segunda-feira, junho 06, 2005

A literatura na minha vida

Já li muito nessa minha atual vida, mas depois cansei. Hoje leio de tudo, mas nada que seja importante. Leio os folhetos de promoção do supermercado, incluindo as letrinhas de rodapé onde escrevem que a promoção só é válida se chover por mais de três dias e enquanto durar o estoque de dois produtos. Leio também as embalagens de biscoito e de chocolate em pó. Comprei até uma lupa para me ajudar com as letrinhas miúdas.

Mas ja li muita literatura boa. Quando eu não tinha dinheiro para comprar livros eu ia a uma bookstore e ficava lá lendo a tarde inteira. Para não dar a impressão que eu ia lá para ler obras inteiras sem pagar, eu pegava dois ou mais livros e ia lendo o que me interessava e no momento de virar a página dava dois ou três passos e fazia cara de quem escolhe na prateleira. Desse modo pude ler as obras quase completas de Sartre, Proust, Kant e outros tantos. O problema dessa técnica, ou melhor, deste recurso é que por exemplo as vezes não conseguia ler o final de algum livro pois a livraria ia fechar. Isso me causou certos problemas de ordem psicológica e emocional, além de gerar certa confusão. Até hoje não sei se o Cândido de Voltaire se casa no final com a madame Bovary. Fiquei sem saber também que fim levou o Principe de Machiavelli, se voltou a viver no castelo de If ou se retornou à sua casa da rua Morgue. Sem falar dos inúmeros livros de Agatha Christie que me faltam somente saber quem foi o assassino. As vezes não durmo, pensando nesses casos irresolvidos.

Sei que são confissões que afinal eu não poderia estar fazendo aqui. Sei que um bom blog deve mostrar a erudição do autor, nem que pra isso ele tenha que recorrer ao copia/cola com google e wikipedia, ou consultas de última hora à Barsa ou eventuais vizinhos cultos e ocultos. Mas como nós não ganhamos nada pra fazer essas coisas, vou me limitando à verdade dos fatos.

Acho que agora que me aproximo da velhice posso voltar a ler meus livros. Penso que a literatura em si foi uma ótima invenção. Se levarmos em conta então que o gênio humano produziu também a bomba de fragmentação, a poluição do ar e da água além do odioso hit parade de música pop, a literatura passa a ser vista como uma das atividades mais belas em absoluto. Chega a ser mais bela que as “Mais-mais do fim de semana da ilha de Caxingui”. Penso que quando puder ter o tempo necessário a uma boa leitura vou começar a ler os clássicos: Pato Donald, Mickey e Tio Patinhas. Depois vou aos modernos: Paulo Coelho e Dante Alighieri, além de um especial da cozinha maravilhosa da Ofélia.

Mas aí vou ter que investir dinheiro em livros ou voltar à tática do João sem braço rato de loja descrita mais acima. Pensei até em não criar esta dependência das editôras e produzir eu mesmo meus livros somente para consumo próprio. Seria uma ótima idéia se eu conseguisse guardar segrêdo para mim mesmo, mas eu já tentei escrever algo que eu não soubesse como termina, só para me surpreender, mas chega uma hora que eu não resisto e me revelo a surpresa antes mesmo de começar a escrever. A única saida é contar com minha memória que há mais de seis anos e meio apaga qualquer fato com mais de dois anos de minha mente. Devo escrever hoje, esperar uns dois anos e depois ler com grande surprêsa. Mas me parece que me lembro de haver já escrito algo para ser lido depois de anos, mas não consigo me recordar onde foi que coloquei estes manuscritos. Vou lá perguntar pra empregada. Nesse momento ela está queimando uns papeis velhos lá fora, vou lá ver o que é.

31 Comments:

Anonymous tiagón said...

Ah! Belíssima crônica! Me fez lembrar que há alguns anos escrevi uma carta para mim mesmo, para ser aberta quando eu fizer 50 anos (daqui a 23). Só ainda não descobri como vou fazer para que ela chegue do correio na hora certa. Abraço!

9:36 PM  
Blogger rosa said...

eu fazia cartas pra mim mesma durante a dolescência, colocava num envelope fechado e escrevia: "para ser aberto daqui a dois anos" , "para ser aberto quando eu casar" e ainda tenho as cartas todas. de vez em quando eu leio e dou risada, ou choro, depende...
e já fui muito ler livro em livraria, até hoje eu vou de vez em quando pra matar as saudades. O que eu acho é que nos últimos quinze anos as livrarias permitem que você faça isso cada vez mais abertamente. ótimo, não é?

o que me deixa envergonhada é que sou uma leitora sem absolutamente nenhum critério, leio de tudo mesmo, mesmo, e o pior é que sou incapaz de não terminar um livro. ë quase um cacoete, se eu começo um livro que não gostei sofro durente o tempo todo, mas leio o danado...

