terça-feira, junho 28, 2005

A escrita durante a tormenta

Pegou uma folha de papel branco liso e rolou pra dentro da máquina de escrever. Tinha as mãos crispadas sobre o teclado mas por alguns segundos as teve suspensas imóveis. Então começou a escrever:

“Em meio à tormenta viu se aproximar o barco”.

Puxou um cigarro do maço sobre a mesa e o acendeu lentamente. Fazia calor e a fumaça subiu vagarosa no ar espesso. Voltou a escrever:

“Dentro do barco podia-se ver a figura magra de um escritor, debruçado sobre sua máquina de escrever”.

A mulher o chama, se levanta e vai até a cozinha. Quer lhe dizer que amanhã acaba o prazo de pagamento da conta de luz e quer saber se vão ter dinheiro pra pagá-la. Ele diz que ela não pode interrompê-lo pra dizer bobagens e volta à sua maquina:

“As ondas faziam tudo se agitar, o mar estava um pouco revolto e a instabilidade da máquina de escrever sobre o balcão da pequena cozinha do barco perturbava suas ideias”

A mulher volta a interromper e com voz estridente o chama para ver algo. Ele faz que não ouve.

“O vento sopra forte e as velas se batem produzindo estalos de uma sonoridade inponente”.

Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real.

“Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real”.

Levanta-se e vai ver o que o vento causou ao mastro principal e às cordas. Se detém o minimo indispensável para por ordem nas coisas e volta a escrever:

“A mulher agora lhe pede que venha ver o banheiro que está todo alagado. Ele se impacienta e lhe insulta pesadamente enquanto acende outro cigarro”.

O vento parece que está diminuindo sua força mas o que está escrevendo não lhe agrada.

“O vazamento no banheiro lhe consumiu horas e energia suficientes para fazê-lo abandonar a idéia de escrever. Na verdade está desistindo de escrever para sempre”.

Joga a máquina de escrever no mar.

Silêncio, nada mais... nada.

18 Comments:

Blogger Inagaki said...

Muito, muito bom. Intuo que você também seja fã de Cortázar, Mr. Prada.

12:50 AM  
Anonymous Roberson said...

Imbricátus téxtus: uma peça é parcialmente coberta pela anterior e assim cobre a subseqüente.
Isso é pra poucos, meu velho.

Grazie!!

1:12 AM  
Anonymous pecus said...

Plantas de várias vistas. Bem arquitetônico.

3:19 AM  
Blogger Denise Arcoverde said...

O que é que tem com esses arquitetos que escrevem tão bem???

Maravilhoso, Flavio!

Beijos!

3:52 AM  
Blogger melissa said...

Muito legal. Vida de quem quer ganhar a vida escrevendo não é fácil.
Sempre leio seu blog...

Abracos,

melissa

10:27 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Inagaki. Não sei se sou fã de alguém, assim, no sentido clássico do termo. Mas sem dúvid Cortázar é um dos grandissimos escritores que já passaram pela minha leitura. Mas confesso que devo ler mais dele. Quem sabe viro mesmo fã.

Robertson. Obrigado pelas palavras.

Pecus. Sou um cara que escreve que por acaso é também arquiteto. Talvez tenha a ver sim, mas talvez não, quem sabe até o contrário.

Denise acho que vale a resposta do Pecus. Acrescento: Quem sabe quem escreve bem vira arquiteto pra poder sobreviver e não morrer de fome. Mas acho que não. Arquitetura é uma paixão, escrever é quase uma necessidade.

Melissa, concordo com voce e é por isso que eu nunca quis ganhar a vida escrevendo até porque antes do blog nunca havia apresentado nada à avaliaçao de outros.

11:31 AM  
Blogger D. Afonso XX, o Chato said...

No comentário à Melissa dizes que antes do blog nunca havias "apresentado nada à avaliação de outros". Pois é, penso que blogs podem ser um campo de experiências para vôos maiores. Evidentemente, para gente como tu, que tem talento. abs

1:16 PM  
Blogger Laura said...

Que beleza de texto Flávio, é um prazer ler o que escreve. É original.
Hoje por coincidência coloquei um conto de Raduan Nassar lá no blog, Raduan jogou a máquina fora, literalmente, não escreveu mais nada, é impressionante, mas eu não qüestiono, respeito, tem lá seus motivos, não é?

7:37 PM  
Blogger Allan Robert P. J. said...

Eu teria desistido antes.
Ciao

1:25 AM  
Blogger Milton said...

Muito bom. Como se pode chamar isto? É o jogo do foco narrativo? Muito engenhoso, arquiteto.

Grande abraço.

6:27 PM  
Anonymous Gejfin said...

Bom sim! Iche!

Mas, com inevitável beretear, a parte que ficou do texto foi a primeira frase: "pegou uma folha de papel branco liso e rolou pra dentro da máquina de escrever".

Rolar uma folha numa máquina de escrever... movimento em extinção.

:) Abraço chê!

9:21 PM  
Blogger Biajoni said...

o barulho das ondas...
chuá.

hehehe

11:44 PM  
Blogger Viva said...

Me deu vontade de ver o mar...!

Não sei se leu um comment que eu fiz sobre o post do boné, mas lá eu falei da customização de uma calça jeans que eu fiz uma vez.
Bom, me inspirei e fiz um post sobre o assunto no meu blog. Citei seu post do boné, tudo bem?
Passa lá e dá uma olhadinha!
http://quemeviva.blogspot.com/
beijos

8:22 AM  
Anonymous Nelson Moraes said...

Excelente, buddy boy. Metalinguagem (opa!) levada com classe e estilo. Parabéns.

7:44 PM  
Blogger Claudio Costa said...

Deisistir para sempre de escrever.. hmmmmm, acho que não dá: escrevo, logo existo... como falei lá no PrasCabecas... "jogou a máquina-de-escrever no mar e comprou um laptop" (eis o final que você omitiu!).

8:41 PM  
Anonymous Patrícia Köhler said...

Que texto ótimo! Preciso, apesar de toda a aparente 'confusão' gerada.
Escrever é mesmo uma sangria, não?

10:07 PM  
Blogger Fernando said...

Oi, Flavio,
Então resolvo passar pelo Lixo pra dar um abraço, desejar bom final de semana...caramba!!!
Tem um texto do cacete que o cara escreveu!
Acho que não vou só dar um abraço, não! Vou ler esse negócio até o fim. Maravilha de texto!!!
Qual abraço, qual nada! Um puta parabéns, isso sim, pra esse escritor que também é Arquiteto.
fernando cals
ps: e um belo final de semana, com mais escritos!
fc

3:54 AM  
Blogger Sheila Leirner said...

Muito bom o seu meta-texto Flavio! Por enquanto é um escritor que escreve sobre um escritor que escreve sobre um escritor. Mas dá para você escrevê-lo ao infinito ou... até a hora que ficar realmente com vontade de jogar a máquina de escrever no Lago de Garda :) Bacci

8:04 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home

More blogs about lixo tipo especial.