quinta-feira, agosto 18, 2005

A curva

Era já uma semana que eu ouvia um ronco forte de um motor de moto, debaixo de minha janela mas não sabia de quem fosse. Pois hoje acabo de retornar do funeral de meu vizinho Renzo. Era dele a moto, comprada há exatos dez dias. Uma moto versão de estrada de um modelo de corrida, igualzinha à que usa Alex Barros, de edição limitada. Um monstro de potência. Talvez Renzo não tenha sabido dominar essa potência, ou talvez tenha sido traido pela falta de reflexos que os seus 57 anos inevitavelmente portavam. O fato é existe aquela curva na estrada e mesmo que em subida, a moto de Renzo deixou uma marca de freada de 50 metros antes de terminar contra um muro de pedra. Não saberia calcular em que velocidade viajava, mas seguramente era tanta. A moto era seu brinquedo desde muito tempo e a parte os últimos segundos, penso que tenha morrido fazendo algo muito prazeroso. Mas mesmo assim, parece que não é justo. Parece que não merecemos acabar, ainda que saibamos que é inevitável. Porque eu vi a dor no rosto da mãe do morto e não me pareceu mesmo justo. Olhei nos olhos da sua mulher e dos filhos e não deu para entender nem aceitar. Me coloquei no lugar de cada um desses personagens, inclusive naquele dentro da caixa e não me pareceu justo mesmo. Mas desde quando a vida foi justa, ou equilibrada, ou coerente? Só pude pensar que nada é mais importante que estar vivo e estar com quem se ama. Quantas asneiras serei obrigado a assistir ou ler ainda, obra de gente que não entendeu nada disso e talvez nunca venha a saber. Quanta energia se gasta com as coisas mais banais e fúteis desse mundo e que são tratadas como fundamentais ou importantíssimas. Quantos fazem pose de leão enquanto sei que são cordeiros. Pensava nisso quando ao final da cerimônia, a filha mais velha, a que tinha casamento marcado para daqui a um mês, fez uma ultima homenagem ao pai, lendo um texto. O que me marcou foi que dizia que nos últimos tempos, seu pai deu para escrever frases e queria quem sabe escrever um livro de máximas. Uma delas, a que a filha leu, dizia: “Se quisermos mesmo estar unidos, devemos aprender a dividir tudo”. Depois disso a filha chorou e na verdade, acho que todos ali também. Uma moto, uma curva, levaram esse homem que tinha ainda planos, talvez já pensando na aposentadoria que viria daqui a alguns meses. Não pude deixar de pensar que um dia estarei também eu ali deitado e algo me disse que hoje devo viver essa dor, esperando que o sol volte de novo amanhã. Horas depois reencontro a agora viuva aqui no condomínio e nos abraçamos de novo. Ela ia acompanhar o corpo até o crematório. Eu não sabia o que dizer e ela indicando meus filhos me disse: Se quisermos mesmo estar unidos, devemos aprender a dividir tudo. Basta por hoje.

20 Comments:

Blogger Preta said...

Muitas vezes nos preocupamos com coisas tão banais, o negocio é tentar viver bem cada minuto da nossa vida, sem mesquinharias, sendo compreensivos e gentis com os nossos semelhantes. Vou dormir pensando nesta frase:Se quisermos mesmo estar unidos, devemos aprender a dividir tudo.

10:44 PM  
Anonymous Viva said...

Flavio, obrigada por dividir seus sentimentos conosco.
Faz 15 dias perdi um grande amigo e revivi todo o luto pela perda do meu marido. Essas sacudidas que a gente leva nos fazem reavaliar nossa postura diante da vida. Seria tão bom se não precisássemos passar por isto...

12:48 AM  
Anonymous Dudu.exe said...

A falta de bom senso e sempre muito perigosa.. e uma pena que seu vizinho/amigo sou teve o bom senso de balanciar os pros e contras de uma maquina destas..

mais assim é a vida, cheia de erros e alguns acertos..

2:53 AM  
Blogger lima said...

