sábado, outubro 29, 2005

A bala

Quem ainda, anda
vai à frente,
Deixa de parar,
Despara.
Porém ao correr,
Dispara
E quando diz: paro, pára.
Por isso disparo, bala.

Então quem a bala abala
É alvejado
Pois abalar o disparo
É parar o desabalo,
É incorporar chumbo,
Ser alvo,
Branco,
Límpido e morto,
Inabalável.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Uma mostra do cacete

Dresden é a cidade alemã das artes e até janeiro quem estiver por aqueles lados poderá visitar no palácio japonês a exposição “100.000 anos de sexo”. Quem acha que a arte erótica é uma novidade ou então se sente “moderno” ou ainda pior, “pós-moderno” porque se liga nesse tipo de manifestação, tem ali uma boa oportunidade para rever os próprios conceitos. A mostra reúne 250 peças de 60 museus europeus e repercorre as etapas fundamentais da arte erótica do paleolítico até o século XIX. http://www.archsax.sachsen.de/lmv/content/ausstellungen/26_253_DEU_Screen.htm

O arqueólogo alemão Christian Gliwitzi declarou a respeito da mostra: “ o sexo é tão velho quanto a humanidade e nós somos a prova viva". Esse tipo de mostra e esse tipo de declaração não deixam de trazer certo desconforto, já que mesmo que já se saiba, podemos sentir muito intensamente como e o quanto a historia é de uma repetição infinita. A criação é sempre re-criação e o ser humano de hoje é muito parecido com aquele de 50 ou mais séculos atrás. Mas o desconforto passa diante da curiosidade pelas peças mais antigas e a beleza das mais recentes. As fotos feitas entre 1852 e 1880 são deliciosas.

Uma das peças é uma minissaia de trancinhas de barbante unidas pela cintura e amarradas também nas coxas, que com o movimento dos passos deixa entrever as partes todas. Foi encontrada em um túmulo de 1.400 antes de Cristo na Dinamarca. Roupa sexy portanto, é uma forma de sedução muito antiga


Na parte grega da mostra, se pode perceber o quanto o sexo era central na vida, inclusive social, das pessoas. Na verdade o sexo e o falo (Phalos em grego) eram sagrados e venerados.
Os romanos também comparecem com grande destaque para as imagens e mosaicos de Pompéia e inúmeros objetos ligados ao culto da fertilidade, entre eles um pênis com asas, em bronze. Isso pode explicar porque em todas as línguas o dito cujo tem um ou mais sinônimos no mundo aviário. Alias, essa gripe dos pássaros me preocupa mais por isso.

Perto de Isernia, uma cidade ao sul de Roma, existe inclusive uma area que era dedicada aos deuses da fecundidade desde a pré-historia. Ali se ergueu um templo pagão em forma de pinto dedicado ao deus Príapo, onde as mulheres nas noites de culto, faziam ofertas no altar com dildos de cera ou pedra. Depois veio a igreja católica, fez um templo no local e as mulheres hoje cultuam cadáveres e ...bem, não quero entrar nesse terreno. Não bastasse tudo isso, a mostra vale a pena pelos desenhos renascentistas, incluindo alguns de Leonardo da Vinci. Quem estiver passando por perto de Dresden, não pode perder.

(imagens: Tgcom)


sábado, outubro 22, 2005

Outono

Outono é bonito e estranho. Você abre a janela porque está meio quente e vem um vento gelado e te faz sacolejar tremendo. Fecha a janela e o ciclo recomeça. No outono você tem um relacionamento intenso com a janela.

Quando dizem que um está no outono da vida é porque os urubus já se vêem lá no alto. Um tempo onde as coisas vão definhando e perdendo o brilho. Uma imagem um tanto negativa que no final das contas é uma injustiça. Porque é uma estação belíssima e se para nós seres humanos que um dia ou outro acabamos, o outono é triste porque nos lembra a morte, para a natureza é apenas mais um de seus ciclos.

As folhas amarelas pelo chão, as diversas tonalidades de vermelho das copas das arvores, a bruma que marmoriza a paisagem, tudo convida ao recolhimento e a reflexão.

Reflito que o mundo vive um outono. Espero que seja um dos seus ciclos e não o outono de nós humanos. Está tudo muito estranho. Hoje a noticia que morreu um papagaio na Inglaterra deixa o mundo em polvorosa. Quando é que eu me preocupava com um papagaio que morreu na Inglaterra? Dizem que não devo me preocupar, não existe motivo para alarme mas pode ser que em um futuro breve uma pandemia possa propiciar para milhões de pessoas o mesmo fim do papagaio. Bem, mas devo ou não me preocupar? Não, desde que tome vacinas e compre remédios. Ah, sim, na duvida, a indústria farmacêutica garante lucros fenomenais. E não é que estas coisas se encaixam? Bem, deixa pra lá.

