sábado, junho 18, 2005

O boné

Tenho um problema na cabeça. Se chama boné da Nike. Quando ainda estava no Brasil, mas já com todas as malas prontas para embarcar aqui pra Itália, uma cliente muito querida me ligou me pedindo duas ou três opiniões a respeito de uns móveis da sala. Eu disse que por telefone não funciona e fui até lá pessoalmente. Dei minha opinião profissional sólidamente embasada em minhas convicções etéreas a respeito de sofás e poltronas e parece que funcionou. Minha cara cliente me perguntou então quanto me devia pela consultoria e eu lhe disse que sua amizade me bastava, demonstrando o quanto sou simpático. Mas ela quis também demonstrar que é simpática e me levou dois dias depois uma camiseta muito chic e um boné da Nike de presente. Boné azul com a tal pincelada, ou seja lá o que for. Aqui na Itália vi alguns bossais com o mesmo identico boné e me deu a impressão que só bossais o usam. Eu o usava, tranquilo. Mas algo me dizia que o boné tinha sido feito com mão de obra escrava de crianças asiáticas acorrentadas e famintas e com as costas cheias de cicatrizes das chicotadas. Mas pensava, não comprei o dito cujo, me foi presenteado por uma pessoa doce e especial que nunca iria patrocinar o sofrimento nem que fosse de uma mosca, quanto mais de crianças. Que mundo complicado. O boné existe, está feito. Se jogo no lixo fico sem aquilo que é o reconhecimento de uma amiga e o trabalho daquele pobre coitado. Mas é tambem o simbolo da globalização avassaladora que está levando o capitalismo a toda parte. Claro que estão levando antes o ismo, o capital vem outra hora. Em todo caso, tenho um problema na cabeça. Ja tive vergonha de usá-lo, assim como já tive orgulho. Estranho como o mesmo objeto se transforma. Meus amigos que me deram listas de empresas a serem boicotadas, nem desconfiam que eu tenho um objeto desses aqui em casa. Tenho até medo que um dia descubram. Pensei em pintar o boné, ou então revesti-lo. Mas me vem de pensar que se o que vale é a intenção, que mal tem em se usar um boné? Já o usei no avesso e aí me olham e dizem: porque usar um Nike no avesso? Abro uma revista em determinada página e me dizem: Just do it. Sim, mas não é tão simples assim. Um cidadão com consciência tem dificuldades em usar qualquer boné. Não bastassem todas as dúvidas existenciais, as angústias de um pai responsável em um mundo desumano, os medos do futuro e do presente, as interrogações de ordem moral em face da imoralidade dominante, não bastasse tudo isso e muito mais, até usar um boné me põe em crise.

15 Comments:

Blogger Claudio Costa said...

Iche! se a gente quiser ser realmente mais rigoroso e pesquisar a origem de tudo que temos, casa, carro, roupa, eletricidade... vai ficar impossível viver! Mas não se pode esmorecer: então, continuemos a lutar, criticar, desalienar.... quem sabe dá em alguma coisa?

11:13 PM  
Anonymous Gejfin said...

:) "Até um boné" nada... é o que esses fdp fizeram representar uma "pincelada". Eu tive uma professora que gritava na aula às vezes: "Como é que pode?! Gente achar legal pagar mais caro para ser mídia ambulante das marcas que carregam." E, se for pensar, faz sentido. Mas também não faz.. porque pode ser uma simples pincelada.. ou só um boné. Tá.. vou parar porque daqui a pouco entro em crise também.

Perfeito o comentário lá no meu último post!

Abrás! :D
Gejfin

11:21 PM  
Anonymous David said...

Cara, é só um boné.

12:21 AM  
Blogger Laura said...

Flávio, que coisa...tbm tenho este tipo de crise, brinquedo do Paraguai em camelô era culpa ao quadrado. Agora aqui tem muito dvd, cd pirata, os meninos compram jogos eletrônicos por dez reais, não teriam como comprar por mais de cem, não comprar? é complicado...
E vc sabia que usar boné demais deixa careca? és calvo? ih... é o boné.

1:30 AM  
Blogger pecus bilis said...

Se voê se sente assim, imgina o Ronaldo, o fenômeno.

1:32 AM  
Anonymous christiana said...

