terça-feira, agosto 02, 2005

E' Lama

Há mais ou menos quatro anos eu estava em uma rua do centro de Trento. Havia apenas estacionado o carro e me dirigia meio distraído para meu compromisso andando em passo lento já que havia ainda alguns minutos. Quando viro a esquina de via Alfieri que vai dar em via Roma, vejo um bando de hooligans estranhos com roupas vermelho/amarelas. Pensei que fosse uma torcida de algum desses times de futebol e segui com a cabeça meio baixa para não me comprometer cruzando olhares com esses seres esquisitos mas também sem querer demonstrar minha indiferença a qualquer coisa que se refira a futebol. Mas quando estava a 10 metros dessa turma de uns onze, doze carecas, pude perceber melhor se tratar do Dalai Lama e sua troupe. Ele passou por mim mas não tinha aquele sorrisinho legal de sempre. Me lembrei que por aqueles dias ele estaria mesmo na cidade e depois me arrependi de não ter ido bater um papo com ele. Pensando melhor ainda, acho que os outros dez carecas iriam me encher de porrada se eu me dirigisse a ele, mas isso não tenho certeza, mas que era uma segurança meio disfarçada, isso era.

Pois o homem voltou ontem à Trento, vai ver que gostou do clima e da comida. Fez à tarde uma conferência concorridíssima. Reclamou do calor e disse que queria ter ficado no hotel que tem ar condicionado, se coçava a todo instante e assoou o nariz na frente do microfone gerando um rumor enorme. Mas fez tudo isso com graça e com um sorriso maroto que era desarmante. Grande figura esse Dalai, muito bem humorado. Quando recebeu chocolatinhos de presente, se levantou e os distribuiu aos circunstantes. Fez estes gestos com naturalidade, como se estivesse na sala de casa sua e não em um palco diante de duas mil pessoas, entre as quais as mais altas autoridades da região. Deve ser muito legal ser uma santidade e fazer o que der na telha.

As ditas autoridades, a começar do presidente da província que curiosamente se chama Dellai, em um quase parentesco fonético com o homenageado, salientaram a total solidariedade para com o povo tibetano em confronto à politica imperialista e intervencionista chinesa. Não só isso, ofereceram também apoio político, técnico e material aos tibetanos no exílio, para que se organizem e resistam na luta. Ofereceram além disso e principalmente a história dessa região, também desde sempre motivo de conflitos e disputas. Hoje, o Trentino vive sob um status de província autônoma, exatamente porque ao fim da primeira guerra foi esse o mecanismo político-institucional possível em um território castigado e com tantos proprietários em potencial. Este pedaço do planeta aqui já foi do império romano, depois passou em mãos dos bárbaros vários, uma parte foi da Repubblica de Venezia, depois passou ao poder da igreja católica com seus príncipes-bispos, depois à Napoleão que deixou sua marca, em seguida ao império Austro-húngaro e depois somente em 1918, à Italia. A grande resistência durante todos estes períodos foi feita com o software, ou seja, a cultura, nas manifestações coletivas de integração e reconhecimento e que forjaram um povo à prova de conquistadores. Ou quase, já que hoje a conquista se faz também com o software e tudo é meio uma salada. Bem, este é já um outro assunto. Porém uma prova da possibilidade de convivência e integração, veio já no inicio do incontro com a saudação ao homenageado em três linguas, o que provocou um comentário da parte do Lama: Fui saudado em três linguas, entendo que sendo assim, neste lugar as coisas aconteçam muito lentamente. Foi o primeiro grande aplauso da platéia.

