terça-feira, junho 21, 2005

Tudo tão perto de casa

Perto daqui de casa os americanos mantém carinhosamente 90 mísseis nucleares nas bases de Ghedi Torre em Brescia onde estão 40 dessas belezas e de Aviano em Pordenone, onde dormem em plantão permanente as outras 50. Nenhuma autoridade italiana tem conhecimento ou informação oficial a respeito destes meus vizinhos. Porém, todos são visíveis e nem um pouco escondidos nas fotos de satélite. Durmo tranqüilo sabendo que minha segurança está garantida com o que de mais sofisticado existe em termos de arma e destruição. Meu vizinho Mario que é um pessimista vive me dizendo que em caso de acidente ou guerra, estaremos todos fritos, porque estamos pertos demais de um alvo estratégico. Ele é mesmo pessimista. Não estamos pertos demais, estamos a 80 km da base de Brescia e isso quer dizer que em caso de ataque nuclear, nós receberemos alguns minutos depois da explosão um vento de por volta 250 Km/h, quente como o inferno além de radioativo. Isso causará uma desidratação e queimaduras quase que instantaneamente e a pele se soltará de nossos corpos. Levaremos dias para morrer, tendo tempo suficiente de arrependermo-nos dos pecados e tomar consciência plena de toda a situação. Não sei pra que tanto pessimismo.

Outra pessimista é a doutora Helen Caldicott médica especialista em problemas relativos a energia nuclear, merecedora de inúmeros prêmios internacionais entre eles a indicação ao prêmio Nobel da paz da parte de Linus Pauling e ganhadora indireta do mesmo em 1985 através de sua instituição a “Médicos pela Prevenção da Guerra Nuclear”. Ela afirma que a guerra nuclear nunca esteve tão próxima de se realizar até porque as fortes tensões da guerra fria que mantinham o equilíbrio de forças não existe mais e esse é o grande perigo. Um único ser humano detém o poder de em menos de cinco minutos causar a morte de milhões de pessoas. Esse homem é George Bush. Não sei porque o pessimismo. Acho que Bush não decidiria algo assim sozinho e teria o conselho valioso de Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Condoleeza Rice, tudo gente com a cabeça no lugar. Meu vizinho Mario não pode nem ouvir falar esses nomes todos, que pessimista.

A doutora Helen diz mais. Diz que só de urânio empobrecido (Depleted uranium – DU ou urânio-238) o Iraque de hoje conta com mais de 350 toneladas espalhados por todos os cantos na forma de balas de metralhadoras e blindagem de tanques. Esse material foi introduzido na primeira Guerra do Golfo em 91 e utilizado maciçamente no mais recente entrevero. Para a indústria bélica o DU foi um achado. Nos EUA existem mais de 500.000 toneladas do material, que apresenta 60% da radioatividade do urânio natural e requer a metade do tempo para decair, ou seja, somente 4,5 bilhões de anos. O achado foi no sentido de que este material é mais duro e resistente que outros na confecção de balas e revestimentos e é cedido às industrias a custo zero, grátis, visto que ninguém quer saber dessa coisa. A pessimista da doutora Helen diz que o enorme aumento de tumores infantis, como leucemia, síndrome de Hodgkin e linfomas no Iraque de hoje se deve ao uso de DU. O Pentágono, de forma muito mais positiva, declarou que o DU é absolutamente inofensivo, isentando inclusive o material das suspeitas de que ele também pudesse ser responsável por tumores em jovens soldados americanos. O Pentágono disse que é tudo bobagem, que esse é o melhor dos mundos possíveis e no natal seremos ainda melhores e mais bondosos. O pessimista do Mario não acredita no Pentágono, onde já se viu?

Bush e companhia pilotam hoje uma industria de armamentos que mama das tetas federais a beleza de 6,5 bilhões de dólares por ano militarizando inclusive o espaço, a revelia da ONU. Países chamados canalhas que tem programas nucleares com fins bélicos como Irã e Coréia do Norte, correm risco efetivo segundo os pessimistas especialistas do assunto. Venezuela também dá seus passos nessa direção e já recebeu por isso certos recados mais ou menos explícitos, até em forma de golpe. O Brasil onde se encontra nessa situação toda?

Chega a ser patético hoje acompanhar o debate político no Brasil e perceber que é absolutamente descolado desta e de outras questões internacionais fundamentais para se entender certas posições e estratégias. O governo brasileiro literalmente abaixou as calças em muitíssimos setores somente objetivando a entrada no conselho de segurança da ONU em uma cascata de compromissos. A mesma ONU redigiu em 1968 o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Os EUA de Bush, desrespeitam absolutamente este tratado e impedem categoricamente com ameaças claras e públicas que outros países o façam.

