso.

As mulheres levam vantagem pois têm muito mais experiência na conversa de janela. Algumas não se limitam à janela e vão ao balcão, o enchem de vasos com flores, levam os filhos, marido, cachorro, mostram tudo, até como ficou bem lavada a roupa esta manhã. Algumas na sua simplicidade e no seu doce modo de ser, nos dão as lições mais profundas, aquelas ligadas à vida e ao cootidiano. As sonhadoras mulheres, nem todas evidentemente, nos falam das coisas práticas e ao contrário, os pragmaticos homens, não todos claro, nos enchem de teorias e utopias irrealizáveis. Tudo isso é util e o conjunto das janelas que se abrem mais a cada dia, nos dá um retrato perfeito do que é essa nossa espécie humana. Blogolândia é uma bela cidade e a cada dia que passa fica mais interessante.

O bonito é mesmo a variedade. Uns fingem que falam e só fazem um barulhinho parecido com fala mas nada dizem, tanto que algo a dizer não tem mesmo, mas alguns são divertidos. Outros tem muito a dizer mas se percebe que escondem o jogo. Alguns escondem tanto que se mostram à janela, porém disfarçados. Outros ainda são patéticos no seu desespero em fazer graça ou serem reconhecidos como grandes mentes pensantes.

Hoje peguei minha bicicleta e fui percorrendo Blogolândia. Janelas e mais janelas cheias de gente alegre, iluminada, erudita, triste, condescendente, egoista, machista ou cômica. Que belo retratinho do mundo temos aqui, pensei. Alguns tem o olhar soturno e suas janelas são mesmo uma visão inquietante, mas necessários também estes pensei. Mais adiante rapazes dançam animados, logo em seguida encontro mães que falam de seus filhos, logo ali tem os que falam de seus artistas do coração, estão em busca de ídolos, ícones, deuses. O grande barato mesmo são os contadores de causos, verdadeiros literatos que contam com arte as mais variadas fantasias, muitas vezes também com muita poesia. Bonito ver tudo isso acontecer. Bonito perceber que tanta gente vai até a janela e se mostra. Afinal o que toda essa gente quer, indistintamente, é simplesmente ser amada.

segunda-feira, junho 13, 2005

Cessada parcimónia

Das coisas mais espetaculares

Que a noção das mesmas vai aludir

Não há por que duvidares

Das lindas noites do breve porvir


Sem anelo que lhe aflija ou vele

Sem nenhuma mácula a blandar o véu

Alcanço o que do alto me revele

Atinjo os píncaros do mais fundo céu


Nunca a glória alcançou tão alto escol

Nem mesmo se portou com tal donaire

Tendo eu feito tudo o que fiz em prol

Do que de melhor lhe chegue e paire


Constantemente me vejo polido e justo

Naquilo que me decido por realizar

Mas ao ter a visão desnuda de teu busto

A ética, a moral e o tino, tudo vi se esfumar


Hoje vejo por que existo e vivo

Coloriu-se o verde e o vermelho

Nada guardo nem mesmo arquivo

Apenas reflito tal qual o espelho


Na circunspecta manhã do meu outono

Vivo o sorriso que já pensava perdido

Vibrando como no amor o abandono

Me pego só te olhando, comovido.