Estou sempre dizendo a Deus: "Não entendo teus desígnios,nunca entenderei". Vi-me impotente diante da morte quando perdi meu marido há sete anos e agora, recentemente, meu sobrinho, aos 29 anos de idade. é uma dor inexplicável. E vc disse bem: por que preocupar-se com coisas fúteis?
Basta por hoje...
abraço, garoto

5:08 AM  
Anonymous Patrícia Köhler said...

Puxa, Flávio, lamento muito pela perda do seu amigo.
Que bom você poder extravasar estas emoções aqui e dividir conosco. Suas ponderações estão muito boas e nos levam a muitas reflexões. Espero que todos superem isso, mesmo que demore um bom tempo (o tempo necessário nestes momentos, que deve ser alheio aos ponteiros dos relógios...)

9:38 AM  
Anonymous gugala said...

dividir para multliplicar. Lei básica das células , inclusive.Abçs

4:18 PM  
Blogger Sheila Leirner said...

O sol volta de novo amanhã, sim :) Beijo Flavio

4:44 PM  
Blogger herbert farias said...

"Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vida vã; porque este é o teu quinhão nesta vida, e do teu trabalho, que tu fazes debaixo do sol."
Livro de Eclesiastes, 9;9

5:11 PM  
Blogger Allan Robert P. J. said...

Dividindo e unidos. Conscientes das diversas curvas e esperando o sol de amanhã. Até que a nossa curva apareça-nos.
Ciao

5:22 PM  
Blogger Lena said...

Menino,
Realmente a morte um dia chegará a todos nós. Mas vc ainda é mto novo para pensar nisso. Ainda terá de pagar micos como naquele encontro de blogueiros...rsrs
Lamento pela perda do seu amigo, viu? Fique bem e siga seu coração. Se ele diz para viver essa dor, então viva. Bjo!

10:21 PM  
Blogger Leila Couceiro said...

Flavio, eu acho que gosto de me ocupar com besteiras porque me distraem do fato que a vida é absurda e injusta. As besteiras atualmente é que me fazem feliz.

Bjs,

10:31 PM  
Anonymous Afonso said...

É vero, quanta energia se gasta! Já escrevi que é somente quando sentimos verdadeiramente a finitude da vida, passamos a não dar mais valor a bobagens e a estar mais próximos das pessoas que realmente nos importam. É uma pena essa história, mas certamente ele cumpriu seu desígnio. abs

2:58 AM  
Anonymous pecus said...

Bonito panegírico para o Renzo. Morreu se divertindo.

9:10 AM  
Blogger Manoel Carlos said...

Tocante.

Da tristeza ao riso: o encontro de blogueiros da postagem anterior, aliás, era pra rir?

1:49 PM  
Blogger Dudi said...

Alguém deveria ter dito Renzo....Piano!

6:11 PM  
Blogger Maria Odila said...

Eu vivo dizendo isso as minhas filhas.. as dores tem que ser vividas.. há 3 anos e las perderam o pai e eu o marido. Viver .. é saber aproveitar os sentimentos, todos eles.
Beijos
Odila

11:57 PM  
Blogger Laura said...

Flávio, é verdade. Foi bom escrever sobre ele, foi uma homenagem e te fará bem. bj laura

12:05 AM  
Blogger Fernando said...

Oi, Flavio
Já fui motociclista, tive uma Honda 500, quatro cilindros, ronco lindo, bela arrancada, mas sempre fui um cagão. Não era chegado a grandes velocidades, curvas deitadas, escapamento arranhando no asfalto e quetais. Um dia, cai, fui ao chão. Não me machuquei, mas fiquei temeroso. Desisti da moto.
Com pena, muita pena, pois é uma condução maravilhosa e pilota-la, um imenso prazer.
Até hoje sinto saudades dela.De longe!
Abração
fernando cals

3:23 AM  
Blogger Daniela said...

Sem palavras...

8:29 PM  
Anonymous Pess said...

Que post triste no dia do meu aniversário... Bom, esse dia também não foi bom para a ex-pessimista...

Beijos

Pess

2:34 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home

More blogs about lixo tipo especial.