quarta-feira, setembro 28, 2005

Aborto


No dia de hoje acontece uma nova blogagem da cadeia mundial unificada de blogs simpáticos e felizes chamada Nós na rede e que estão tratando do tema aborto. O objetivo é chamar a atenção ao fato que existe um projeto de lei sobre a matéria e que está parado no congresso. O tema é polêmico e não deveria ser, porque a questão não é moral ou religiosa mas sim de direitos civis. Não vou dizer aqui minha opinião sobre o aborto até porque isso é pouco importante. O que importa é haver o direito de escolha. Ou melhor, ter direito à assistência e à orientação já que muitas vezes não se tem muita possibilidade de escolha. A interrupção de gravidez se faz e de modo ilegal, até mesmo por quem vai à missa. Mesmo porque esse é um assunto que muda muito de figura quando se tem um exame positivo nas mãos. Portanto se trata somente de regulamentar a prática. Não se trata de pedir a ninguém de renunciar a seus princípios mas de ampliar o estado de direito.

O estado brasileiro é laico, ou seja, desvinculado da igreja ou de qualquer religião. Portanto em um estado laico o que conta, mais do que dogmas ou crenças, é o direito civil. O estado laico tem como farol a ciência, que dá os subsídios para a confecção de leis que visam ampliar o espaço democrático e os direitos individuais. No caso do aborto, a ciência diz que até determinado tempo de gestação, o embrião não pode ser considerado um ser humano, não diferindo de qualquer ser vivo animal, seja uma rã ou um jacaré. Não tem consciência, dor nem muito menos sentimentos. Além disso, a possibilidade que uma gravidez termine naturalmente em aborto é alta. Em geral de 15 a 20 por cento das gestações terminam de modo espontâneo, chegando a 40% nas mulheres de mais de 40 anos. Muitas vezes a mulher nem fica sabendo que abortou. As causas da interrupção espontânea são várias e muitas pessoas que são contra a discriminalização já abortaram e ignoram isso. Não vamos criminalizar a natureza por isso.

Aqui entra o problema que na verdade é pura polêmica. Se a igreja considera um ser humano o embrião, mesmo que sejam 32 células, menos que uma unha ou um fio de cabelo, se cria uma situação de paradoxo tremenda e muita gente sofre por conta de um dogma. A origem disso é o beco sem saída que a estratégia de marketing da igreja criou. Como forma de garantir a filiação de novos católicos, a igreja estabeleceu a regra de se batizar ainda bebês, os novos adeptos. Criou-se todo um mito de salvação da alma para que a prática tivesse algum significado. Acontece que levando a extremos, até os fetos tem alma e no caso por exemplo de risco de vida para a mãe, a igreja prefere salvar o feto e deixa-la morrer, pois esta tem já sua alma salva e o feto não. Enquanto escrevo, penso no absurdo que isso representa mas quem disse isso ainda recentemente foi o falecido João Paulo II na sua encíclica Evangelium Vitae.

Conheço milhares de pessoas que se escandalizam com a retirada de um óvulo fecundado de um útero e passam sem olhar dos lados por crianças abandonadas que reviram lixo para comer, sem nem ao menos prestar atenção a isso já que são coisas incorporadas à paisagem. Estranho isso do dogma fazer enxergar aquilo que convém. Muitas vezes não o que convém à pessoa mas a quem criou e difundiu o dogma. O mais interessante é que se fôssemos seguir todos os dogmas que estão na bíblia por exemplo, teríamos que rever todo o mundo civilizado e renunciar a 90 por cento das coisas que fazemos. Por sorte, a maioria não mais convém a ninguém. No capitulo 38 do Gênesis, quando se conta a historia de Onã que derramava o sêmen por terra, talvez alguém poderá deduzir que o sêmen contém células vivas e portanto deveríamos criminalizar também a masturbação. Nesse passo se chega velozmente ao autoritarismo e a ditadura para não falar em loucura coletiva.

