sexta-feira, junho 03, 2005

SI o NO

No próximo dia 12 os italianos somos chamados a votar em um referendum. A decisão é entre estinguir quatro pontos da lei numero 40/2004 ou não. Esta lei em resumo, proíbe a esperiência científica com células embrionárias, considera o embrião um indivíduo e proíbe a fecundação “in vitro”. Estas celulas embrionárias sáo aquelas de embriões não utilizados quando de uma seleção para implante no útero de uma mulher. Em outras palavras, a ciência faz pesquisa com células de embriões humanos com o fim de descobrir curas para inúmeras doenças tais como câncer, esclerose, o mal de Alzheimer, Parkinson, o diabete e outros ainda. Isso na Italia hoje é proibido por lei. Simplesmente porque consideram o embrião com direitos de cidadão. Mesmo que sejam 32 ou 64 celulas congeladas, é um cidadão. A raiz desta concepção está na ala conservadora da Igreja católica. Interessante notar que oitocentos anos atrás esta noção seria ridicularizada como retrógrada, visto que um embrião era encarado pelo que é: um embrião. O cardeal Camillo Ruini é o propulsor dessa ala, inicialmente pelo não e agora pela abstenção, que usa de argumentos que segundo meu ponto de vista são paradoxais e risíveis. A atual lei consente a fecundação assistida com no máximo três embriões. Todos os três devem ser implantados já que não se pode haver descarte. O problema é que técnicamente, três é um numero insuficiente. Em geral se implantam no mínimo cinco. O que acontece é que com três a chance de insucesso é muito maior, ou seja, o tratamento deve ser repetido mais vezes, causando maior sofrimento à mulher e – paradoxo- causando muito mais morte de embriões. Todas as vezes que a religião com seus dogmas moralistas interferem na vida civil, acontecem desastres. Mas não era o bastante. O neo papa não pôde deixar de dar sua contribuição. Lançou um apelo, como sempre em linguagem cifrada, para que todos os bispos ajudem a esclarecer os cristãos e orienta-los a não irem votar. Só como nota: o incitamento à abstenção de um referendum, segundo a lei italiana é crime passivel de pena de detenção de seis meses a três anos, além de multa. Suspeito que não vão botar o papa na cadeia, mas já começou a ferir a lei o nobre alemão.
A permanecer como está, a lei sobre procriação assistida causa além dos problemas ja citados, um outro de ordem econômica. Muitos casais vão a outros países europeus fazer a fecundação e pagam boas cifras para isso. Em resumo, a posição dos que querem manter a lei não impede que embriões sejam mortos, causa problemas e sofrimento às mulheres, impede o desenvolvimento cientifico, empobrece familias que precisam do tratamento, evade divisas do país, mas tudo isso em nome da vida humana. Vamos ver o que vai acontecer depois do dia 12. Espero que a Italia não dê mais um passo rumo às trevas.

15 Comments:

Blogger Sheila Leirner said...

Flavio, é bom se preparar. Pelo jeito a Europa inteira não está indo pelo bom caminho, sim? :) Beijo

4:36 PM  
Blogger Marcia said...

Olá Flávio, tudo bem?

Eu vim aqui responder suas perguntas. 1ª) quanto o nome do meu blog Namastê e seu significado " o Deus que há em mim saúda o Deus que há em você" eu aprendi que essa é uma palavra escrita em sanscrito e é um cumprimento usado pelos indus. 2ª) quanto ao chocolate é um trocadilho infame que eu usei lá, se eu fosse você nâo dava nem bola, hehehe!

e claro, obrigada pela visita!

5:07 PM  
Anonymous Meire said...

Olà,
Vim agradecer a tua visita, e dou de cara com um um tb brasileiro na Italia.
Gostei do teu post e se permite gostaria de publica-lo no meu blog, logico com os devidos creditos a vc.
Qdo vc veio me ver o clima era de tristeza, volte là que hoje esta mais alegrinho.
Meire

5:19 PM  
Anonymous pecus said...

Flávio, pra mim essa questão dos embriões é complicada, não por causa da igreja, mas pela aspecto civil mesmo. Um dos pilares do estado de direito é o respeito à vida. Seria muito cômodo se pudesse ser um dogma, para afastar questões como a pena de morte. Mas não dá, justamente por causa de questões dificeis como a fertilização assistida, o aborto, a utilização de embriões nas terapias das células tronco, e a eutanásia. Uma preocupação aqui no Brasil, onde questão das células tronco vai adiantada, é justamente que não seja esse cu do mundo utilizado como laboratório com material humano. Ta certo, o embrião viável não é vida, mas a sua produção em massa...

7:05 PM  
Blogger Flavio Prada said...