sexta-feira, junho 10, 2005

Sentado na praça

Acho que vou descrevendo o que vejo nesse momento. Sentei aqui neste banco de praça depois de estar mais de dezoito horas em frente a um computador, terminando os cálculos para o projeto de uma casa. Estou exatamente em frente ao edifício do escritório e penso que não volto mais lá hoje. São quatro horas da manhã e deveria estar indo para casa mas a quantidade de café consumida não me permite dormir e então resolvi dar um tempo aqui. Porém acho que vou passar o resto de minha vida aqui. O ar está agradável e ruído só mesmo esse do teclado. Um ou outro carro passa, mas é distante e não consigo determinar onde. Uma leve cor laranja começa a manchar o lado leste do céu. Trabalhei como um escravo, sem me preocupar comigo e agora não consigo deixar de pensar. Não consigo, como se vê, me livrar desse computador. Sentado no banco da praça com um computador sobre as pernas e digitando qualquer coisa para efeito de ver o tempo passar. Mas ele não passa. O que passa é o furgão do padeiro. Vai a cem por hora pelas ruazinhas talvez para poder entregar o pão ainda quente. Não entendo de serviços de panificação. Não sei porque corre. Percebo uma cortina que se abre no segundo andar da casa amarelada. Se abre em modo brusco. Agora é a porta que se abre e vejo um homem carregando uma mulher nos ombros. Ela parece que dorme. Ele joga a mulher lá pra baixo e o som que se produz com a queda é algo desagradável. Uma cabeça que bate no chão caindo dessa altura lembra um côco se quebrando. O sol começa a despontar entre os prédios e a brisa fresca é bem agradável. O dia será muito bonito. Vejo que a mulher não está totalmente morta. Seu corpo ainda treme em convulsões. Vejo agora que outras janelas se abrem e um homem vê o corpo na calçada e volta correndo para dentro. Penso em chamar o socorro com meu celular, mas quando me movo para fazê-lo, já começo a ouvir uma sirene. Espero que se aproxime e realmente é a ambulancia do pronto-socorro. O homem da janela não poderia ter ligado. Só pode ter sido o próprio homem que jogou a mulher. Agora mudou tudo. Tudo se transformou em uma grande agitação. Pessoas vão chegando não se sabe bem de onde e vão formando um cordão de gente ao redor do corpo. Entre pernas consigo entrever que estão tentando fazer ressussitá-la. Um senhor se senta a meu lado e me pergunta se sei o que aconteceu. Olho pra ele muito sério e digo com muita má vontade: “não me aborreça por favor”. Ele se levanta e vai pra perto da multidão. Vejo que alguns vestem pijamas e chinelos e comentam o fato da mulher em modo bem animado. O Homem que jogou a mulher está debruçado sobre o corpo e chora como uma criança, bate as mãos no peito. Com o solzinho começando a deitar seus raios, me veio o sono. Uahhhh, que preguiça. Vejo que estão botando a maca com a mulher na ambulância, mas o lençol cobre inclusive o rosto. Ela morreu. Noto que dois homens conversam e olham para mim, um deles chega a me apontar. O mais velho deles se aproxima e se identifica como policial e me pergunta se eu vi algo que possa servir de testemunho. Digo que não vi nada, cheguei há apenas dois minutos e já vou embora. Ele retruca dizendo que lhe disseram que estou sentado aqui já há uma hora ou mais. Digo então que posso jurar pela minha mãe que cheguei há dois minutos. Ele finge aceitar minha afirmação e se vai. Olho para o lado, um passarinho está rondando bem pertinho, que bonito, não pude conter um sorriso. Pouco a pouco as ruas voltam a ficar vazias, as pessoas voltam devagar para suas casas. Um pequeno sinal acústico me avisa que a bateria está se descarregando. Bem, o sono já veio, o computador logo se apaga e eu vou pra casa dormir, afinal ficar aqui nesta praça, neste tédio, vai me enlouquecer.

quinta-feira, junho 09, 2005

Rapidinhas

· Grande sucesso sábado passado em São Francisco na quinta edição da maratona de onanismo. Mais de uma centena de pessoas, homens e mulheres participaram unidos pelo slogan “Gozo por uma causa”. Pela primeira vez na manifestação já tradicional, foi colocado um espaço a pagamento (50 dolares) dedica aos voyeurs. Todo o dinheiro arrecadado foi dado em beneficiência para programas de educação sexual. Não se sabe se foram estabelecidos records ou se alguém tenha morrido. (cacao)

· Hiba Passim, uma garota iraquiana sorri porque está melhor e isso graças ao trabalho de alguns médicos belgas, que agora mandaram a conta (mais de 51 mil euros) à embaixada americana. A menina foi ferida por uma bomba de fragmentaçao jogada em Bagdá pela aviação americana em 6 de abril de 2003. Os médicos da agência Medical Aid for Third World foi que conseguiram levá-la à Bélgica para o tratamento. Até agora ninguém na embaixada se manifestou. (cacao)

· Na Finlandia o pessoal tá na merda. O setor industrial que produz papel higiênico está enfrentando problemas com muitas greves e produção paralizada. Alguns supermercados já acabaram os estoques e os consumidores começam a disputar os poucos rolos que restam. Se prevêem dias difícieis por lá.

· Na Africa do Sul, o país com o mais alto índice de acidentes automobilísticos do mundo, as autoridades do distrito de Kwazulu-Natal tomaram as devidas providências. Contrataram uma equipe de exorcistas. Parece que os espíritos dos mortos se sintam muito sozinhos e para ter companhia, distraem os motoristas, fazendo-os ir reto na curva. O fato de que 60% das carteiras de motoristas na Africa do Sul sejam falsas parece ser irrelevante. (Fonte: Venerdì di Repubblica)

· Na Croácia, durante uma festa de casamento, alguns médicos foram chamados e tiveram trabalho para tirar os noivos de um banheirinho onde ficaram entalados, enquanto faziam sexo. Que amor! Que Pressa! (Fonte: Dagospia.it)

· Aeroporto de Melbourne: a policia alfandegária prendeu uma mulher que fazia glub- glub enquanto caminhava. Foram encontrados 51 pequenos peixes tropicais escondidos debaixo do vestido. Ela foi acusada de contrabando de espácies protegidas. Onde ela escondia os peixes a noticia não detalhou. (Fonte: tgcom)

· No Kuwait uma página de historia está sendo escrita. Quinta-feira passada foram as últimas eleições sem direito ao voto feminino. Nas próximas elas poderão votar. Apesar disso, duas mulheres foram eleitas para a câmara municipal do emirado. Boa noticia.

