domingo, julho 31, 2005


Sonhei com São Paulo outro dia

quinta-feira, julho 28, 2005

A corrente do cinema

Eu aprendi a respeitar os mais velhos. Me parece ainda que pra respeitar mesmo mesmo não pode mais nem dizer que são mais velhos. Deve-se dizer idosos, ou ainda mais atual, avançados na idade. Não que eu seja um lactante, mas nesse caso vale a regra: respeitar quem chegou antes. Por este motivo é que não poderia não responder a um pedido de meu amigo que chegou antes, colega de profissão e de bloguâncias Fernando Cals. Ele me enviou uma corrente para que eu respondesse sobre cinema. Talvez o Fernando não saiba que eu tenho enorme dificuldade em eleger coisas que devem ser por natureza inelegíveis. Claro que cada pessoa pensa de uma maneira. Tive um colega holandês que sabia o que queria, era um que escolhia uma coisa e a elegia predileta e nada o perturbava. Durante oito meses, esporadicamente almocei junto com este senhor, já que fazíamos consultoria para a mesma empresa. Durante oito meses, sem nenhum tipo de variação, seja no tempêro que na composição ele comeu a mesma, idêntica, absolutamente invariável e maldita salada mista com atum, sempre no mesmo restaurante. Eu não consigo comer dois dias no mesmo lugar, imagine isso. Depois de um tempo, eu ia lá encontrar o holandês pra tomar o café ou um sorvete. Ele às vezes me convidava pra ir comer com ele e apesar de eu também amar salada mista com atum repondia: obrigado mas este filme eu já vi. Mas isso que estou narrando é uma absurda escapada do tema e devo, sempre por respeito, retornar.

Pois bem, a primeira pergunta da corrente é “ Qual o seu filme favorito?” Bem, essa é fácil de responder. Nesse ponto também tenho uma opinião formada e não tenho alguma dúvida em responder de modo claro e preciso: salada mista com atum.

Já me sinto mais capaz. Já respondi a primeira, o que vir eu traço. Um vento de positividade me atingiu neste momento e me sinto muito seguro e determinado. Que venha a segunda pergunta! (rufar de tambores, ratata plan!) “ Qual o último DVD que você comprou?” Outra facílima, puxa vida: TDK.

Agora me animei de tudo. Isso é muito bom, obrigado Fernandão, vamos em frente, ninguém me segura. Pensei que seria tudo mais ligado mesmo a cinema, mas não faz mal, estou preparado como nunca estive. Nos idos de 1984, em Limeira, interior de São Paulo, eu e mais alguns amigos criamos um cineclube. Foi um período muito interessante e com milhares de histórias que com calma e se minha péssima memória me ajudar, vou narrar aqui.

Bem, sem desvios, encaremos a terceira pergunta. “ Quais os 5 últimos filmes que você viu?” Bem, vamos ver, deixe-me pensar um pouco. Bem, sim, o ultimo foi um com aquele cara que era parecido com aquele outro. Não, esse foi o anterior, ou melhor, o cara era parecido com o holandês das saladas mas isso não tem nada a ver. Hum, tem aquele que eu vi mas não vi inteiro e tem também aquele que eu só vi o começo e …. Fernando, não me lembro.

2 a 1. Não esperava por essa. Mas era bem difícil, admitamos todos. Os meus ombros se curvaram um pouco, mas por pouco tempo. Não vou deixar me abater por uma pergunta não respondida. Nunca!

Lá no cineclube de Limeira, depois de algum tempo, começamos a promover um debate após a projeção e que no início não rendeu nada. Mas pouco a pouco e de forma descompromissada, a idéia foi tomando corpo e se transformou em um momento tão especial quanto a visão do filme. Quando o seu Miguel, ex-professor de português e literatura ia lá comentar então, o prazer era redobrado. O homem fazia não uma mas diversas análises, segundo variados pontos de vista e isso fazia com que todos saissem dali verdadeiramente alimentados. A sensação era de ter feito mesmo uma refeição variada. Nada de salada de atum, era bufê rico e sortido. O belo da vida é que as coisas podem ser analisadas de diversos modos e a troca das idéias é que faz o momento mágico. Dito isso, vamos responder de forma segura, a pergunta de numero quatro. Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?” Mas ora vejam que bela pergunta, depois de tudo o que disse aqui.