9:43 PM  
Blogger Idelber said...

Bela crônica! Já usei esse truque em livrarias também, mas não com tanta classe nem com tantos recursos . . . Abraço!

3:06 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Tiagon. Cuidado com a empregada.

11:38 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Rosa, aqui na Italia ninguem te deixa folhear muito não. Quanto aos livros não terminados, tenho uma prateleira especial para eles e pretendo termina-los. So não sei quando.

11:40 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Idelber, a classe e os recursos ficam por conta da liberdade narrativa de que me utilizo. Na vida real as coisas são mais sem graça. Um grande abraço.

11:43 AM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Ah, Flavio, você e o Guilherme são minhas almas-gêmeas na blogosfera! até lupa eu já comprei, também, pra ler coisinhas minúsculas hehehe... também leio rótulo de shampoo, condicionador, sais de banho, exfoliante, quando estou na banheira hehehehe...

E tive minhas épocas de ler tudo que podia lá na Livro 7, livraria que formou muita gente boa no Recife. Nos meus 17 aninhos vivia lá e era musa dos frequentadores, sempre muito blasé, folheando Byron e Apollinaire... hahaha... ah, a juventude é muito engraçada!

Um beijão e adorei ler sobre sua vida literária, aguardo o livro ;)

12:09 PM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Flavio, você tava lá em casa, enqaunto eu tava aqui... sincronicidade ou você saiu de fininho quando eu entrei? hehehe...

12:12 PM  
Blogger Flavio Prada said...

Denise, é hora de almoço e hoje resolvi abrir mil janelas e visitar todos ao mesmo tempo. Estava la sim, mas havia aberto ja ha um tempo. Quanto a ler de tudo, tenho outro post que fala disso: http://lixotipoespecial.blogspot.com/2005/04/dicas-de-leitura.html
Beijos.

12:19 PM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Hahaha... ótimo texto, aconselho a todos seguirem o link dado pelo Flavio aí acima. Então você também lê rótulos de shampoo.. mas a única coisa que eu (deveria, mas) não leio é manual de instruções, tenho total incapacidade de seguir instruções do que quer que seja... mas a do seu "autoradio com toca CD" compete com "As Onze Mil Varas" de Apollinaire... hehehe...

Quanto à nossa sincronicidade... bonitinho, né? isso acontece comigo de vez em quando, com, vári@s amig@s blogeuri@s, de estarmos em "casas trocadas" :)

12:49 PM  
Blogger Laura said...

Flávio, eu leio muito na cafeteria/livraria, uma vez não deu para ler todo o livro, qdo voltei estava esgotado, depois de meses voltou, aí acabei de ler.Fazer o que, aqui eles deixam, fico horas lendo, de vez em qdo compro um, uma vez por mês, mais ou menos. Infelizmente não dá para comprar todos os que gostaria.
Saiu agora o do Umberto Eco, mais de 400 páginas, só deu para dar uma lida :) são as memórias dele, vc vai gostar, Itália, 1940 por aí até 1990, eu acho.
Abs, laura.

4:36 PM  
Blogger Rafael Galvão said...

Perfeito, Flávio. :)

Eu lembro de ler Christiane F. inteiro na livraria, em pé, aos pedaços.

Mas o que você tem contra o cut'n paste? :)

5:01 PM  
Blogger Flavio Prada said...

Laura, do Umberto Eco tenho lido os artigos nos jornais e revistas. 400 paginas vamos botar na fila, talvez em 2134 eu leia.
Rafão, não disse que sou contra o cut'n paste, so quis dizer que as vezes me da cansaço essa coisa da erudiçao de segunda mão. Mas cut'n paste é uma coisa que tambem faço e muito, mas pra outras coisas.

7:26 PM  
Anonymous pecus said...

Flavio, O Martin Page, um jovem autor francês que escreveu "Como me tornei estúpido", que li porque estava interessado em antidepressivos (assim que ele fica burro), não lembro se o autor ou o personagem roubava livros de bibliotecas ou livrarias aos poucos. Arrancava os pedaços e depois montava em casa. Não achei grande coisa o livro.

7:50 PM  
Anonymous christiana said...

Ah, Flavio, mas você tem um livro inteirinho aí no seu computador, esperando leitura. Parece que a autora não é muito conhecida e o texto pode nem ser grande coisa mas pelo menos as letras são grandinhas, não precisa de lupa. E o melhor é que é totalmente "de grátis" (e a promoção é por tempo ilimitado, ou enquanto durarem nossos estoques).
;o)

Beijo.

9:06 PM  
Anonymous Mônica said...