Concordo com o Pecus de que a culpa do boné deveria pesar bem mais sobre a careca do Ronaldinho mas este, ao que parece, anda lépido, fagueiro e fogoso sob as asas da marca. Acho que o pensamento do esportista não vai tão longe que chegue à culpa. Ou, se chega, ele resolve tudo com uma pantomima humanitária como garoto-propaganda da ONU (ou será do unicef? hummm, acho que esta propganda não está funcionando tão bem quanto a da Nike. Devem estar produzindo bem menos bonés).
Tenho uma idéia para uso politicamente-correto do seu boné. Primeiro você o customiza (esta palavra está na moda) demonstrando seu repúdio ao capitalismo. Depois, promove um leilão virtual do objeto e converte a renda (tirados seus 50% para "despesas administrativas") para algum fundo em prol da extinção do trabalho escravo no mundo. Assim você pode respirar aliviado e, com o lucro da operação, pode comprar um uniforme completo da Nike para curtir seu lazer capitalista. Que tal? ;o)

1:56 AM  
Blogger Sheila Leirner said...

Flavio, tive uma idéia para o seu boné. Faça como no BookCrossing. Deixe ele num banquinho de jardim... :) Bacci

http://www.bookcrossing.com/
http://www.bookcrossingbrasil.blogspot.com/

8:20 AM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Flavio, quando eu tava na India, toda vez que encontrava uma pechincha, um objeto lindo de morrer, pensava que deveria ter sido feito por uma criancinha ou uma mulher mal remunerada (se remunerada) e ficava me roendo de remorso...

Aí, um dia, fui com Ted ver um lugar, em Agra, onde eles fazem uns móveis e objetos de mármore todo desenhado com pedras semi-preciosas, (vou confessar aqui, porque Ted não tem como ler, que acho cafonérrimo, mas Ted adora pedras e queria porque queria umamesinha pequenininha com desenhos em lapis-lazuli e eu adoro fazer um gostinho dele hehehe).

Ai, mas as condições de trabalho são terríveis. Os caras lá, raspando aquelas pedras sem máscara, sentados no chão... tudo muito artesanal, nada dentro dos padrões cruéis de "globalização", mas chocantes pra gente, da mesma forma.

E eu fiquei pegando no pé do cara, reclamando que eles deviam estar trabalhando em um lugar mais adequado, dizendo que era tudo muito caro e eu esperava que eles pagassem direitinho aos guris... hehehe...

Aqui tem as fotos do tal lugar, com os rapazes trabalhando:
http://public.fotki.com/DeniseArcoverde/viagens_-_trips-1/india/faces_da_india/

Enfim, como você, também tenho meus "bonés da Nike" pra me atormentar...

Post divino, como sempre!

Beijo!

ps.: Tinha uma mesa enorme, toda trabalhada que, segundo o dono foi vendida a uma brasileira de São Paulo, por 30 mil dólares!!!

2:41 PM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Essa foi a mesa que o cara falou que vendeu a uma brasileira por 30 mil dólares, huro que não botava na minha sala nem que fosse de graça hehehe...

http://public.fotki.com/DeniseArcoverde/viagens_-_trips-1/india/faces_da_india/dsc02333.html

2:45 PM  
Anonymous samanta said...

Oi Flavio,

Que interessante. Ontem li seu nome e hoje encontrei um comentario seu no meu blog. Muito bom encontrar esse espaço.
Quanto a Floripa, infelizmente ou felizmente nao estou por la nesse momento. Tambem nao sei muito bem a quantas anda o problema. Ah se todos tivessem pelo menos um boné pra questionar, talvez a situaçao nao tivesse chegado a esse ponto.

Abraços

3:14 PM  
Anonymous Ana said...

pra mim é simples: vamos pelo lado afetivo da coisa. porque, enfim, o que fica é o afeto. então: foi uma amiga que te deu. e, ao invés de pensar sobre quem costurou o boné, porque então não lembrar dela - a amiga, dos bons momentos divididos nessa amizade? e então, pensar que estás colocando afeto na cabeça. independente da marca.

é... eu sei que ficou estranho... mas acho que é isso.

beijo!

PS: me passa teu email?

10:04 PM  
Anonymous Roberta Febran said...

Concordo com a Ana, vendo pelo lado afetivo da coisa... Er... Bem... Hum...

2:29 AM  
Blogger luma said...

Dê o boné para uma criança. Mas antes pergunte se ela quer. Quando sua amiga perguntar do boné vc diz que uma criança quis. Você não estará mentindo...beijus

3:50 AM  
Blogger Sheila Leirner said...

Xô! Xô 13!!! :)

4:20 PM  
Blogger Viva said...

Oi Flavio, tive uma boa surpresa ao ler seu comentário no meu blog e achar o seu. Quanto ao boné, como é sentimental, eu usaria sim, mas achei o máximo a idéia da customização. Costura umas coisas por cima da marca, põe a bandeira do Brasil, sei lá. Na época do colégio, uns 15 anos atrás, eu customizei uma calça jeans com etiquetas de várias marcas. Nem lembrava mais disso... acho que vou escrever um post sobre o assunto!
beijos

5:37 PM  

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