Quando eu ensinei a meus filhos as noções básicas, o “melhor” vinha sempre em contraposição ao “pior”. Era difícil atingir a profundidade dos termos, já que sendo absolutamente frutos de subjetividade, não tem parâmetros na natureza sobre os quais um exemplo poderia se basear. Qual a melhor laranja do mundo? Bem, existem centenas de variedades de laranja no mundo e ainda bem que podemos experimentar todas, mas não! Aqui falamos do melhor. Qual a melhor laranja então? Bem, escolhida a variedade, deveriamos escolher a melhor seleção dentro da variedade e o melhor lote dentro da melhor produção e depois a melhor fruta dentro do melhor lote e isso não tem fim e pior de tudo: é completamente inútil e empobrecedor. Fazer uma escolha quer dizer renunciar a tudo o que ficou de fora e isso é dolorido para quem é sensível à beleza da vida e do mundo. Diferente quando profissionalmente devo fazer escolhas e as faço a cada minuto, todas mais ou menos motivadas e quase beirando a racionalidade.

Além de tudo isso a pergunta se refere ao melhor de todos os tempos, o que inclui o futuro e aí sim a coisa ultrapassa o absurdo. Vamos, sempre com muito respeito, considerar o placar em 2 a 2.

Começo a sentir uma certo desconforto. Algo me dizia que não ia adiantar ir contra a minha própria natureza. Pelo Fernando eu faço este esforço mas não sei se vai terminar bem, já profiro pessimismos. Como um médico do interior sem secretária, grito forte: a próxima!

“Qual o seu diretor /ator /atriz e o seu gênero favoritos?” Outra vez a pergunta sobre favoritos que a meu ver não tem resposta. Já fiz muita coisa inútil na vida como inventar máquinas para transformar linguiça em porcos, esportes radicais com uso de algodão doce e músicas silenciosas para surdos, mas isso de escolher ator e atriz eu não vou fazer. Por respeito e para não ser acusado de nojento, respondo um terço da pergunta. O meu gênero favorito é o feminino. Bem estamos em 2,66 a 2,33. Perdi mais uma vez, mas não me sinto mal por isso.

Chegamos ao final : Escolha 5 pessoas para passar a corrente…

O Fernando, já me deu a felicidade de poder escrever este texto dando-me o gancho da corrente, agora quero ter a ilusão que a dita cuja vai morrer aqui no meu colo.

segunda-feira, julho 25, 2005

Era bonitinho aquele menino

-Como perdeu o braço garoto?
-Trator passou em cima.
-E o que você fazia em baixo do trator?
-Tava brincando, aí meu pai não me viu.
-E a mão esquerda, porque é assim tortinha?
-Mamãe pôs no fogo.
-Castigo?
-É, castigo.
-Castigo duro hein?
-É.
-E as pernas?
-A direita foi no acidente no parque.
-Parque? Parque de diversões?
-É, eu fui ver a maquina e aí caí...
-Sim e a esquerda?
-Bom, não gosto muito de falar.
-Porque?
-Tenho um pouco de vergonha.
-Vergonha porque? Você não tem duas pernas, um braço e tem a mão que sobrou assada, mas tem vergonha somente pela falta da perna esquerda? Porque?
-Bom, é que porque essa perna esquerda fui eu mesmo que comi.

domingo, julho 24, 2005

Memória


Em uma cozinha de uma república de estudantes ali pelo início dos anos oitenta.

quinta-feira, julho 21, 2005

O imprevisto

A coisa mais interessante me aconteceu quando eu menos esperava. Me virei e vi a sua figura que se aproximava e pela primeira vez notei que os sinos da igreja tocavam àquela hora. Melhor ainda, reparei que a igreja tinha sinos. Na verdade nunca tinha visto aquela igreja ali. Mas ao me aproximar pude ver os seus cabelos que voavam soltos e me pareceu que era uma imagem da qual eu não tinha nem o direito de ver, de tão bela. Mais alguns passos e o perfume de seu corpo chegou a mim. Agora era já loucura e dessa forma, louca, me coloquei à sua frente e disse que não poderia deixá-la continuar porque deveria ser minha e ela sorriu. Não pude dizer nada pois a beijava e a levei para longe e nos recostamos em um banco de praça e fizemos com o olhar as promessas para toda a vida. Sentia sobre mim o céu e sabia de tudo o que estava acima de minha cabeça e também abaixo de meus pés. Eu era tudo e tudo fazia parte de mim. Ouvi músicas que nunca existirão e disse poesias irrepetíveis para gozo de nossa paixão. Por dias e dias e semanas e meses nos entrelaçamos e nos conhecíamos como quem não é outro.

