domingo, novembro 06, 2005

Questões de estilo

A carta dele começava mais ou menos assim:

“Estima, consideração e apreço são sentimentos nobres que me invadem a alma, porém são palavras pobres para exprimir tanto amor, tamanha paixão que tenho por você”

Achei muito formal, muito “manual de como escrever cartas”. Bem, era a primeira carta que ele mandava pra mim desde que eu fui transferida aqui para o interior. Achava que com o tempo as coisas iam melhorar. Respondi-lhe no dia seguinte e toquei de leve no assunto. Disse que poderia se soltar mais, escrever como se estivesse conversando comigo. Duas semanas depois recebí outra carta. Havia melhorado um pouco:

“Sem você por perto é como estar vivendo em um cemitério. Tudo está sem vida, sem graça. Fico horas e horas parado na calçada do colégio onde você lecionava, recordando nossos bons momentos juntos”.

Ainda estava um pouco formal, mas é claro, a gente tem que dar um desconto, pois ele foi educado num esquema muito rígido, colégio de padres e agora é funcionário do Ministério do Trabalho. Escrevi-lhe que me orgulhava do seu esforço e que havia achado muito melhor o seu estilo. Claro, a gente tem que elogiar para a pessoa se sentir segura e prosseguir. Disse também que ele poderia dispensar as analogias , as metáforas, as alegorias e as hipérboles, pois eu sabia o quanto ele me amava e não precisava tudo aquilo. Dei nota 6 pra ele.

A carta seguinte chegou logo e já revelava um enorme passo adiantre no que se refere à limpeza do texto:

“Sabe quem eu encontrei ontem em frente ao colégio? A Nice, a professora, sua ex-colega. Me fez lembrar de você....”

Escrevi na mesma hora. Bravos! Estamos progredindo muito bem. Direto ao assunto, sem frescuras, sem salamaleque. Só uma coisa me incomodou um pouco. As reticências. Ficou meio ridículo. Uma tanto inacabado, meio bobinho. Mas , de resto, nota 8.

Não deu uma semana e veio a carta nota 10:

“Acabou. Tô com a Nice. Tchau”.

17 Comments:

Anonymous Roberta Febran said...

Tsc tsc, homens... Viu só como vocês complicam tudo, sem a menor necessidade? Melhor que isso só tendo coragem para olhar nos olhos e pronto. Hahaha, genial... Bacio, bello!

12:08 AM  
Anonymous Leila said...

He he he, talvez até se ela continuasse morando na mesma cidade. ele a teria trocado pela Nice. Ficar criticando as cartas de amor do cara não era mesmo um indício de um futuro bom relacionamento. Bjs,

1:22 AM  
Blogger Viva said...

Uma vez professora, sempre professora. Mas isso porque ela não estava nem um pouquinho interessada nele, né? Por isto só reparava na redação. Acho.

3:07 AM  
Blogger Denise Arcoverde said...

Hehehe... genial, Flavio... mas o que você tem contra as reticências??? elas são fundamentais, pra deixar algo no ar... não vivo sem elas...

Cartas ou emails não podem abusar da formalidade, esse daí, por mim, tava liberado pra ficar com a Nice...

4:20 AM  
Anonymous Sandra said...

"Quem procura, acha!" rsrsrsrsrs

12:17 PM  
Anonymous gugala said...

muito, muito bom.

2:23 PM  
Blogger hfjhfyrhjfd said...

Ela é uma chata mesmo.
Legal você escrever uma personagem feminina. Eu tenho uma dificuldade enorme de escrever narrativas ondeo narrador é do sexo oposto, prefiro não arriscar.
ficou ótimo, adorei.

6:39 PM  
Blogger claudio boczon said...

"Que saudade da professorinha
Que me ensinou o beabá
Onde andará Mariazinha
Meu primeiro amor onde andará?"

o Ataulfo sabia das coisas e das laranjas na beira da estrada.

11:56 PM  
Anonymous D. Afonso XX, o Chato said...

Forma e conteúdo inversamente proporcionais. Matematicamente perfeito. 10. abs

12:33 AM  
Anonymous BethS said...

Que muiezinha chata, né?
Mas ele também não fica atras.
Bom aqui mesmo é você e o seu texto!
Beijo.

3:33 AM  
Anonymous Lucia Villa Real said...

E lá vêm elas, as reticências... ridículas, bobinhas, soando um tanto incabadas... fazer o que se não sobrou nada a dizer sobre este post?

Excelente Flávio....
Excelente.....

12:36 AM  
Anonymous Maria said...

Através do blog da Clara Vasconcellos ganhou mais uma visitante. Dei umas boas gargalhadas a ler os seus posts e adoro a sua forma de escrever.

8:24 AM  
Anonymous anna said...

feitos um para o outro. por um tempo.

4:54 PM  
Blogger Luciana said...

É, quando comecei com o blog me exigi, digamos assim, cortar as reticências dos meus texto, porque escrevia direto com elas. Depois, em conversa com o Biajoni, ele me aconselhou a cortar as vírgulas também, disse que uso muito, que quebra o texto. Eu tento, me policio, mas adoro uma vírgula, um ponto-e-vírgula. :) Abraço.

7:09 PM  
Anonymous edu said...

Hohoho... Muito bom!!!

1:53 PM  
Blogger Lu Braga Triplett said...

Muito divertido seu texto! Sou filha de professor universitario e acostumadissima a ter meu portugues corrigido por meu pai em cartas ou e-mails. So que ama, entende! Contudo, meu pai nunca tentou controlar o conteudo do que eu escrevia nem como eu deveria me expressar. Essa professora de sua estoria exagerou na dose! Sorte de Nice!:):)

8:18 PM  
Anonymous Anônimo said...

Keep up the good work » »

12:27 AM  

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