Em tempos remotos e em lugares diversos do planeta já foi ou é proibido e passível a todo tipo de sanções e penas, fumar, tomar café, beber cerveja ou outros alcoólicos, olhar o corpo de uma mulher, comer tomates e pimenta e inúmeras outras coisas que para nós ocidentais do século XXI parecem banais e fazem parte do dia a dia. Nós temos o direito por exemplo de tragar fumaça até ficarmos impotente primeiro e cancerosos por último e isso parece que não causa tanto espanto quanto extrair um embrião do útero de uma mulher. Podemos tomar litros de cachaça todos os dias e arruinar não só a nós mesmos mas também nossa inteira família, mas optar por não ter um filho parece ser muito pior do ponto de vista moral. Se temos o direito absurdo de estragar a própria saúde, fica por outro lado claro que as conseqüências desses atos não fazem parte dos nossos planos iniciais que objetivavam somente prazer e inserção social. Ninguém escolhe fumar porque quer ter um câncer. Simplesmente a vida o levou a fumar e nem todos tem a oportunidade de deixar o vício. Isso não o faz criminoso. Quem bebe, não pode ser considerado anormal ou vagabundo como querem alguns, mas simplesmente um que tem uma doença e deve ser tratado. No entanto, não obstante a doença alcoolismo seja muito difusa, os bares existem aos montes e ninguém pensa em torná-los proibidos outra vez. Porque quem quer entrar no bar, entra com os próprios pés. É uma escolha. Eu vou a bares e já faz tempo que bebo muito menos do que fazia, além de ter parado de fumar. São escolhas que em mundo menos livre eu não poderia fazer. O que quero dizer é que conheço muita gente que nunca bebeu ou fumou e nem mesmo comeu carne, por questões de princípios, alguns até de caráter religioso e ninguém no mundo pode reprová-los por isso.

A escolha do aborto porém, muitas vezes é quase obrigada. Como disse, não se tem muitas saídas para uma gravidez indesejada. E as conseqüências para esse ato onde o objetivo não é o prazer nem a inserção social, são dramáticas. A mulher sofre muito em todo o processo, porém o alívio e a solução de um problema, se conta com assistência, a ajuda de especialistas e amparo da lei, fazem a compensação. O que não podemos mais é tratar as mulheres que abortam, como criminosas.

Aqui na Itália existe desde 1978 a lei 194 que regula a questão. Quem lê italiano pode consultar aqui o texto completo. Até noventa dias de gravidez, a mulher pode interromper a mesma quando, depois de passar por uma serie de exames e entrevistas, “acuse circunstâncias pelas quais o prosseguimento da gravidez, o parto ou a maternidade comportariam um sério perigo a sua saúde física, psíquica, em relação ao seu estado de saúde ou às suas condições econômicas, ou sociais ou familiares, ou a circunstâncias na qual se deu a concepção, ou a previsões de anomalias ou malformações do concebido”. Depois de noventa dias, somente para casos de grave risco a mãe e/ou malformações acertadas. A mulher que decide fazer um aborto a partir de uma ou mais causas elencadas acima, recebe uma enorme assistência seja clínica que psicológica e passa pela avaliação de muitos profissionais que inclusive em um primeiro momento tem o dever de fazer todo o possível para evitar um aborto leviano. Essa em resumo é a lei que está em vigor e funciona muito bem. Porém não está escrito em nenhuma parte dessa lei que a mulher que se enquadre nesses ítens, é obrigada a abortar. Se assim fosse, eu estaria lutando por modificar a lei no sentido de dar o direito de não abortar a quem não quisesse fazê-lo. Tudo reside na questão do direito.

No mundo de hoje é difícil se falar de democracia já que tem tão pouca para se usar como modelo. Mas a base da dita cuja é o respeito às diferenças e o direito de escolha. Posso achar estranho que as mulheres muçulmanas usem o véu, ainda que casadas e mães felizes e achar normalíssimo que freiras usem o mesmo véu, ainda que solteiras e tristemente estéreis, mas mesmo assim devo respeitar todos igualmente. Se vejo o mundo a partir do meu ângulo, e não poderia ser mesmo diferente, não quer dizer que quem está de outro lado não tenha os mesmos e sagrados direitos que eu tenho.