Mas veio aquele olhar. Bastou aquilo e um frêmito me percorreu pois percebi que chegou o fim. Nos abraçamos despedintes e como nos encontramos, assim nos deixamos.

Ja fazem duas horas. Duas horas de angústia. Duas horas difíceis. Até porque não passa ninguém aqui nessa rua. E essa porra de sino que não pára de tocar.

segunda-feira, julho 18, 2005

Rapidinhas

- A nova onda do verão por essas bandas não tem ainda um nome mas é bem interessante. Trata-se de uma brincadeira onde o objetivo é caçar uma moça pelada. Os caçadores, uns trinta, homens e mulheres, também devem estar nus em pêlo. O cenário deve ser uma praia e detalhe: à noite. Todos vão para o mar com um barco ou o que for e a escolhida presa nada até a praia de onde dá o sinal de partida. Quem agarrar a moça (certa) vence a partida. Não participei de nada disso ainda, mas me disseram que o jogo não tem número definido de partidas, nem tempo para acabar. Uau.


- Os pesquisadores do Oregon Research Institute chegaram à conclusão que o caminho para a boa saúde é uma estrada não pavimentada. Ou no mínimo pavimentada no estilo antigo. Como aquelas de Paraty que tantos reclamaram quando do ultimo Flip. Eles descobriram que caminhar meia hora por dia em uma pavimento de pedras muito irregular, ajuda a abaixar sensivelmente a pressão do sangue e melhora muito o equilíbrio corporal. O chão irregular exercitaria um efeito de do-in natural nas solas dos pés, um tipo de reflexologia expontânea. Estou pensando em trocar o piso do banheiro. Acho vou arrebentar tudo e deixar como ficar. Minha mulher vai adorar.


- O nosso jornal local publicou essa semana uma lista muito útil. Estampou em algumas páginas o resultado da declaração de renda dos mais ricos da cidade, da capital e da província com todos os números relativos ao ano 2000. Fazem parte da lista todos os que tiveram como renda pessoal, o equivalente de 60 mil euros ou mais. Muita curiosidade despertou a declaração de alguns políticos. No Brasil isso é possivel? Seria divertido, no minimo.


- A European Food Information Council (EUFIC) está lançando um alerta em relação à ortorexia nervosa. Como todo mundo está cansado de saber, a ortorexia nervosa é a obsessão com a dieta, a mania de contar calorias e nutrientes, comer como quem toma um remédio, enfim. A EUFIC está preocupada em melhor definir e reconhecer a doença para traçar linhas de ação. Alguns psicologos tratam estes casos como simples obsessão, muito similar a bulimia ou anorexia, onde os doentes se preocupam em demasia não com a quantidade mas com a qualidade dos alimentos. O bombardeio de informações sobre o que é bom e sano de se comer e o que ao contrário, o que causa danos terriveis à saúde, seria um dos responsáveis pelo aumento da ortorexia. Eu, ao menos dessa estou livre.

sábado, julho 16, 2005

Óia a coisa

Dezesseis milhão de real

Cai do céu por que cai

Sei lá donde veio o bornal

Importante é i lá catá uai.


Ma espatifa e fura o cimento

Vai pro fundo e some das vista

Mas será possíve o acontecimento?

Queria sê rico de capa de rivista.


Ma o troço furô o meu terreiro

Não bastava o baita buracão

Puta merda, quando chove dinheiro

Ele foge e vai lá pro Japão.

quarta-feira, julho 13, 2005

Comemoração

Já que todos fazem resolvemos fazer também. Este blog está completando com este, o número de 71 posts. Motivo de grandes comemorações. O mais incrível é que por coincidência isso ocorre no 194º dia do ano. Dupla comemoração portanto. Fatos como esse não se repetem nunca. Em realidade nada se repete nunca. Isso quer dizer que talvez devamos comemorar o post 72 também. Bem, veremos. Saúde e felicidades a todos!!

terça-feira, julho 12, 2005

Sabe com quem voce está falando?