No Brasil se fala de desarmamento. Como sempre e como tudo o que se propõe no país, a idéia é ótima, avançada moderna e civilizada, mas não vai dar certo. A política do medo ainda dita as regras sociais. Fala-se de bandidos como uma entidade mítica que está fora da sociedade e que entra nas casas com o prazer de matar. Os bandidos ao contrário, são parte integrante da sociedade, são cidadãos brasileiros quer isso seja do agrado ou não. O discurso dos “homens de bem contra bandidos” só revela o quanto o Brasil tem ainda que caminhar no sentido de avançar socialmente, fazer diminuir a desigualdade. Isso sem falar que muitos dos bandidos usam gravatas e nunca empunharam uma arma. O que não se percebe é que a proposta do “não” visa socializar o medo e privatizar a segurança. Cada um pra si. Sem armas como vamos fazer, deus do céu? Eu nesse caso, se um terrível bandido entrasse em casa, usaria o papagaio. Mais uns meses e o papagaio vai se transformar em arma temida por todos.

Ah, o mundo e seu outono.

Aqui na Itália a confusão sempre foi de casa mas nunca como agora. Para se ter uma idéia o PSI, ou seja, Partido Socialista Italiano, está fazendo um congresso de bate bocas furiosos pra decidir se fica com a esquerda ou com a direita. Eles saíram do governo Berlusconi que é praticamente fascista e estão pensando em se aliar aos liberais ou à coalisão de esquerda. Isso é que é coerência ideológica. Ninguém se entende mais. E poucos são os que tem informação de boa qualidade. Segundo a organização Reporters sans frontières, a Itália está no 42º lugar da classificação dos países no que se refere liberdade de imprensa. Posso confirmar que as informações que chegam ao cidadão comum são mais filtradas que o vinho que ele bebe. O Brasil também não está muito bem no ranking, ocupando o 62º posto, atrás de Albânia, Botsuana, Timor-Leste, Niger, Croacia e outros.

Temos entre nós e a realidade, o poder.

Levanto e vou abrir a janela, a ar está pesado.

Parou de chover e as nuvens cobrem a metade superior das montanhas. Elas estão sempre lá, as montanhas. Mesmo quando não as vejo, sei que estão lá. As nuvens é que vem e vão. Fabrizio de Andre falava das nuvens. “As vezes elas cobrem o céu por tanto tempo, que não se pode ver nem o sol nem as estrelas e não sabemos nem mesmo onde estamos. Mas elas se vão. O seu poder é efêmero, passageiro. Elas vem e vão e para uma verdadeira, mil são falsas e se colocam ali, entre nós e o céu, pra nos deixar somente, um desejo de chuva”.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Isso nunca aconteceu antes

Anteontem em Roma um garoto de quinze anos matou seus pais a tiros de pistola. Ele sofria de depressão e com medo de ser levado a uma clinica para tratamento, encontrou essa saída: disparar em seus parentes. A arma estava em casa e havia sido comprada para proteger aquelas pessoas. O garoto agora quer se matar.

domingo, outubro 16, 2005

Lorenzo in the land of spaghetti













Ontem no MART de Rovereto um evento histórico de poesia e anti conformismo
político. O bom e velho Lawrence Ferlinghetti estava ali para ler suas poesias. Simples assim, mas absolutamente emocionante. Não bastasse este que é um dos maiores poetas vivos, estava la também Jack Hirschman, outro dos grandíssimos poetas americanos da geração beat. Não bastasse isso tudo, eu estava lá, que sou um dos mais desconhecidos poetas do mundo.

Ferlinghetti está com 86 anos que carrega não demonstrando peso, e lê as poesias em modo perfeito. Sua poesia é culta mas feita de palavras comuns. Pode ser erudita e popular ao mesmo tempo e isso é a característica que distingue a obra de arte das obras de gênio. Todas as grandes obras em todas as áreas da arte, são as que conseguem estes diversos planos de leitura e permitem uma revelação e um prazer, de qualquer ângulo se analise. O nosso Lorenzo sabe como ninguém fazer isso.









Para mim o prazer foi ainda maior por ter sido chamado pelo meu amigo Renzo Grosselli, jornalista e poeta também ele, companheiro de cantorias e bons momentos, para bater uma caixa com os dois. Renzo é o cara que tem os cabelos brancos de carneirinho da primeira foto e foi quem leu as traduções em italiano no evento, conseguindo belos efeitos a la Jack Hirschman. Como jornalista e apresentador em alguns dos eventos dos dois aqui na Itália, ele tem acompanhado esses malucos por tudo que é lugar.