Aborto é algo terrível e comporta uma decisão importantíssima. Ninguém o faz como meio de controle dos nascimentos pois é uma medida de exceção. Aprovada a discriminalização do aborto, a luta deve ser no sentido de aumentar a consciência e assistência a uma maternidade responsável. Difundir métodos anticoncepcionais e alargar o acesso a assistência médica.

Finalizando, a criminalização do aborto não impede sua prática, somente a torna mais perigosa, cara e sujeita a todo tipo de aventureirismo; considera a vida de uma mulher menos importante que a de um ovo fecundado; obriga familias inteiras a empenho de anos no tratamento de pessoas malformadas.

A maternidade deve ser uma escolha consciente e responsável e nunca o fruto do mal funcionamento de um anticoncepcional.

Este post fica até sábado e espero ter tempo de responder aos comentários.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Estou voltando

Sempre que sento para escrever, o fluido viscoso de meus pensamentos começa a escorrer com maior liquidez para dentro dos assuntos que estão a ocupar os meus neurônios, de forma que se forma uma celeuma em torno da virtude, da demência e da oportunidade, tudo misturado com as práticas políticas, os gostos pessoais e as mais chatas convenções, sem dizer da noção que eu tenho para estacionar o carro e a alegria do meu time do coração, que já é, como se nota, de outro departamento deste corpo falível e meio ridículo que no fim das contas, vira, mexe, remexe, revira e por fim, termina por escrever alguma coisa.
Mas eu não estou muito bem ainda.

terça-feira, setembro 20, 2005

Achamos que vamos morrer

O vento gelado desceu da montanha e nos pegou quando nos abaixávamos para amarrar o sapato. O corpo vibrou e reagiu e então dói. Dói tudo. Doem as juntas, os ossos, os músculos. Doem até as idéias. Vamos ficar com as idéias doendo então pelo menos até as 14:30 de sexta-feira. Isso é o que nos está parecendo. Se até as 14:30 de sexta-feira não melhorarmos, então isso quererá dizer que erramos feio na previsão. A..Atchim...

quinta-feira, setembro 15, 2005

Como?

Esta semana um caso curioso (mais um) está ocupando espaço nos jornais italianos. Além dos capítulos da crise no Bankitalia, o banco central italiano, que revelou através escuta telefônica que o seu presidente, Antonio Fazio, contrariando suas responsabilidades de mediador isento fornecia boas indicações a um seu amigo, banqueiro e a tentativa de fraude eleitoral da parte de Berlusconi que pretende reformar a lei em proveito próprio, coisa na qual é já especialista, uma noticia de polícia chamou muito a atenção.

Na noite de 30 de novembro de 2002 Chiara Bariffi desapareceu sem deixar vestigios, incluindo seu carro que também nunca foi encontrado. Esta semana, seguindo indicações precisas de uma médium sensitiva, o carro com o corpo da moça foi encontrado a 120 metros de profundidade e a 200 metros da margem do lago de Como. Mas como? Me pergunto.

Não bastasse isso, a médium Maria Rosa Busi disse que sabe como ela morreu. Mas nem à policia ela disse, alegando segredo profissional. Ehhh... estranho isso. O mais estranho é que na estrada que margeia o lago, no local próximo de onde estava o carro existe uma mureta que nunca foi nem arranhada, nem na época do desaparecimento. Segundo se sabe, Chiara era um pouco depressiva mas a familia exclui a hipótese de suicídio. Homicídio é até plausível mas como enfiaram uma SUV no lago sem deixar marcas? Uma hipótese é o escorregador empregado pelos barcos, mas este fica a centenas de metros do local e é pouco provável que o veiculo que pesa toneladas pudesse superar as imperfeições e obstáculos do fundo. Pode ser que com os vidros fechados a agua tenha entrado lentamente, permitindo ao veiculo de boiar por um tempo e se afastar o suficiente antes de afundar totalmente. Mas e a médium? A investigação prossegue.