Hein?

sábado, julho 09, 2005

Hospital

Ligo o laptop agora depois de algumas horas. Estou preso mas por sorte estou sozinho na cela. Faço este relato para servir de orientação ao meu advogado e também para publicar, tentando com isso sensibilizar a opinião publica no sentido de demonstrar que tudo não passou de um tremendo mal entendido além de uma certa dose de, como dizer, má sorte. Isso, espero, ficará claro com o que escrevo aqui e espero também poder fazer ver a todos que a minha intenção foi sempre das melhores e que sou um cidadão honrado e respeitável.

Tudo tem início quando um fulano me pede uma indicação na rua, queria saber para que lado era o hospital pois havia levado um tombo e sentia o pulso meio dolorido. Eu, só querendo ajudar, não só lhe indiquei o hospital que não estava assim tão longe mas também tentei ver o pulso a fim de verificar a gravidade da lesão. Me lembrei de meu curso de primeiros socorros e aplicando as técnicas ali aprendidas dei um puxão em sua mão a fim de endireitar as juntas deslocadas. Claro que fiz isso de surpresa para que o pobre não retesasse os músculos e estragasse o movimento. A despeito de meus cuidados e de minha acurada precisão, os ossos do meu paciente se romperam em um estalo seguido de um guincho agudo, este feito com a boca. Disse prontamente que mantivesse a calma que tudo estava sob controle.

- Viu que estava mesmo quebrado o pulso? disse a ele, foi bom verificar isso logo antes que começasse a infeccionar.

- Como infeccionar se eu estava a caminho do hospital? o senhor me arrebentou o pulso, disse fazendo caretas.

- Não se preocupe com nada, eu mesmo o levo até lá.

- Acho melhor não.

- Eu insisto, já pude perceber que o senhor é um pouco desastrado e não deve arriscar.

Dito isso o ajudei a entrar em meu carro. Tive que usar uma certa força já que ele era um pouco pesadinho e continuava a espernear e a gritar a palavra não, repetidas vezes. Como tem gente caprichosa. Nesse momento o destino fez mais uma de suas brincadeirinhas fazendo com que o pescoço do senhor ficasse enganchado no cinto de segurança enquanto eu o puxava pelo outro lado. Como já vinha berrando, não me liguei no estiramento do mesmo e só fui perceber quando vi que a sua cabeça estava inclinada para o lado esquerdo de modo muito acentuado. Minhas aulas de psicologia me deram a calma necessária para enfrentar esses momentos assim como me deram também a sugestão do que fazer. Disse em modo bem calmo a ele:

- Esteja bem tranqüilo agora que ajeitamos também o pescoço. Quer ver que nem sentirá nada? Quando assustar terá já acabado.

- Acabado? Você vai acabar comigo seu doido! Tire as mãos de cima de mim. Polícia, bombeiros, socorro!

- Você está tendo uma crise de pânico, o teu superego está descontrolado e o id está querendo tomar as rédeas e não podemos esperar mais, devemos fazer uma terapia gestalt aplicada bem aqui no pescoço.

Enquanto dizia “pescoço” eu lhe apliquei uma chave de braço voando de repente sobre ele e dessa vez obtive um sucesso incontestável. O alívio foi tão grande que ele pegou no sono na hora. Aproveitei que ele repousava e parti como um raio rumo ao hospital. Encontrei a entrada das ambulâncias e me meti ali dentro com a mão na buzina. Vi quando vieram correndo quatro enfermeiros de lá de dentro. Como são eficientes, pensei. Um deles dizia palavrões em voz muito alta, talvez pela emoção do momento. Não conseguia ouvir bem por causa da buzina, mas quando ele me deu um soco no braço afastando-o do volante do carro, passei a ouvir melhor. Ele me pegou então pelo colarinho e me arrancou do carro pela janelinha. Eu lhe disse calmamente:

- Caro enfermeiro, o paciente é aquele senhor ali do lado.