Como sou otimista, acredito que os americanos tenham esta política porque querem garantir a paz, a democracia e a prosperidade de todo o planeta. Logo logo eles irão desarmar o mundo, como todos nós desejamos já que algo que pode liquidar com minha vida assim como de minha família e também de minha cidade, diz respeito a mim e vai além de uma política interna de um país. O Mario não concorda e eu já acho que ele sofre do fígado. Me diz que não é por aí e que é melhor ir se preparando para viver dias duros. Mas não é possível que alguém possa pensar certas coisas. Ele chega ao ponto de dizer que a guerra no Iraque serviu para ajeitar muita coisa na terra de Bush: o controle total do petróleo; segurar o dólar como moeda planetária que estava ameaçado pelo euro como referência de preços do próprio petróleo o que seria um passo para se transformar na moeda mundial; garantir às grandes corporações e as industrias bélica e da reconstrução de fazer caixa; dar uma resposta aos democratas que em face a um capitalismo sempre mais fictício baseado no crédito estavam fazendo uma soft landing da economia e Bush de soft não tem nada. Ele diz isso para me explicar que hoje nos EUA, um país com uma historia belíssima e importante, o governo esta nas mãos de gente capaz de absolutamente qualquer coisa. Mario, Mario, além de pessimista é ingênuo. Pensa que a teoria da conspiração tem algum valor. O que o faz pensar que a economia hegemônica no mundo tenha medo de perder seus privilégios? Porque dizer que o fundamentalismo existe hoje em todo o mundo e principalmente na América de Bush? Acho que não tem jeito, quando um nasce pessimista não há meio de mudar.

Bem, o Mario já foi embora, vou tomar um chopinho lá no jardim, de onde dá pra olhar o pôr do sol. Por coincidência é lá pelos lados de Brescia que devo olhar. Qualquer luz mais forte, pulo pro carro e saio correndo, afinal as malas estão sempre arrumadas e prontas no bagageiro.

17 Comments:

Anonymous pecus said...

Flávio, também sou otimista. Pra mim a evolução da civilização é a união européia, com a queda das fronteiras e uniformização dos direitos, e tende a se espalhar pelo mundo. É a utopia do direito internacional. O cataclisma nuclear é só mais um fantasma...

8:15 PM  
Blogger Leila Couceiro said...

Quando eu era criança, o pavor de uma guerra nuclear ou do fim do mundo era uma coisa palpável. Diziam que ia acontecer no ano 2000, quando eu faria (fiz) 32 anos. Eu pensava então que já estaria velha o suficiente e não me importava muito com essa possibilidade. Bem, o fim do mundo não chegou em 2000 e não é agora que vou me preocupar, he he he.

8:25 PM  
Blogger Laura said...

Vc encontrou uma forma de dizer isto de forma irônica e elegante. Porque cá entre nós, é o fim este tipo de gente que domina o mundo...
Qdo eu tinha 20 anos ou menos não queria ter filhos porque era como o mario, depois vi que tinha que viver, não adiantava viver de luto, sobrevivi, tive dois filhos-agora adolescentes- e é preciso dizer a eles que têm que ter esperança, é duro.O mario está certo, infelizmente.

9:05 PM  
Blogger qualquer calmaria said...

Apesar de toda essa gente que quer brincar de dominar o mundo, eu também sou otimista. Acredito que existam mais pessoas que querem um presente melhor do que o povo do contra. Aliás, eles não percebem que do jeito que eles conduzem as coisas, não terão tempo de usufruir de todo dinheiro que têm? Não, eles sabem disso. Estão brincando.
Sim, eu sou otimista.
Melhor voltarmos para aquele tempo em que se brigava "na mão limpa".

9:24 PM  
Blogger Nani said...

Se para morrer basta estar vivo, e daqui nada posso fazer contra isso tudo, para que me preocupar? Pré-ocupar, sofrer antes... em que ajuda? Uma úlcera talvez, ou o problema de fígado do Mario...

3:33 PM  
Anonymous Fernando said...

Também sou otimista, Flavio. Tenho certeza que o povo de Aviano (de Ghedi Torre, de Vicenza, etc) está louco para se livrar desses americanos malvados. Certamente aparecerá alguém honesto e puro (como um Bertinotti, por exemplo) que os vai expulsar.

3:41 PM  
Anonymous bagunceira said...

Sou otimista tambem.... por isso não vou comentar seriamente seu post. Sim, eu me dou esse direito. Menino, corre, vem pra cá vem.... ai, me deu até palpitação de desespero!
Agora, essa de deixar as malas sempre arrumadas, é otima!
Adorei sua visita, de verdade e agora entendo pq me perguntou, que novela das seis? rs
Eu responderia: a mais brega impossível, se assisto? não, mas a trilha é difícil deixar de ouvir quando dá o horário! rs
Beijo e eu voltarei com ou sem míssel.

4:05 PM  
Blogger Milton said...

Esse Mario é um trouxa, né? Estamos todos em total segurança, protegidos por pessoas tranqüilas, esclarecidas, que preservam incondicional amor à verdade e que são orientados pela a religião e o bem. Não vejo problemas e, se fosse você, nem sairia correndo se aparecesse mais um sol em Brescia, pois tal fato significará apenas que mais um problema terá sido extirpado do planeta. Tenho plena fé nos homens e, se vierem ventos, recomendo-te calma. Aproveite a brisa!