Enquanto isso, o Telefono Antiplagio , um comitê de defesa do consumidor que luta contra toda forma de charlatanismo entrou com um pedido contra a Busi na justiça, inclusive para esclarecimentos objetivos já que saber tanto assim é, no mínimo, comprometedor.

domingo, setembro 11, 2005

Fare Night 911













O segundo encontro blogueiro da Itália tinha tudo para ser bom. Marcado para hoje, os primeiros a chegar foram Allan do Carta da Itália com Eloá e este que vos fala desse lixo aqui junto com a Marly de sempre. Como a festa parecia destinada ao fracasso, pois não aparecia mais ninguém, Allan com seu charuto tentava estabelecer contato com outros blogueiros da itália, lançando baforadas plenas de significados convidativos. Flavio com seus óculos “Pinochet” começava a impacientar-se pois eram já quase duas horas que não ingeria algum tipo de alimento.








Depois de alguns minutos de sinais de fumaça, começaram a chegar blogueiros de todas as partes da Itália. Reuniram-se precisamente 3.472 blogueiros e respectivas famílias. O caos se instalou em Mantova, local do encontro. Um grupo de blogueiras anciãs desportistas, chegou com suas bicicletas. Alguns blogueiros azulejistas de direita chegaram de ônibus, os de esquerda a pé, os blogueiros churrasqueiros vegetarianos saltaram de para-quedas. A senha para o grupo é que estaríamos na pizzaria, sentados em uma mesa com um chiclete azul grudado no fundo.









O bafafá era completo. Imediatamente formou-se uma fila de blogueiros para entrar na pizzaria. Logo à nossa frente, um famoso blogueiro comentarista político, reconhecendo nossas raízes brasileiras, tentou nos adubar, cagando em cima de nossos sapatos. Se não se tratasse de um democrata, penso que nossa reação teria sido ainda pior. Nos limitamos a rir sem graça. A tal mesa com o chiclete azul, já tinha naquele momento mais de oitenta e três pessoas amontoadas e decidimos sentar do lado de fora, nos fundos, quem sabe encontraríamos um pouco de terra para plantarmo-nos.







Depois de três horas, conseguimos começar a comer, mas as pizzas eram pequenas e em pouco tempo iniciava-se a competição por um pedaço. A foto mostra um momento dramático. A cada cotovelada que eu conseguia aplicar no queixo do Allan, mais fumaça saía de sua boca, fazendo com isso que mais e mais gente acorresse ao evento. Na mesma foto se pode ver um blogueiro dentista briguento, de camisa xadrez, no momento que tirava um pedaço de pizza de dentro da boca de uma blogueira verdureira de Deus. A situação estava degringolando.







A cerveja era pouca, mas no final o bom senso venceu. Claro que depois de tapas, socos e pontapés, decidimos dividir o precioso liquido de forma civilizada. Quando fizemos notar ao garçom que a cerveja estava muito quente, ele também nos fez notar que a pizzaria não tinha banheiro e que se não estivéssemos bem atentos, bem...tudo podia acontecer. A sede era tanta que não nos ligamos nestes pequenos detalhes.








No final, depois de mais de oito horas de lutas, empurra-empurra, gritos e confusão, conseguimos sair e o mais importante, sem pagar, que era nosso objetivo inicial.
A bobagem foi pararmos pra fazer esta foto de confraternização, pois logo em seguida o minúsculo garçom nos alcançou e não obstante sua pequena estatura, nos carregou pra dentro da pizzaria, fazendo-nos pagar a conta de todos os 3.472 blogueiros e familiares que neste momento já estavam longe, bem longe, malditos salafrários.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Tchaikovsky é poderoso













O Flavio pensou que fosse uma brincadeira dos amigos do Nós por Nós quando foi informado que ganhou um CD de Tchaikovsky. Mas ontem quando chegou do trabalho, foi surpreendido por este belo presente. Efetivamente esse pessoal cumpre o que promete. Ele ficou muito contente com o CD.














O dia tinha sido duro e ele decidiu ouvir o CD para relaxar.

Os concertos para piano e violino o fizeram mais calmo e por alguns minutos, deixou de proferir palavrões.