Enquanto isso no Irã, também as mulheres pela primeira vez na historia foram autorizadas a assistir a uma partida de futebol. Entre elas estava Ardalan, uma professora de educação física e também jogadora de futebol, mas que ainda sofre a proibição de poder jogar. Em todo caso, leio estas notícias de portas se abrindo do lado de lá e no entanto percebo que outras se fecham do lado de cá. O relativismo cultural é um mal?(Fonte: peacereporter)



segunda-feira, junho 06, 2005

A literatura na minha vida

Já li muito nessa minha atual vida, mas depois cansei. Hoje leio de tudo, mas nada que seja importante. Leio os folhetos de promoção do supermercado, incluindo as letrinhas de rodapé onde escrevem que a promoção só é válida se chover por mais de três dias e enquanto durar o estoque de dois produtos. Leio também as embalagens de biscoito e de chocolate em pó. Comprei até uma lupa para me ajudar com as letrinhas miúdas.

Mas ja li muita literatura boa. Quando eu não tinha dinheiro para comprar livros eu ia a uma bookstore e ficava lá lendo a tarde inteira. Para não dar a impressão que eu ia lá para ler obras inteiras sem pagar, eu pegava dois ou mais livros e ia lendo o que me interessava e no momento de virar a página dava dois ou três passos e fazia cara de quem escolhe na prateleira. Desse modo pude ler as obras quase completas de Sartre, Proust, Kant e outros tantos. O problema dessa técnica, ou melhor, deste recurso é que por exemplo as vezes não conseguia ler o final de algum livro pois a livraria ia fechar. Isso me causou certos problemas de ordem psicológica e emocional, além de gerar certa confusão. Até hoje não sei se o Cândido de Voltaire se casa no final com a madame Bovary. Fiquei sem saber também que fim levou o Principe de Machiavelli, se voltou a viver no castelo de If ou se retornou à sua casa da rua Morgue. Sem falar dos inúmeros livros de Agatha Christie que me faltam somente saber quem foi o assassino. As vezes não durmo, pensando nesses casos irresolvidos.

Sei que são confissões que afinal eu não poderia estar fazendo aqui. Sei que um bom blog deve mostrar a erudição do autor, nem que pra isso ele tenha que recorrer ao copia/cola com google e wikipedia, ou consultas de última hora à Barsa ou eventuais vizinhos cultos e ocultos. Mas como nós não ganhamos nada pra fazer essas coisas, vou me limitando à verdade dos fatos.

Acho que agora que me aproximo da velhice posso voltar a ler meus livros. Penso que a literatura em si foi uma ótima invenção. Se levarmos em conta então que o gênio humano produziu também a bomba de fragmentação, a poluição do ar e da água além do odioso hit parade de música pop, a literatura passa a ser vista como uma das atividades mais belas em absoluto. Chega a ser mais bela que as “Mais-mais do fim de semana da ilha de Caxingui”. Penso que quando puder ter o tempo necessário a uma boa leitura vou começar a ler os clássicos: Pato Donald, Mickey e Tio Patinhas. Depois vou aos modernos: Paulo Coelho e Dante Alighieri, além de um especial da cozinha maravilhosa da Ofélia.

Mas aí vou ter que investir dinheiro em livros ou voltar à tática do João sem braço rato de loja descrita mais acima. Pensei até em não criar esta dependência das editôras e produzir eu mesmo meus livros somente para consumo próprio. Seria uma ótima idéia se eu conseguisse guardar segrêdo para mim mesmo, mas eu já tentei escrever algo que eu não soubesse como termina, só para me surpreender, mas chega uma hora que eu não resisto e me revelo a surpresa antes mesmo de começar a escrever. A única saida é contar com minha memória que há mais de seis anos e meio apaga qualquer fato com mais de dois anos de minha mente. Devo escrever hoje, esperar uns dois anos e depois ler com grande surprêsa. Mas me parece que me lembro de haver já escrito algo para ser lido depois de anos, mas não consigo me recordar onde foi que coloquei estes manuscritos. Vou lá perguntar pra empregada. Nesse momento ela está queimando uns papeis velhos lá fora, vou lá ver o que é.


