E' Lama
Há mais ou menos quatro anos eu estava em uma rua do centro de Trento. Havia apenas estacionado o carro e me dirigia meio distraído para meu compromisso andando em passo lento já que havia ainda alguns minutos. Quando viro a esquina de via Alfieri que vai dar
Pois o homem voltou ontem à Trento, vai ver que gostou do clima e da comida. Fez à tarde uma conferência concorridíssima. Reclamou do calor e disse que queria ter ficado no hotel que tem ar condicionado, se coçava a todo instante e assoou o nariz na frente do microfone gerando um rumor enorme. Mas fez tudo isso com graça e com um sorriso maroto que era desarmante. Grande figura esse Dalai, muito bem humorado. Quando recebeu chocolatinhos de presente, se levantou e os distribuiu aos circunstantes. Fez estes gestos com naturalidade, como se estivesse na sala de casa sua e não em um palco diante de duas mil pessoas, entre as quais as mais altas autoridades da região. Deve ser muito legal ser uma santidade e fazer o que der na telha.
As ditas autoridades, a começar do presidente da província que curiosamente se chama Dellai, em um quase parentesco fonético com o homenageado, salientaram a total solidariedade para com o povo tibetano em confronto à politica imperialista e intervencionista chinesa. Não só isso, ofereceram também apoio político, técnico e material aos tibetanos no exílio, para que se organizem e resistam na luta. Ofereceram além disso e principalmente a história dessa região, também desde sempre motivo de conflitos e disputas. Hoje, o Trentino vive sob um status de província autônoma, exatamente porque ao fim da primeira guerra foi esse o mecanismo político-institucional possível em um território castigado e com tantos proprietários
Parece que o Dalai Lama se interessou muito nesse estatuto de província autônoma e esta, segundo ele, seria uma boa saída para o Tibet. No início ele falou muito de filosofia e religião e salientou que nós ocidentais buscamos e muitas vezes conquistamos muitos bens materiais mas no fundo somos infelizes pois nossa busca se limita a isso. Não fazemos uma conquista interior que nos permita ser o que somos e com isso alcançar um estado de felicidade. Disse que o amor é ou deveria ser a base de todas as relações. Se algo nos agrada, amamos esse algo, mas se algo nos traz desconforto, tendemos a odiar isso e este é um erro, segundo o carequinha. Devemos amar a possibilidade de transformar a má situação em boa situação e seguir sempre em modo positivo. Disse isso e muito mais durante uma hora para somente nos últimos cinco minutos falar de política e dizer, muito coerentemente, que torce pela China. Quer que a China cumpra seu destino como império e potência econômica. Mas para que seja completa a glória Chinesa, ela deve fazer o gesto forte e demonstrar que é um país maduro e que busca a paz, liberando o Tibet. Ou seja, se a China quer ser a potência que se prefigura, deve querer também o respeito e o consenso das nações. O Tibet autônomo é a sua melhor chance de conquistar tudo isso.
O seu chamado mais enfático era sobre algo que parece a cada dia rarear: ética. A ética nas relações deve buscar uma ligação entre seres humanos, sem hegemonias ou busca de poder. A ética pressupõe responsabilidade e esta é mesmo mercadoria em falta no mercado.
O lider budista, chamado “Oceano de sabedoria” deixou o quentíssimo auditório Santa Chiara, sob uma chuva de aplausos. Uma standing ovation. Apesar de seu discurso incluir a noção que a renúncia ao dinheiro é uma das chaves para a felicidade, a província de Trento destinou trezentos mil euros para ajuda ao Tibet em 2006. Claro que o “Oceano” disse também que a riqueza bem distribuída não chega a ser um problema. Além disso trezentinhos são bem pouca coisa para se falar em riqueza mas é sempre uma ajuda e demonstra o quanto a região se interessa pelo problema. No final disse que o egoísmo e a ganância é que fazem a vida na terra um inferno para muitos. Ao contrário, o altruismo transforma a raiva em harmonia, a violência em não-violência, a guerra
Meu relato è todo feito com minhas palavras e citações à memória, não sou jornalista e se percebe. Quis apenas dar uma idéia do que se passou ontem por aqui. Foi muito interessante. Da próxima vez que eu cruzar com o Dalai Lama pela rua, vou falar com ele. No mínimo um chocolatinho acho que ganho dele.


22 Comments:
Uau, hein? E, puxa, queria ter visto/ouvido esse "hooligan" heterodoxo. Preciso aprender um pouco desse jeito oceânico de ser para encerrar minha longa temporada de murros em ponta de faca.