Depois de uma hora e meia de audição, o relaxamento era quase completo, algum palavrão voltou a escapar, mas em russo, o que demonstra uma grande capacidade de absorção cultural.














Três horas depois, com a suite O Quebra-Nozes, Flavio, já com as nozes quebradas, entra no estágio de Nirvana. O êstase é total.














Depois do estágio Nirvana, vem o estágio Kurt Cobain, onde o relaxamento é absoluto e completo. Não pensávamos que um CD nos proporcionaria tanta alegria e paz.
Obrigado a vocês.
Assinado: esposa agradecida.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Hoje é feriado mas eu trabalho


Hoje, sete de setembro acontece algo especial. Os participantes da lista de discussão chamada blog-left fazem uma postagem conjunta sobre um mesmo tema: o Brasil.

Há alguns meses atrás fui convidado a participar dessa lista que reúne blogueiros progressistas, assim definidos pelos organizadores da mesma. Um movimento rizomático, alguém sugeriu, achei chique ainda que meio cenoura. Depois de meses esta é a primeira manifestação organizada do grupo e consiste nessa blogagem conjunta. Mas o que falar do Brasil? Para eu que estou longe e um tanto afastado dos problemas mais imediatos é difícil encontrar um gancho que me faça deslanchar o texto. O que falar já que praticamente não acompanho o dia a dia, não vivo as pequenas coisas que constituem um fractal, aquela pequena parte que revela o todo? O que me ocorre no momento é que não tem nada com mais cara de Brasil que a própria lista blog-left. Mesmo assim vou escrevendo o que me vem à mente sem muito projeto ou objetivo.

O que é a lista blog-left? Eu não sei, assim como não consegui desvendar o Brasil apesar de viver lá por 40 anos. Assim como eu, meu texto e o Brasil, a lista não tem projeto nem objetivos, é constituída por um monte de gente adorável e boa e que corre meio sem rumo, meio como Deus manda e quer e que tem em comum o fato de ter um blog.

Acho que isso é típico, faz parte de nossa característica como povo. Tudo tem prós e contras. Se de uma parte nos permite uma criatividade, flexibilidade e rapidez nas respostas, por outro não conseguimos lutar cooperativamente. Pra chegar a um consenso é um trabalho tremendo. É o famoso cada um pra si e salve-se quem puder. Isso tem raízes na nossa historia. (faço um parentesis auto crítico: será que eu acredito que usando uma linguagem meio didática os outros vão pensar que eu sou um entendido no assunto? Eu sempre fui mal de historia santo deus. Eu deveria ter vergonha. Fecha parentesis)

Como povo, somos constituídos das mais diferentes etnias e origens. Somos um fractal do mundo. Se o mundo fosse uma fazenda e cada país um galinheiro, no nosso teria não só todos os tipos de galos e galinhas, mas teria também pombos, papagaios, pavões, enfim todo o tipo de ave que mãe natureza soube produzir. De um lado, o que constitui uma inegável riqueza, por outro, dificulta o entendimento e a obtenção de resultados práticos. Enquanto todos estão cococò-cococò, entrando em sintonia, nós estamos tentando ainda saber que língua falar já que o papagaio não para de atrapalhar e os pavões ficam dançando com aquele rabão bem na hora que a pomba coitada, resolveu falar com sua vozinha miúda. Bem, chega de metáforas zoológicas, voltemos ao Brasil e nossa lista. Penso que a falta de projeto e a pequena consciência coletiva são frutos de nossa cultura, que, a encarar estritamente, é uma não cultura, isso porque a própria definição do termo pressupõe aquilo que é a obra humana que é comum a uma comunidade. Cultura não é só saber citar os filósofos - pavão, sai pra lá - nem demonstrações de erudição – papagaio, dá um tempo. Cultura é a língua, a culinária, a musica, as festas populares, o folclore, o jeito de receber a visita, o modo como nos olhamos, como nos relacionamos, enfim, a cultura é aquilo que nos faz iguais, não o que nos diferencia. Aqui de novo, se por um lado a nossa riqueza imensa nos faz orgulhosos e podemos até exportar produtos culturais, contraditóriamente estes mesmos produtos ainda não são capazes de nos fazer uma nação. Nós temos inúmeras culturas regionais e estamos ainda colando as peças do mosaico. Mosaico este que talvez seja o maior e mais original jamais feito, por isso a dificuldade. O vatapá tem que entrar no cardápio, ao menos nos restaurantes, ao menos no inverno. Cada brasileiro deveria saber o que é o boi de mamão assim como se sabe o que é country e funk. Aliás o que ocorre no Rio de Janeiro é representativo do que se produzia ontem e que deu espaço ao que se consome hoje. (Veja como é cara de pau o brasileiro. Instigado a falar do país, começa dizendo que não entende nada do assunto mas depois de dois parágrafos já está dizendo o que fazer pra consertar tudo. Depois dessa eu deveria parar por aqui mas mesmo assim, deslavadamente, vou em frente)