Em Brescia alguns dias atrás, o Ferlihghetti estava procurando a casa onde nasceu o seu pai e sabe-se lá por que motivo, a policia o prendeu por estar girando em atitude suspeita. Como sempre, a policia italiana nos fornece a piada pronta. Desfeito o mal entendido, entre sorrisos amarelos tudo terminou em uma foto de recordação. Os caras prendem e depois pedem autógrafo.

O velho Ferlinghetti assim como eu, está preocupado com o planeta. Compôs em homenagem a sua visita aqui no Trentino esta poesia que em breve traduzo em português. Dizia que Bush, Berlusconi, a guerra, são problemas enormes mas a ecologia è uma crise por demais dramática e fundamental. O planeta está morrendo e todos com nosso modo de vida temos responsabilidade.








Ao subir ao palco, Ferlinghetti quis mostrar também uma pintura que tinha feito e que se chama “Bagno di seni” ou seja, banho de seios, comentando que este banho é muito melhor que qualquer outro. Como sempre, várias leitura possíveis e todas geniais inclusive a contraposição que sugere o trocadilho do título com o banho de sangue dos nossos dias.









No final Ferlinghetti ficou dando autógrafos em escala industrial, uma loucura.
Um pouco menos famoso e de conseqüência, por sorte menos assediado, Jack Hirschman estava mais disponível a um bate papo. È uma figura esse cara. Perguntei:

-Jack, quantos anos você tem?

-72, diz ele sorrido.

- Po mas você tá bem pra burro. Você fez lifting no bigode?

-O bigode eu deixei crescer bastante porque me sobraram só dois dentes na boca, hehehehe.

-Quando eu tiver a tua idade eu vou deixar o bigode assim também.

-Depende dos teus dentes, hehehehe.

Nós poetas de alto nível, quando dialogamos tratamos somente de temas profundos.

Na saída, estava Mary de Rachelwitz, filha de ninguém menos que Ezra Pound e que foi lá pra se encontrar com os dois. Esse lance eu perdi mas paciência, fica pra próxima.

Abaixo, deixo alguns links onde estao algumas poesias que foram lidas aqui ontem. Vale a pena.

http://www.rooknet.com/beatpage/writers/ferlinghetti.html

Uma poesia aplaudidissima com razão foi “the world is a beautiful place...”. Abaixo o link

http://www.1000plus.com/Cataract/fw2.htm

Aqui um video com o Lorenzo que le poesias em modo perfeito , interpretando a sua In Goya's Greatest Scenes We Seem to See

Algo de Jack Hirschman nesse link abaixo, inclusive o audio de sua leitura de New York New York, uma das que leu aqui

http://www.ilnarratore.com/collectman/show.php?type=author&language=it&aid=86&tpl=/ita/autore.tpl.html

sexta-feira, outubro 14, 2005

Precisamos de idéias novas

Um dos truques usados pelos blogueiros quando estão sem tempo para escrever longos posts é lançar uma pergunta e transformar a caixa de mensagens em um complemento interessante do post curto. Eu nunca farei isso, nem mesmo hoje que estou sem tempo. Mas a perguntinha eu deixo mesmo assim.
Já fazem cem anos que começamos a entender o mundo a partir de E=mc². Alguém aí tem uma idéia melhor?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Armas


“Sempre brinquei com armas, falsas ou de verdade. Quando eu era pequeno eu dei um tiro no pé de meu amigo com a espingarda a pressão porque ele me atormentava e ele se machucou um pouco com isso. Depois, anos mais tarde, já adolescente, um dia na casa de um amigo mexendo no armário do pai dele, encontramos uma arma que eu não sabia que estava carregada e apontei para a cabeça dele e fiz pum. Juro que ali foi acidente. Não me esqueço da impressão que fez a visão de partes do seu cérebro esparramados pelo quarto. A bala entrou pelo canto do olho onde fez um pequeno furo, mas a calota da nuca ficou toda aberta. Foi acidente, juro. Quando eu era já um adulto o azar voltou a me visitar. Eu tinha uma namorada muito linda e a amava mesmo profundamente. Ela quis me fazer uma surpresa, era uma moleca, e invadiu minha casa de noite. Quando vi aquele vulto não tive duvidas e descarreguei minha pistola naquela direção. Coitada da garota, levou quatro perfurações, uma no pescoço, duas no rosto e uma na perna.”


Este texto é fictício, mas infelizmente baseado em fatos reais e desgraçadamente comuns.


O controle do comércio de armas é o primeiro passo para mudar esta realidade.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Robôs...