Quando apontava para o meu socorrido, vi que já o levavam em uma maca. Como me sentia responsável já que havia ajudado a salvar a vida daquele cidadão, entrei junto com a equipe médica na sala do pronto socorro. Eram mesmo exagerados. Colocaram meu protegido sob oxigênio e já lhe engancharam uma agulha com o soro. Até ai tudo bem e eu estava ali quieto mas quando vi que iam aplicar choques elétricos no bom rapaz protestei vivamente já que sou absolutamente contra estes tratamentos radicais. Não existe nada que uma boa terapia e uma boa conversa não possam curar. Tentei argumentar com o doutor mas ele estava irredutível, com aqueles dois coisos nas mãos e um olhar raivoso em minha direção. Os médicos tradicionais não entendendo certas sutilezas da alma humana, querem já dar choques. Eu não podia permitir isso. Fazendo mais um vôo espetacular, joguei o doutor ao chão tentando neutralizá-lo e com isso convencê-lo a ser bom e razoável. No movimento, os eletrodos do desfribilador lhe deram uma descarga e infelizmente o bom doutor ficou reto e duro como uma estaca. Imediatamente os outros vieram lhe socorrer mas um enfermeiro grandão se aproveitando da confusão e demonstrando não saber se comportar de acordo com a situação me agarrou por trás. Já tinham me dito que enfermeiros são todos meio assim, como dizer, estranhos, mas esse veio não só confirmar isso mas também me surpreender com tamanha intimidade sem nem mesmo uma apresentação. Ele não me largava e não tive remédio que não lhe aplicar o golpe numero trinta e nove do manual de defesa pessoal da policia de Singapura: a famosa e prosaica calcanharzada no saco.

Saí dali porque o ambiente estava se degenerando. Além disso, pensava naquele momento em ir fazer uma reclamação à direção pois a quantidade de irregularidades e maus comportamentos que havia encontrado ali no pronto socorro me deixaram com o espírito de cidadania mais aguçado que nunca. Quando subia as escadas do saguão, vi com o canto dos olhos, vindo lá do fundo do corredor o enfermeiro grandão que cambaleando vinha tentando correr. Ele gritava muito confirmando o que eu já pensava a seu respeito: um inconveniente. O que era pior, me passou pela cabeça que aquele ser troglodítico talvez estivesse apaixonado por mim. Hoje em dia não se pode excluir nenhuma possibilidade. Diante disso, mesmo que não seja de meu feitio faze-lo, fi-lo, corri. Corri por dezenas de corredores e infelizmente, e aqui vai mais uma critica ao sistema sanitário, estes corredores estavam todos lotados de macas e cadeiras de rodas com doentes. Alguns não pude evitar de abalroar, fazer o que, o meu caso também era grave. Qualquer um que tivesse um armário humano daqueles te perseguindo cheio de amor e querendo te agarrar por trás, faria o que fiz, ou seja, correr. Tenho a dizer em minha defesa que o importante não são os números absolutos mas os relativos, quero dizer, acho que derrubei não mais que vinte por cento das macas que estavam pelo caminho e isso é um nada, convenhamos.

Quando cheguei ao sétimo andar, na maternidade, tive uma idéia genial, modéstia à parte. Pensei: vou me esconder. Melhor, vou me esconder disfarçado. Entrei em uma sala e vi que tinha roupa de bebê que não acabava mais. Depois de minutos tentando vestir aquilo percebi que eram peças muito pequenas. Entrei na sala ao lado e tinha uma infinidade de medicamentos e muitas roupas de enfermeiro. Minha mente não pára nunca. Vi então pendurado um jaleco e um crachá. Como a sala estava meio fria, acendi uma estufa velha que tinha um bilhete pendurado escrito “com defeito” a fim de me aquecer um pouco para poder me trocar. A estufa soltava umas faíscas mas funcionava bem demais. Botei as roupas verdes e saí pelo corredor carregando uma pilha de fraldas que me vinham até a testa. No fundo do corredor vi que tinha um elevador e pensei que seria o melhor meio de descer até a rua. Acho que pelo fato de enxergar pouco por causa das fraldas, nem me dei conta que fui parar no subsolo ao invés do almejado térreo. Foi aí que tive a surpresa do dia e que me deixou furioso. Encontrei-me diante do necrotério e vi estarrecido que estavam levando ali meu amigo socorrido em cima de uma maca. Sei o quanto os médicos lutam todo dia contra um sistema de saúde decadente mas o rapaz chegou no hospital com um simples pulso deslocado e agora estava ali mais frio que focinho de foca, algo de muito grave tinha acontecido, me lembrei do choque e me senti no dever de descobrir toda a verdade. Perguntei ao “colega” que levava a maca o que tinha acontecido e ele me disse que era mais uma vítima de uma briga de rua. Ora mas vejam só essa coisa, que absurdo, que invenção tola. Meu sangue ferveu arrebentando todas as válvulas reguladoras da paciência e peguei então o enfermeiro pelo colarinho e gritei:

- Vocês mataram meu amigo!