Nesse sentido, o Brasil já teve mais chances. Nós já tivemos uma maior capacidade de entendimento que ao longo de nossa conturbada história recente foi se perdendo um pouco. Alguém pode dizer que são os efeitos da globalização, mas no nosso caso esta fez uma devastação talvez maior àquela que sofre a floresta amazônica. Porque a globalização não quer dizer destruição das identidades nacionais mas sim o relacionamento destas. Exemplo, culinário, como me agrada: a pizza é global, mas só os americanos acham que é um produto americano, todo o resto do mundo sabe que é italiana, ou melhor, napolitana. Ninguém precisa deixar de saber que o que consome sempre é algo italiano, até porque as coisas vão sendo incorporadas Ou seja, nós devemos participar mais e nos relacionar mais com o resto do mundo e o faremos muito melhor se formos nós mesmos. Nós temos seguramente mais a dar e vender do que receber e comprar mas estamos hoje fazendo o contrario. O lance é encontrar a cola do mosaico e a colagem do mesmo deve ser feita logo, antes que percamos peças demais. Hoje em dia o Brasil é samba, futebol e...o que mesmo? (Mais uma vez noto uma certa arrogância nas frases, mas como fui eu mesmo que escrevi o texto, poderia soar estranho observar isso e é melhor ficar quieto)

O que a lista blog-left tem a ver com tudo isso? Não sei bem, mas como disse antes, é um retrato do país. É formada por gente da melhor qualidade e capacidade, todos tem bons ideais e a melhor das intenções mas sem projeto e objetivos, discute-se a exaustão com poucos resultados. Mas a prova de que é do caos que nasce a luz, eis que hoje finalmente, depois de muita troca de idéias se partiu para a prática. Ainda uma tímida e simples postagem conjunta sobre um mesmo tema, é o que conseguimos organizar depois de quatro meses, mas já é algo mais que nada. O potencial é enorme, imenso, mas ainda acontece pouco. Tem tanto lugar no mundo que é o contrario, realiza mas cria pouco, que eu fico pensando que quando a gente conseguir engatar a marcha certa, vamos melhorar nossas vidas e isso é o que importa. Cultura portanto, penso eu, é a palavra chave. (Bravo, dá uma de gostoso mesmo, belo jogo de palavras, a galera vai achar que você é uma autoridade no assunto, idiota)