Parece que o Dalai Lama se interessou muito nesse estatuto de província autônoma e esta, segundo ele, seria uma boa saída para o Tibet. No início ele falou muito de filosofia e religião e salientou que nós ocidentais buscamos e muitas vezes conquistamos muitos bens materiais mas no fundo somos infelizes pois nossa busca se limita a isso. Não fazemos uma conquista interior que nos permita ser o que somos e com isso alcançar um estado de felicidade. Disse que o amor é ou deveria ser a base de todas as relações. Se algo nos agrada, amamos esse algo, mas se algo nos traz desconforto, tendemos a odiar isso e este é um erro, segundo o carequinha. Devemos amar a possibilidade de transformar a má situação em boa situação e seguir sempre em modo positivo. Disse isso e muito mais durante uma hora para somente nos últimos cinco minutos falar de política e dizer, muito coerentemente, que torce pela China. Quer que a China cumpra seu destino como império e potência econômica. Mas para que seja completa a glória Chinesa, ela deve fazer o gesto forte e demonstrar que é um país maduro e que busca a paz, liberando o Tibet. Ou seja, se a China quer ser a potência que se prefigura, deve querer também o respeito e o consenso das nações. O Tibet autônomo é a sua melhor chance de conquistar tudo isso.

O seu chamado mais enfático era sobre algo que parece a cada dia rarear: ética. A ética nas relações deve buscar uma ligação entre seres humanos, sem hegemonias ou busca de poder. A ética pressupõe responsabilidade e esta é mesmo mercadoria em falta no mercado.

O lider budista, chamado “Oceano de sabedoria” deixou o quentíssimo auditório Santa Chiara, sob uma chuva de aplausos. Uma standing ovation. Apesar de seu discurso incluir a noção que a renúncia ao dinheiro é uma das chaves para a felicidade, a província de Trento destinou trezentos mil euros para ajuda ao Tibet em 2006. Claro que o “Oceano” disse também que a riqueza bem distribuída não chega a ser um problema. Além disso trezentinhos são bem pouca coisa para se falar em riqueza mas é sempre uma ajuda e demonstra o quanto a região se interessa pelo problema. No final disse que o egoísmo e a ganância é que fazem a vida na terra um inferno para muitos. Ao contrário, o altruismo transforma a raiva em harmonia, a violência em não-violência, a guerra em paz. Comecei a gostar desse cara.

Meu relato è todo feito com minhas palavras e citações à memória, não sou jornalista e se percebe. Quis apenas dar uma idéia do que se passou ontem por aqui. Foi muito interessante. Da próxima vez que eu cruzar com o Dalai Lama pela rua, vou falar com ele. No mínimo um chocolatinho acho que ganho dele.

22 Comments:

Anonymous Mônica said...

Uau, hein? E, puxa, queria ter visto/ouvido esse "hooligan" heterodoxo. Preciso aprender um pouco desse jeito oceânico de ser para encerrar minha longa temporada de murros em ponta de faca.

Ah, o jeito como você começou o texto foi, pra ser óbvia, a sua cara. O texsto todo, aliás. E eu gosto muito dessa "sua cara".

Bom, tenho que colocar a leitura de um dos meus blogs favoritos em dia.

10:56 PM  
Blogger Laura said...

Flávio, bom ouvir vc falar assim do Dalai porque vc é bastante critico e gostou dele, eu gosto de tudo que leio dele, mas nunca li um livro inteiro, sempre textos curtos. Uma vez eu vi uma longa entrevista dele e fiquei encantada com a inteligência, simplicidade e simpatia, deve ser um cara especial mesmo.

2:00 AM  
Anonymous D. Afonso XX, o Chato said...

Leia A Arte da Felicidade, vais gostar. abs

4:07 AM  
Anonymous Yvonne said...

Puxa Flavio, estou morta de inveja de você. Que experiêncial legal a sua. Sou apaixonada pelo Dalai Lama e seus livros. É muito chato esse domínio que os chineses julgam ter sobre os tibetanos, um povo pacífico que uma cultura milenar linda e impressionante e que eu tenho medo que se perca. Foi bem interessante. Beijocas

11:14 AM  
Anonymous Gejfin said...

Muito bom texto, chê!

E é bom justamente porque não é jornalismo. É a tua percepção sem tentar não ser (o que é, em tese, impossível na verdade) subjetivo. Viva os blogs! :)

Como diz o Tiagón, "a vida não é um lead".

Eu nunca li nada dele, mas já comprei um livro para dar de presente ao meu pai há alguns anos.