sábado, junho 04, 2005

Google

Rafael Galvão como sempre tem razão. O Google é uma fonte inesgotável de surpresas, principalmente aquelas derivadas das buscas esdrúxulas dos seus usuários. Alguns chegaram aqui e penso que encontraram algo do que procuravam, como estes aqui:

feijoada italiana

paisagens de Riva Del Garda

frases sarcasticas

Porém chegaram até aqui também alguns cidadãos desavisados e de modo totalmente involuntário. Depararam-se com certeza com algo que não era absolutamente o que procuravam e sou certo de haver-lhes decepcionado. Tendo em vista o que procuravam, isso me deixa contente. Aqui alguns itens das pesquisas feitas por estes belos humanos:

memoria do autoradio -

linguagem erótica -

placas de anuncios errados -

ano mundial da física centenário da teoria da relatividade estou com sorte -

experiência alface murcha -

hipocrisia amizade -

stanislaw ponte preta (alguns poucos dados) -

roupa feita de lixo -

tipos de brincadeira para ché de panela -

quanto perco de calorias pedalando

desenhos de lixo -

as fases da amizade -

desenhos de feijoada -

Por último este que me enche de orgulho já que é um autentico “órfão do google”, ou seja, quando ao se digitar duas palavras o google dá como resultado um único link. O Lixo tipo especial é o unico resultado quando um infeliz digita isso:

bicões pontudos -

Eu lamento muito ter sido encontrado como única opção ao nosso amigo que procurava por bicões pontudos. Mas cá entre nós, o cara que faz uma pesquisa dessas merece algo mais que lixo?

sexta-feira, junho 03, 2005

SI o NO

No próximo dia 12 os italianos somos chamados a votar em um referendum. A decisão é entre estinguir quatro pontos da lei numero 40/2004 ou não. Esta lei em resumo, proíbe a esperiência científica com células embrionárias, considera o embrião um indivíduo e proíbe a fecundação “in vitro”. Estas celulas embrionárias sáo aquelas de embriões não utilizados quando de uma seleção para implante no útero de uma mulher. Em outras palavras, a ciência faz pesquisa com células de embriões humanos com o fim de descobrir curas para inúmeras doenças tais como câncer, esclerose, o mal de Alzheimer, Parkinson, o diabete e outros ainda. Isso na Italia hoje é proibido por lei. Simplesmente porque consideram o embrião com direitos de cidadão. Mesmo que sejam 32 ou 64 celulas congeladas, é um cidadão. A raiz desta concepção está na ala conservadora da Igreja católica. Interessante notar que oitocentos anos atrás esta noção seria ridicularizada como retrógrada, visto que um embrião era encarado pelo que é: um embrião. O cardeal Camillo Ruini é o propulsor dessa ala, inicialmente pelo não e agora pela abstenção, que usa de argumentos que segundo meu ponto de vista são paradoxais e risíveis. A atual lei consente a fecundação assistida com no máximo três embriões. Todos os três devem ser implantados já que não se pode haver descarte. O problema é que técnicamente, três é um numero insuficiente. Em geral se implantam no mínimo cinco. O que acontece é que com três a chance de insucesso é muito maior, ou seja, o tratamento deve ser repetido mais vezes, causando maior sofrimento à mulher e – paradoxo- causando muito mais morte de embriões. Todas as vezes que a religião com seus dogmas moralistas interferem na vida civil, acontecem desastres. Mas não era o bastante. O neo papa não pôde deixar de dar sua contribuição. Lançou um apelo, como sempre em linguagem cifrada, para que todos os bispos ajudem a esclarecer os cristãos e orienta-los a não irem votar. Só como nota: o incitamento à abstenção de um referendum, segundo a lei italiana é crime passivel de pena de detenção de seis meses a três anos, além de multa. Suspeito que não vão botar o papa na cadeia, mas já começou a ferir a lei o nobre alemão.
A permanecer como está, a lei sobre procriação assistida causa além dos problemas ja citados, um outro de ordem econômica. Muitos casais vão a outros países europeus fazer a fecundação e pagam boas cifras para isso. Em resumo, a posição dos que querem manter a lei não impede que embriões sejam mortos, causa problemas e sofrimento às mulheres, impede o desenvolvimento cientifico, empobrece familias que precisam do tratamento, evade divisas do país, mas tudo isso em nome da vida humana. Vamos ver o que vai acontecer depois do dia 12. Espero que a Italia não dê mais um passo rumo às trevas.

quarta-feira, junho 01, 2005


Saudades de São Paulo
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