Temos que avaliar também se vale a pena vencer a dose de desorganização que nos foi legado pelas gerações passadas. Outra vez a historia nos demonstra as raízes do problema. Faço um exemplo com algo que conheço um pouco melhor que galinhas ou samba, o urbanismo. O desenho de nossas cidades em confronto com as cidades dos países colonizados pela Espanha dão um bom exemplo de como a diferença de objetivos e organização porta a resultados muito diversos. Os bons portugueses tinham como única mira o extrativismo, levar para Portugal tudo o que pudesse significar valor de troca e isso incluiu madeira, ouro, borracha etc, todo mundo sabe. O Brasil por muitos anos foi o quintal onde colher os frutos sem nunca plantar. Os espanhóis ao contrário, consideravam os territórios americanos como solo espanhol, terra para ser cultivada e gestida. Talvez isso explique em parte a fúria e o modo industrial com que os irmãos ibéricos eliminaram os povos nativos. Os portugueses não deixaram de fazer sua parte na matança mas até aí tinha uma característica aventureira muito mais que de estratégia militar e de ocupação. Pois bem, as cidades espanholas são quase todas planejadas e se percebe claramente um desenho e uma intenção. Da nossa parte, nossas cidades foram crescendo a caso, contornando morros, sem desenho, sem projeto. Se as cidades espanholas são mais funcionais, as nossas tem a surpresa, a unicidade, tem mais vida pulsando, mas também muito menos adequadas à modernidade e ao ritmo de vida atual. (Aqui eu talvez esteja sendo ambíguo e inconclusivo. Afinal é bom ou não ser organizado? Vai saber...)

Mas não é só isso da cultura e da organização. Tem também a questão social. O Brasil é constituído por castas e hoje tem uma das piores distribuições de renda do planeta. Alguns torcem o nariz quando se fala de elite, mas estes são principalmente os que fazem parte dela e não querem, é até lógico, reconhecer que participam de algo um tantinho exclusivista e fechado em um ambiente que pediria inclusão e abertura. Nesse ponto, temos uma culpa enorme. Crianças dormem pelas praças e vivem de comer lixo e cheirar cola. Isso não é normal. Não é desejável, aceitável e muito menos produtiva essa situação. No entanto o que deveria ser encarado como uma emergência igual a dos refugiados do furacão, é tratada com desprezo ou quando muito com benevolência. Claro que peguei um único exemplo para ilustrar. Temos dezenas de emergências que são negligenciadas. A saúde, moradia, transportes, a lista é imensa. O que a elite faz? Vai às compras e se diz preocupada com a própria segurança.(Ai que seriedade hoje!)

E nossa lista de blogueiros? Seríamos uma elite na elite na elite? Seríamos o clube dos poucos progressistas dos poucos que tem blog entre os poucos que tem acesso à internet entre os poucos que tem computador. Puxa vida. Porém uma lista de progressistas não poderia ser fechada, tipo um clube privè mas sim aberta e pública, assim como no Brasil os bastidores do poder de tão secretos que são, levam a situações às quais os jornais estão cheios nos últimos tempos. Transparência é o que cobramos estando em uma lista inacessível a todos e isso me inibe e me tolhe um pouco a ação. Em uma lista pública a participação é mais quente e responsável além de não dar margem a ilações e jogos de esconde. Quem está de fora pode imaginar de tudo. Pode-se pensar que se tramam quem sabe que coisas. Pode-se pensar também é claro que se discutam os grandes problemas nacionais e internacionais e isso efetivamente acontece, mas então porque justamente isso não se faz em modo acessível e participativo? Talvez alguém me diga que lista é isso mesmo e sou eu que não entendi a coisa. Quem sabe me expliquem que meu país é cheio de excluídos mas que isso é normal e sou eu que não olhei pra realidade, sou um sonhador. Mas somente penso que um terrível pensamento ultra conservador está lentamente crescendo ainda que de modo localizado mas que deve ser confrontado em modo aberto e coerente. Um belo movimento progressista, includente e participativo e com objetivos claros seria o máximo nesse momento. (Pirou de vez, como super-ego agora sim que já me dissocio desse monte de ...bom, deixa pra lá. No fim nem sei mais quem é o super-ego aqui)

Não pirei não, tanto é que expontâneamente e de modo natural, bem brasileiramente, surge o blog Nós na rede que é o resultado da reunião dos blogueiros da lista. Seria um espaço para as blogagens coletivas e seria o inicio do fórum aberto e participativo de que falava.(Vamos ver)