Abração!

4:49 PM  
Blogger Laura said...

Flávio gostei do se comentário para o Jorge, eu havia pensado numa resposta mas deixei pra lá. Tks. laura

7:02 PM  
Anonymous Patrícia Köhler said...

Belo relato, Flavio! Eu tenho uma admiração enorme pelo Dalai Lama e pela causa tibetana. E chamar o grupo que o acompanhava de "Hooligans" foi engraçadíssimo!
Adoro seu jeito leve e descontraído de narrar os acontecimentos. Não se preocupe em querer fazer "relatos jornalísticos", que muitas vezes são muito mais pobres e desprovidos de emoção.
Um beijo.

7:33 PM  
Blogger Zootv said...

Bravo, gostei do texto!
Quem nao gostava de o konheçer..

12:55 AM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Peraí, né, Flavinho? você sabe que arrasa!!! o texto tá bom que tpa danado e eu sou uma apaixonada pelo carequinha, ele tem me ensinado muito... se eu conseguir aprender um centésimo, vou ser mais feliz ainda...

Beijos!

2:24 AM  
Blogger Alline said...

Que bacana ter ouvido o Dalai Lama. Gosto mto do carequinha...E realmente deve ser ótimo ser " a Sua Santidade o Dalai Lama" e dizer e fazer o que quiser.
Adorei seu texto.
Um beijo

5:18 AM  
Anonymous Anônimo said...

Flavio, amanhã você será "homenageado" no Nós Por Nós. Não se esqueça de comparecer, rsrsrs. Beijocas

1:30 PM  
Anonymous Yvonne said...

Flávio, a "anonymou" sou eu. Beijocas

1:31 PM  
Anonymous pecus said...

Ele não tinha desistido de libertar o Tibet?

3:45 PM  
Anonymous gugala said...

naturalidade, bom humor, otimismo, ética, sabedoria, felicidade, altruismo, harmonia e mil outras ondas bem que podiam vir como um Tsumani cheio de Dalai Lamas surfistas neste verdadeiro mar de merdas aqui.

6:41 PM  
Blogger claudio boczon said...

é gugala, cada lugar tem o Lama ou a lama que merece, ainda bem que o Dalai é globalizado, e o Decai um pouco mais regionalizado...

7:25 PM  
Anonymous Mônica said...

Da próxima vez que encontrar, chame pelo nome verdadeiro: Lhamo Thondup, eu garanto que vc ganha um chocolatinho...
Muito legal.
Beijão

12:33 AM  
Anonymous Viva said...

Flávio, foi o melhor texto que já li sobre o Dalai Lama. Porque aqueles pps com as suas (dele) supostas recomendações, ninguém mais aguenta!

5:03 AM  
Blogger Dudi said...

OMMMMMMM!

6:07 AM  
Anonymous tesco said...

Vocês aí com o lama e nós aqui com a lama. Beleza, todos têm!
Muito legal o texto, num artigo de jornal ou revista, não pegamos essa intimidade com a pessoa enfocada.
Abraço.

2:35 PM  
Anonymous Gloschkaa said...

Tu cruzaste com o Dalai Lama duas vezes?
Sério? Na rua?
Cruzar, em alguns lugares, é sinônimode "séquiço". Este Dalai Lama nunca me enganou... e nem você!
Lixo Tipo Especial = Perigoso/Tóxico/Patogênico na maioria dos países da Zoorópia!

1:30 AM  
Anonymous nora borges said...

eu li a Arte da Felicidade logo depois de sair do "surto depressivo" que você já leu. O livro é muito interessante e gosto muito das idéias do budismo tibetano.
Adorei o post.
Se eu encontrasse com ele acho que saia atrás... fosse onde fosse!

6:41 PM  
Anonymous Grace said...

Obrigada, pelo texto!
É tão reconfortante, saber que existe um tipo assim, como o DL, no mundo. Aquece o coração.

Esperança maldita; nunca morre.

7:31 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home

More blogs about lixo tipo especial.