Ah, o jeito como você começou o texto foi, pra ser óbvia, a sua cara. O texsto todo, aliás. E eu gosto muito dessa "sua cara".
Bom, tenho que colocar a leitura de um dos meus blogs favoritos em dia.
Flávio, bom ouvir vc falar assim do Dalai porque vc é bastante critico e gostou dele, eu gosto de tudo que leio dele, mas nunca li um livro inteiro, sempre textos curtos. Uma vez eu vi uma longa entrevista dele e fiquei encantada com a inteligência, simplicidade e simpatia, deve ser um cara especial mesmo.
Leia A Arte da Felicidade, vais gostar. abs
Puxa Flavio, estou morta de inveja de você. Que experiêncial legal a sua. Sou apaixonada pelo Dalai Lama e seus livros. É muito chato esse domínio que os chineses julgam ter sobre os tibetanos, um povo pacífico que uma cultura milenar linda e impressionante e que eu tenho medo que se perca. Foi bem interessante. Beijocas
Muito bom texto, chê!
E é bom justamente porque não é jornalismo. É a tua percepção sem tentar não ser (o que é, em tese, impossível na verdade) subjetivo. Viva os blogs! :)
Como diz o Tiagón, "a vida não é um lead".
Eu nunca li nada dele, mas já comprei um livro para dar de presente ao meu pai há alguns anos.
Abração!
Flávio gostei do se comentário para o Jorge, eu havia pensado numa resposta mas deixei pra lá. Tks. laura
Belo relato, Flavio! Eu tenho uma admiração enorme pelo Dalai Lama e pela causa tibetana. E chamar o grupo que o acompanhava de "Hooligans" foi engraçadíssimo!
Adoro seu jeito leve e descontraído de narrar os acontecimentos. Não se preocupe em querer fazer "relatos jornalísticos", que muitas vezes são muito mais pobres e desprovidos de emoção.
Um beijo.
Bravo, gostei do texto!
Quem nao gostava de o konheçer..
Peraí, né, Flavinho? você sabe que arrasa!!! o texto tá bom que tpa danado e eu sou uma apaixonada pelo carequinha, ele tem me ensinado muito... se eu conseguir aprender um centésimo, vou ser mais feliz ainda...
Beijos!
Que bacana ter ouvido o Dalai Lama. Gosto mto do carequinha...E realmente deve ser ótimo ser " a Sua Santidade o Dalai Lama" e dizer e fazer o que quiser.
Adorei seu texto.
Um beijo
Flavio, amanhã você será "homenageado" no Nós Por Nós. Não se esqueça de comparecer, rsrsrs. Beijocas
Flávio, a "anonymou" sou eu. Beijocas
Ele não tinha desistido de libertar o Tibet?
naturalidade, bom humor, otimismo, ética, sabedoria, felicidade, altruismo, harmonia e mil outras ondas bem que podiam vir como um Tsumani cheio de Dalai Lamas surfistas neste verdadeiro mar de merdas aqui.
é gugala, cada lugar tem o Lama ou a lama que merece, ainda bem que o Dalai é globalizado, e o Decai um pouco mais regionalizado...
Da próxima vez que encontrar, chame pelo nome verdadeiro: Lhamo Thondup, eu garanto que vc ganha um chocolatinho...
Muito legal.
Beijão
Flávio, foi o melhor texto que já li sobre o Dalai Lama. Porque aqueles pps com as suas (dele) supostas recomendações, ninguém mais aguenta!
OMMMMMMM!
Vocês aí com o lama e nós aqui com a lama. Beleza, todos têm!
Muito legal o texto, num artigo de jornal ou revista, não pegamos essa intimidade com a pessoa enfocada.
Abraço.
Tu cruzaste com o Dalai Lama duas vezes?
Sério? Na rua?
Cruzar, em alguns lugares, é sinônimode "séquiço". Este Dalai Lama nunca me enganou... e nem você!
Lixo Tipo Especial = Perigoso/Tóxico/Patogênico na maioria dos países da Zoorópia!
eu li a Arte da Felicidade logo depois de sair do "surto depressivo" que você já leu. O livro é muito interessante e gosto muito das idéias do budismo tibetano.
Adorei o post.
Se eu encontrasse com ele acho que saia atrás... fosse onde fosse!
Obrigada, pelo texto!
É tão reconfortante, saber que existe um tipo assim, como o DL, no mundo. Aquece o coração.
Esperança maldita; nunca morre.
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