Abraço.

4:57 PM  
Anonymous Roberta Febran said...

Olha Flavio, nesse caso, os otimistas acham que o mundo todo está fodido. Já os pessimistas, têm certeza absoluta.

6:42 PM  
Blogger luma said...

Estudo calcula grande risco de um ataque não convencional em 10 anos

Agências Internacionais

WASHINGTON - Especialistas em armas calculam que há um risco de 70% de um ataque com dispositivos de destruição em massa na próxima década, segundo um novo estudo. Eles dizem não ter condição de antever onde seria o ataque e que, nos próximos dez anos, mais cinco países terão adquirido armas nucleares, ampliando as possibilidades.

O estudo calcula que o risco de um ataque atômico ao longo dos próximos cinco anos é de 16,4%; na década: 29,2%. O perigo cresce quando se acrescenta a possibilidade de ações com armas biológicas e químicas e bombas sujas (explosivos convencionais associados a material radioativo): 50% em cinco anos; 70% na década. Isoladamente, o maior risco é representado por uma bomba suja: 40% ao longo da década.

A pesquisa foi chefiada pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, Richard Lugar, que descreve o perigo como "real e crescente".

Segundo um assessor de Lugar, a estimativa de 70% ainda é "muito conservadora".

"Mesmo que tenhamos sucesso espetacular na construção de democracias pelo mundo, em trazer estabilidade a países fracassados e na disseminação ampla de oportunidades, não vamos estar seguros contra ações de pequenos grupos que adquiram armas de destruição em massa. Tudo está em risco se fracassamos nessa área", diz o senador republicano, do estado de Indiana, na introdução do estudo.

A pesquisa não é simplesmente a voz do Partido Republicano ou do governo de George W. Bush, apoiado por eles. O estudo contém avaliações de 85 especialistas, a maioria americana. Entre eles, estão o mais importante assessor de Bush na área de não-proliferação, Robert Joseph, e republicanos e democratas que já estiveram na administração federal lidando com o assunto, como John Wolf, James Woolsey, William Burns, Donald Gregg, Strobe Talbott e Robert Einhorn.

Lugar e o ex-senador democrata Sam Nunn encabeçam um programa que gastou milhões de dólares desde 1991 para destruição de 6.624 ogivas nucleares e desmantelamento de centenas de bombardeiros, mísseis e submarinos na antiga União Soviética.

Fonte: O Globo - Solidária com o seu medo...rs

8:47 PM  
Blogger marco said...

Sempre os americanos...
Voltarei, []s!
www.meioambienteurgente.blogger.com.br

9:37 PM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Flavio, Flavio, esse post me pegou em péssima hora. Primeiro, lembre que eu vivo aqui em Washington, DC... além do mais sou uma hipocondríaca e paranóica incorrigível.

Acordei às 3 e meia da manhã, perdi o sono e vim dar um passeio pelos blogs dos amigos, porque não tinha tido tempo, ainda de dar uma olhada nos posts mais longos.

Você descreveu a situação brilhantemente. Dia desses o Idelber tirou a maior onda com a minha cara, lá na Leila, porque eu me preocupo com algum ataque aqui na terrinha ond emora o Sr. Bush...

Mas, diga se não dá medo... hehehe... você aí na Italia tem esses pensamentos, imagine eu...

Meu quarto tem um janelão de vidro na parede toda e eu deito lá e fico pensando o clarão que não ia ser... eu, hein??

Toda madrugada eu penso que a gente devia começar a se programar pra sair daqui... Bia disse que queria mudar pra Italia, quem sabe aí eu me sinto mais segura ;)

Beijo.

9:45 AM  
Anonymous Elisa said...

Flavio, na verdade já somos velhos conhecidos, estive por aqui, qdo vc fez um post, sobre uma viagem pra uma ilha levando um material, e móveis.....acho que foi isso....é que mudei de casa....então vc não me reconheceu....tb sou arquiteta, e terminando meu curso de especialização em gestão ambiental....beijos

9:22 PM  
Anonymous Simy said...

Se não fosse o EUA, o Bush, seria outro. Poderia ser até o Brasil. Dominação sempre vai existir, já dizia Darwin na teoria da evolução. Gostei do Blog.

3:55 PM  
Blogger Dudi said...

È isso aí! e nada de torresminho com chantily e necas de melancia com molho jimmy.
E aí Flávio, sonhas que o mar chegou a São Paulo e que os trombadinhas viraram nobres cidadãos e que e que os santos assumiram a política no Brasil?

6:50 PM  
Anonymous Guilherme said...

Tô contigo, Flávio Prada!

"God Bless America" !!!!!

8:29 AM  
Blogger Fernando said...

Pois é, Flavio,
Esse mundo nosso de cada dia, está muito cheio de gente pessimista, os Marios da vida.
Eu também sou otimista, tanto que moro no Brasil, mais precisamente, no Rio. Otimismo é isso aí.
Abração...otimista.
fernando cals

4:03 AM  

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