Sheila, acho sim que a curva é descendente, quem viver verá.
Marcia e Meire, obrigado pelas palavras.
Pecus, sei bem que é complicada esta questão porém embriões, fetos, pessoas, são coisas diferentes. O nascimento é um marco, um ponto de passagem, uma mudança de estado, como queira, mas que determina o inicio da vida de uma pessoa. Respeitar a vida, envolve tambem respeitar as mulheres que estão gerando. Um respeito à vida de modo generico e indiscriminado pode nos fazer retornar a epoca onde até o semen era considerado sagrado. Veja na biblia em levitico 15:16-17 e pare de bater punheta. Em todo caso, diante da pluralidade de opiniões, o melhor, acredito, é garantir a liberdade de escolha. Tudo o que tolhe minha liberdade de escolher, acredito que não seja boa coisa.

10:11 PM  
Blogger luma said...

Pelo menos agora estão discutindo...beijus, Luma

10:42 PM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Buona fortuna!

11:29 PM  
Anonymous christiana said...

Isso que você fala está certo, Flavio: se for levar ao pé da letra, qualquer punheta é holocausto. Ninguém pode ser favorável à matança de seres humanos mas precisamos definir melhor a partir de que momento há vida. A Igreja considera que existe vida a partir da fecundação, mas a ciência hoje em dia tende a considerar que a vida começa a partir da nidação, que é o momento em que o ovo se prende à parede uterina. Isso porque, antes da nidação, não se pode garantir que o ovo vá "vingar". Muitas vezes ocorre fecundação mas, por não ocorrer a nidação, o ovo é eliminado sem que a mulher possa sequer saber. Se o ovo fecundado já for considerado vivo, então muito pior que usá-los para experiências é jogá-los fora sem nenhum aproveitamento, como fazem nas clínicas de reprodução assistida no mundo todo, quando eles passam do prazo de validade. Isso sim deve ser pecado. Estas crianças jamais vão nascer, é hipocrisia dizer que estão preservando a vida, estão apenas defendendo obstinadamente um dogma, e condenando à morte e à doença os que poderiam se beneficiar das novas terapias. O mal dos papas é que eles não têm filhos e não podem se colocar no lugar de um pai ou uma mãe cujo filho tenha uma esclerose múltipla ou tantas outras doenças incuráveis, para as quais a única esperança está nas novas descobertas a partir das células-tronco. Claro que é preciso haver critérios e não seria aceitável fabricar embriões em série com essa finalidade, mas é desumano frear uma tecnologia tão promissora apenas para satisfazer à teimosia papal.

6:15 AM  
Anonymous Mônica said...

Flavio, a única coisa que me deu vontade de dizer por enquanto a respeito da atitude da Igreja foi: ai, que raiva!

Quando a raiva passar tento comentar com calma.

6:28 AM  
Anonymous pecus said...

Flávio, eu disse que seria muito cômodo se o respeito à vida pudesse ser um dogma, mas não dá, por causa dessas difíceis questões. Você respondeu como se não tivesse lido.

3:20 PM  
Blogger Flavio Prada said...

Pecus. Observação aceita. Eu não tinha lido mesmo. hehehe. Sem brincadeira, acho que o que eu te respondi complementa essa ideia.

3:49 PM  
Blogger marcelo said...

Flávio,

O mistério está criado: manteremos os templates iguais após as alterações?

Só o tempo dirá...

Quanto à questão da tua crônica, o igreja não deveria se meter onde não é chamada...

abraço

4:14 PM  
Anonymous Anaí Tobias said...

Ola, como disse em meu post, no meu ver, posições políticas e até religiosas, não é de meu feitio discutir. Na minha humilde percepção emocional, cada pessoa tem seus valores e tendências pessoais. Apesar de não ser versada em economia política, estou longe disso,por curiosidade leio bastante sobre o passado dessa antiga terra, e o que acho sobre a atualidade já disse em meu blogger. Porém respeito sua opinião pessoal, só gostaria de fazer uma indagação como ressalva: Se a União Europea era a única salvação... se a globalização não cria exclusões sociais, quantos anos mais vc acha que por aqui teremos uma melhora nas condições de vida, pois se analizarmos os dados do antes e pós UE, veremos que a distribuição de rendas por aqui se concentrou no pós, e o poder de compra do italiano das classes de base despencou no mesmo período. Remédio amargo mas eficaz? Todo remédio tem efeitos colaterais, mas no estado geral do paciente, durante a administração do mesmo e no espaço de tempo esperado para a cura, deve-se ter uma relação custo benefício favorável, senão torna-se veneno.
Um forte abraço e obrigada pela visita em meu blog, gostei de seu blog, apesar de um pouco radical, gostei de suas argumentações, um bom fim de semana.

4:32 PM  
Anonymous Monica said...

Oi, Flávio

Cheguei aqui por indicação da Sheila Leiner. Tenho cidadania italiana, vivo em São Paulo e vou votar pelo correio, assim como toda a minha família.
Sim! Em favor da ciência!

Um abraço,

3:39 AM  
Anonymous Lili said...

Incrível como o pensamento de uma minoria pode influenciar a vida de uma grande e esmagadora maioria. Uma pena mesmo.
Bjo.

7:51 PM  

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