- Ele era seu amigo?

- Sim, inclusive fui eu que o trouxe aqui.

- O que? Você o trouxe aqui? É você que está todo mundo procurando. E dizendo isso me agarrou com força me dando um abraço muito apertado.

Mas esses enfermeiros são todos assim chegados? Puxa vida, a coisa é pior do que eu pensava. Consegui com certo esforço me livrar de mais esse assédio violento e buscava subir as escadas a fim de ganhar a rua. Mas o acaso de novo armou uma peça e me fez escorregar arrojando-me à frente e fazendo-me ir bater a cabeça em um enorme quadro de força que se deslocou com a pancada. Imediatamente a luz elétrica foi desligada. Aproveitei que estava escuro e entrei na sala à minha frente. Nesse momento de pânico ouvi um motor que começava a funcionar bem às minhas costas e a luz voltou. Me girei e vi essa máquina enorme mas o barulho era infernal e não me deixava raciocinar e eu precisava raciocinar. Apertei alguns botões e finalmente consegui desligá-la. A luz também se foi. Ouvi muitos gritos e com dificuldade fui me dirigindo a saída e se podia ver uma grande confusão no saguão. Todas pessoas sem controle emocional. Ouvia também muitas sirenes e foi nesse momento que me prenderam e me botaram aqui nesta cela.

Faço esse relato, como disse, para explicar tudo como se passou realmente e para provar que não tenho nada a ver com a morte daquele rapaz, muito menos com a das pessoas do corredor e dos que morreram nas salas de cirurgia por falta de energia e menos ainda, imagine, com o incêndio do sétimo e do oitavo andares, pobres bebês. Sei o quanto o mundo é injusto mas eu tenho esperança que uma luz iluminará o juiz. Digo isso porque quando tudo for esclarecido não pretenderei receber medalhas já que será revelado o que fiz e o que sou realmente, mas quero apenas ir para casa e continuar a ser o homem tranqüilo que sempre fui. Termino aqui meu relato pois já é hora do banho de sol. Vejo daqui o carcereiro que deu um mau jeito em um pulso. Vou lá ajudar.

quinta-feira, julho 07, 2005

Me respeite

Pode parecer muito estranho

Mas tudo no mundo é fruto de minha ilação

Na verdade só eu existo

E como é fértil essa minha imaginação

A guerra no norte

Todas formas de esporte

Os monstros de porte

O café que está forte

O doente a espera do corte

Inclusive voce,

Que pelo jeito tem sorte

Pois ainda não imaginei

Sua morte

segunda-feira, julho 04, 2005

Rivanas

-Já faz um bom tempo que não temos um terremoto aqui. Riva del Garda fica em cima de uma pequena mas importante falha geológica e de vez em quando as coisas se agitam, o que contribui para fazer a gente mudar de posição no sofá. Nos últimos anos já tivemos uns cinco mas o máximo que derrubou foi a ponta de uma torre de igreja em novembro passado. Que pecado.

- Foi presa ontem aqui na cidade uma quadrilha que comercializava objetos e móveis antigos roubados. Tinham “mercadoria” em “estoque” no valor de oito milhões de euros. O curioso é que ao contrário de falsários que fazem um envelhecimento em peças novas para vendê-las como antiguidade, estes só trabalhavam com peças autênticas dos séculos XVII e XVIII e para não dar bandeira, faziam a maquiagem nos móveis para dificultar o reconhecimento por parte dos legítimos proprietários. O cabeça da turma era um simples operário da prefeitura.

- Dia 23 Gilberto Gil se apresenta no Palameeting pelo Musica Riva Festival. Ele irá se apresentar acompanhado da orquestra do festival com regência de Isaac Karabtchevsky que é também o diretor artístico do evento já há algumas edições. Brasileiros pelo mundo.

- No verão o trânsito fica insuportável. Impossível estacionar no centro da cidade. O preço de se viver em uma cidade turística pequenininha as vezes é alto. Quando dá, vou de bicicleta. Nunca dá.