Já não é novidade o robozinho da Compet mas eu nunca disse que isso aqui é jornal de novidades e só agora tive tempo de testar o treco. Entrei aqui http://www.conpet.gov.br/home_kids.php?segmento=kids# e tentei me divertir.

Ed: Bem vindo ao site do CONPET! Eu sou Ed, o robô. Vim de outro planeta com a missão de ajudar na preservação de energia e de outros recursos naturais. Sobre o que você quer conversar?

Você: qualquer coisa menos energia

Ed: Qualquer coisa? Então tá. Podemos começar falando sobre conservação de energia? *

Você: eu disse que não quero falar de energia

Ed: Tudo bem, se não quiser falar, não fale. (snif) *

Você: bem, você matou a papo assim, em duas linhas?

Ed: Nem pensar, impossível. Nenhum robô de verdade mataria um ser humano. Impossível contrariar as leis robóticas. *

Você: tá me gozando?

Ed: Nem pensar. Não sou de ficar tirando sarro de ninguém. *

Você: mas são estes teus assuntos?

Ed: [INROBOT CONNECTION ERROR - 408 Request Timeout while reading url] *

O marquingenho entrou em tilt antes que eu pudesse colocá-lo a prova. Outra hora tento de novo.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Cimego









O desafio por estes dias será transformar este gracioso edifício em um teatro para 150 lugares. Teremos que derrubar praticamente tudo, preservando a configuração original e a tipologia características. Alguns elementos como o pórtico de ingresso serão reaproveitados integralmente após restauro. Um projeto simples mas muito simpático e interessante até porque é para a pequena aldeia de Cimego. Conhecida como a cidade do ferro e dos hereges, encravada entre as montanhas do vale Giudicarie, transborda de história. Outra hora falo dos hereges na região, incluindo as bruxas. Mas o que chama a atenção é que uma comunidade tão pequena, no total são 430 habitantes, tenha tantas tradições mantidas, e esta força de realização. Seria como haver só em São Paulo, seguindo as proporções, teatros para três milhões de cadeiras, ou seja, 15.000 teatros de 200 lugares. Penso que quando se chegar a isso no Brasil, será o sinal de que nossos valores como povo e nossos projetos de vida, conseguiram dobrar a esquina do atraso e centrados nos valores da cultura, haveremos construído um belo lugar pra se viver em paz. Elocubrações inúteis, minha especialidade, mas eu me divirto assim, com pouco.
Voltando a Cimego. A cultura move tudo na cidade. Dos percursos didáticos à banda de música, passando pelo artesanato em ferro, tudo remete a um fazer local. Por isso, o projeto do teatro vai respeitar isso, a cultura local. A arquitetura é boa não quando segue padrões estéticos ditados por interesse da indústria ou das imobiliárias. Ela é boa quando respeita os dois elementos principais dessa brincadeira: as pessoas e o ambiente. Ela é feita para as pessoas e faz parte de uma paisagem. Dizer que algo é bonito ou feio não basta, tem que entender pra poder amar. Em breve meto aqui o projeto.


sábado, outubro 01, 2005

Uma mente realmente doente

Esta semana ficamos embasbacados com a história de V.Z., uma dona de casa italiana que sofre de uma lesão no cérebro, justamente na área do lobo temporal mesial, responsável pela capacidade de reconhecimento, seja de objetos que de pessoas. A parte a falha de memória, ela fala, lê, escreve e tem suas atividades normalmente. O mais surpreendente desse caso é que a senhora V.Z. tem uma lesão mais pronunciada no hemisfério direito do cérebro e não consegue reconhecer ninguém, nem mesmo o marido ou filhos, exceto... Silvio Berlusconi ! Os cientistas estão chocados. Fizeram uma série exaustiva de testes e exames e não tem jeito: a senhora só demonstra saber quem é o Berlusca Sparacazzate . Isso está levando a conclusões quanto a capacidade da mídia de entrar fundo em nossas mentes, inclusive utilizando canais diferentes dos tradicionais para a armazenagem de dados.

Em artigo na revista “Cortex”, os neuro-psicólogos Sara Mondini da Universidade de Padova e Carlo Semenza, da Universidade dei Trieste, fornecem com este estudo uma prova biológica de que o fenômeno dos meios de comunicação de massa age em maneira profunda na nossa psique através um bombardeio repetido de idéias e imagens, principalmente imagens.

A conclusão que eles chegam é que todos nós temos um sistema de memorização de ícones, que é separado daquele utilizado para o reconhecimento de objetos e pessoas reais. Ali é que age em modo sistemático o Grande Irmão. Matrix está aos poucos se revelando. Porra, mas justo Silvio Berlusconi é o Grande Irmão? Vocês não imaginam como tenho pena da senhora V.Z.

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