Flavio, eu também me canso dessa erudição. É isso aí! Neurônios irreverentes são tudo!

Minha mãe adorava Agatha Christie e eu também. Já li muita coisa dela. Alguns dizem que não é grande literatura, mas quem se importa? Os neurônios irreverentes (e potentes) gostam. Ela às vezes adivinhava quem era o assassino. Pena ela ter morrido. Se estivesse viva, eu pediria que te contasse o final dos livros que você não conseguiu terminar.

Ah, pra falar chique, pensa só: "a leitura não concluída de alta literatura como fomentadora do conceito soltei uma merda metida a sabida aqui)

Sobre o copiar e colar, eu às vezes fico de saco cheio de "A ERUDIÇÃO DA CITAÇÃO" também. Principalmente quando o fodão que usa o recurso escreve a coisa "com suas próprias palavras" (isso me lembra coisa de escola, do explique com suas próprias palavras) para dar a entender que leu, guardou na cabeça e interpretou sabiamente os conceitos.

Meus neurônios irreverentes mooorrem de preguiça disso. E adoraram seu texto.

9:30 PM  
Anonymous Mônica said...

Eu não sei falar chique! Fui tentar e saiu coisa faltando. Olha só o que eu queria dizer sobre não terminar de ler os livros:

Ah, pra falar chique, pensa só: "a leitura não concluída de alta literatura como fomentadora do conceito de obra aberta" (soltei uma merda metida a sabida aqui)

Recado pra mim: Mônica, jamais tente falar difícil.

9:41 PM  
Anonymous Mônica said...

Minha memória dura só 5 segundos. A sua ainda é boa. Faltou dizer que vou fazer desse troço aí de obra aberta uma tese. Tese de falta do que fazer. ;)

9:42 PM  
Anonymous Mônica said...

Delícia de crônica, adorei o "medley"entre os livros. Costumava inventar histórias assim para minhas filhas.
Beijão e obrigada pela visita em dia tão significativo.

12:54 AM  
Blogger Flavio Prada said...

Pecus, em todo caso vou provar ler este livro. Não sei quando, mas vou tentar, isso é que vale.

Christiana, valeu a lembrança. Se é que isso pode te consolar de algum modo, eu ja li quatro paginas e meia. Estou gostando, com calma eu chego la.

Monica, legal o que voce disse, mais legal ainda teu e-mail.

Monica. Será que foi so voce que notou o "medley"?

Beijos a todos

10:50 AM  
Blogger luma said...

Fazia muito isso de ler "de grátis" os quadrinhos em bancas de revistas. Até que o dono da banca próxima da minha casa colocou uma ripa de madeira em cima dos exemplares. Depois vieram as bibliotecas e que curto até hoje. Gosto da mistura de cheiro: papel guardado, madeira e cera.
Tenho guardado uns cadernos antigos, aqueles tipo "redordação" - quanta bobeira! Mas rendem ótimos momentos...beijus,

12:53 PM  
Blogger Flávio Rafael said...

Grande crônica Flávio! Ontem mesmo eu estava em um sebo do centro do RJ e ouvi a vendedora reclamando de um garoto que segundo ela estava lendo um livro (se não me engano "Verdade Tropical" do Caetano Veloso) e até marcador de página próprio ele tinha colocado no livro... :-) para ela um absurdo, para mim mais do que normal pois vivo "filando" livros em livrarias e sebos...

abraços!

1:44 PM  
Blogger Laura said...

Ah, Flávio, não foi só a MÔnica, não, que viu tua mistureba nas estórias, mas confesso que só li uns poucos da Agatha Christie, mas gosto, e M. Bovary. " O principe" comprei num sebo e não li até hoje, deveria, dizem que está tudo lá, o que não sei bem, vc sabe? :)
abs, laura

3:51 PM  
Anonymous Torlato said...

E hoje você têm dinheiro para comprar livros?

4:09 PM  
Blogger Milton said...

Já li alguns livros em sebos, mas ia em linha reta, sem esquemas: escondia o livro atrás das filas e voltava no dia seguinte. Também roubava livros... Mas nunca de sebos. Grande abraço.

7:03 PM  
Anonymous Viva said...

Adoro passar uma tarde numa livraria garimpando livros mas não sei se teria a cara de pau de voltar todos os dias pra ler aos poucos. OK, falta de grana não é desculpa! Helow! Conhecem as bibliotecas públicas? Rsss.
Quando tiver tempo para a boa leitura, sugiro Asterix (no lugar de Pato Donald).

9:24 PM  
Anonymous  said...

Muito bom... Ando pensando em reler alguns justamente porque notei um medley aqui na cabeça um dia desses. Aqueles clássicos merecem mesmo, hehehe... Abraços!

1:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

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