- Em resumo, dia 23 pergunto ao Gil sobre todo esse terremoto e como é esse lance da bicicleta que uma quadrilha vinha fazendo.

sábado, julho 02, 2005

Um mundo perfeito

Leio tantas receitas para o mundo escritas por gente sabida, que resolvi aderir à moda.

Pude sem muito esforço imaginar o mundo como seria se fosse perfeito. Eu que sou expressão de perfeição me perguntei sempre do porquê das coisas desiguais e imperfeitas. Seja lá quem fez o mundo, o fez de modo desleixado, pois tudo resultou desequilibrado.

No mundo perfeito a terra seria perfeitamente redonda e descreveria uma órbita circular perfeita ao redor de um sol sem manchas ou explosões, mas ativo e vigoroso como o mais puro dos astros, resplandecendo de emanações hidrogênicas em colisões subatômicas, também estas perfeitas e integrais. Esta órbita descreveria sua revolução em perfeitos cem dias e cada dia teria 10 horas, de modo que dispensaríamos os meses e as semanas e isso já seria um grande passo. As horas teriam 100 minutos e estes 100 segundos. Centesimal é perfeito. A conseqüência imediata deste movimento perfeito é a ausência de estações. Inútil este desequilíbrio. A temperatura na terra seria de 23 graus, de modo constante e evidentemente tudo seria regular e previsível. Nada de folhas pelo chão no outono, pois não existiria outono. Da mesma forma, sem verão, estaríamos livres dos congestionamentos para a praia e não existiriam nem o ventilador e nem o ambulante vendedor de bugigangas. Não teríamos também o biquíni, mas aí temos que considerar que algum preço temos que pagar para podermos viver no mundo perfeito. O inverno é inutilíssimo. Esqui, casacos pesados, árvore de natal, tudo bobagem. 23 graus e pronto. Taí, roupa é inútil. Pra que roupa com 23 graus? Talvez para esconder as vergonhas. Mas que vergonhas teremos no mundo perfeito? Roupas servem inclusive para definir socialmente, e então não teremos nem definições e nem classes sociais. Políticologia, sociologia, antropologia, psicologia, ciências sociais enfim, vão pra lata do lixo. Ótimo. Aliás, as ciências todas são inúteis, pois todos nasceremos sabendo tudo. Medicina não existirá em um mundo sem dores. Porém para não haver a dor do parto, talvez seja melhor não existir o parto, mas a esse ponto devo pensar um pouco mais avante, pois não gostaria de perder o sexo. Veremos como equacionar isso até porque sem parto, não nascemos. Interessante esse ponto. Bem, onde estava? Sim, não existirão nem ódios nem guerras, nem tampouco a fome. Comer evidentemente também será inútil. Bem, é um outro preço um pouco alto, mas para evitar que se produza muito em certos lugares enquanto que em outros morrem à mingua, no nosso mundo hipotético, viveríamos sem nunca comer. Nao se saberá o que é um risoto de funghi ou um prato de feijoada. Nada de camarões, ou queijos, nem vinho, nem uma simples pizza. Pensando bem, poderíamos incluir o comer e também o sexo, somente com função de geração de prazer. No mundo perfeito, o prazer seria disseminado como o ar puro que respiraremos. Isso mesmo, assim será e está decidido. Sendo assim, posto que estaremos todos nus e o prazer de viver finalmente imperará, o sexo será definitivamente livre. Vamos portanto manter o bom e sano sexo e o parto, que pra não ser doloroso basta acrescentar uma bela flexibilidade muscular e tudo resolvido. Perfeito. Mas o mundo é muito mais complexo que isso. Um turbilhão de idéias me assola. Religião? Inútil. Lancemos aos leões estes crentes, ao menos faz espetáculo. Política? Uma bela fogueira ritual, marcando o fim desse câncer que por milênios carcomeu as estruturas saudáveis do que poderia ser a sociedade perfeita. Pensando melhor, acho que estou fazendo fogueiras demais, acho que estou exagerando, estou mandando aos leões seres humanos como eu. O que aconteceu comigo? Como pude pensar uma barbaridade dessas? Acho que é porque não sou mesmo perfeito como pensei no início. Ufa, ainda bem.

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