Para quem não tem o que dizer até que está bem grande esse texto. Ao final quero dizer que o belo do Brasil e dos brasileiros é que somos um mar de contradições. Aquilo que nos causa dor, nos faz sonhar. Aquilo que nos impede o caminho é o que usamos para andar avante. Darcy Ribeiro sonhava não com o povo mas sim com a nova civilização brasileira. A nova raça que vai fundir o gênero humano em um único e imutável padrão: o da diversidade e da tolerância. Quero ainda acreditar nisso. Longa vida ao Brasil e à nossa lista blog-left que espero, ambos, de todos.(ai, ai, ai)

segunda-feira, setembro 05, 2005

Rapidinhas

-Grande, ou melhor, enorme sucesso ontem a Festa della lumaca, ou seja, a festa da lesma aqui no bairro onde moro. A já tradicional manifestação acontece sempre no final do verão e se constitui em uma das mais concorridas reuniões de comilões e beberrões dessas bandas ao lado da Sagra Polenta e Mortadela que não precisa explicar o que é e a Pan, Bondola e Vin que quer dizer, pão, mortadela e vinho. Degustação de pratos com a lesminha e jogos para todas as idades compõe o quadro que se vê na praça do Pernone. O ponto alto da festa foi o tradicional baile com a tradicional banda e as tradicionais musicas de sempre. O ritmo mais moderno que se ouviu ontem foi um twist. Foi ótimo.


-Caso curioso esta semana. Em Rovereto, cidade a 20 Km daqui, uma senhora aparentando 65 anos entrou em um banco logo depois do fechamento alegando problemas com o cartão magnético. Quando dentro do banco, sacou uma pistola e anunciando suas intenções assaltantes limpou os caixas, aliviando de 10 mil euros a instituição de crédito. Não bastasse, no dia seguinte os jornais noticiavam o fato ao lado dos comentários da população que está francamente a favor da velhinha. Ninguém condenou o ato talvez de desespero da mulher que pela idade, seguramente vive com uma mísera aposentadoria. Isso quer dizer que a moda tem tudo pra pegar.


-A Itália é um país de velhos. A média de idade aumenta de ano a ano e algumas prefeituras pagam até mil euros para o casal que tem um filho, como forma de incentivo. Isso porque dentro de poucos anos faltará mão de obra e teremos um país de aposentados assaltantes desesperados. Bem, um povo que come lesmas, ao menos de fome é difícil que morra.

sexta-feira, setembro 02, 2005












Nosso desejo também é que New Orleans seja reconstruída e retome breve o seu ritmo de vida. O blog de Idelber se transformou em um ponto de apoio e informações para ajuda aos desabrigados.












Um drama para milhares de pessoas que estão sem alimentos e água já àlguns dias e sem perspectivas de retornarem para suas casas, isso para aqueles que ainda tem uma. Uma excelente comentarista da tragédia é Leila em seu blog.
















Grandes areas da cidade foram totalmente submersas pelo rompimento dos diques que continham a água do mar. Obras de recuperação e manutenção dos diques foram negligentemente adiadas pelo governo Bush, definidas como não prioritárias. Furacões são consequência de diferenças de temperatura entre massas de ar que se encontram e o aquecimento do planeta só faz agravar o fenômeno. Boas reportagens sobre aquecimento global e suas consequencias se encontram nos blogs de Smart e de Lucia Malla
















Para muitos o socorro possível veio do céu, através dos helicópterois da proteção civil, bombeiros, polícia etc.













Bush agora tomou uma atitude: botou o exército para controlar a situação e mandou passar bala em quem não andar na linha. Desgraçadamente coerente esse homem.

quinta-feira, setembro 01, 2005

O poder

Sério e altivo me alcanço ao luxo

Penso naquilo que me fez sorrir

Algumas vezes me senti um bruxo

Roubando aos fracos, fiz-me erigir

Estátua de bronze, meu próprio menir.


Sem escrúpulos a me conter a via

Pouso as armas e me faço largo

Em tortas estradas por onde sempre ia

Rasgando os moldes do letargo

Entrego-me ao gosto de por todo amargo.


Sublimes ondes de puro talvez

Paroxismos de sinuosos tormentos

Iridados de uma enorme altivez

Réus eminentes mas um tanto grudentos

Encontram versos nos meus excrementos.

More blogs about lixo tipo especial.